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Sexta, 25 de março de 2011, 08h13 Atualizada às 18h59

EMI "amesquinhou" obra de João Gilberto, diz laudo de Paulo Jobim

Claudio Leal

Arrastado há 14 anos, e emperrado no STJ (Superior Tribunal de Justiça), o processo do músico João Gilberto contra a gravadora britânica EMI, detentora do catálogo da extinta Odeon, está respaldado por laudos técnicos do músico Paulo Hermanny Jobim (filho do maestro Antonio Carlos Jobim) e do compositor Caetano Veloso, que atestam as "adulterações" e "deformações" na mixagem de três discos clássicos da Bossa Nova - "Chega de Saudade" (1959), "O Amor, o Sorriso e a Flor" (1960) e "João Gilberto" (1961), atualmente fora do mercado, à exceção das cópias piratas.

Em 1992, a EMI reuniu os três LPs e o EP "Orfeu da Conceição" num único CD, "O Mito", à revelia de João Gilberto. O músico protestou contra o fim da "sequência harmônica" das faixas e apontou defeitos na remasterização. As tentativas de acordo fracassaram. O músico entrou com uma ação de danos morais e materiais; o escritório do advogado Marcos Meira faz sua defesa.

Terra Magazine teve acesso aos autos e reproduz parte do laudo técnico de Paulo Jobim, indicado pela 28ª Vara Cível do Rio de Janeiro para realizar a perícia em 1999. Na infância, ele chegou a assistir uma das gravações de João Gilberto no estúdio da Odeon, quando Tom Jobim era o diretor artístico da gravadora. Em "Chega de Saudade - A história e as histórias da Bossa Nova", o escritor Ruy Castro relata os bastidores do primeiro disco.

"Z. J. Merky, o severo diretor-técnico da gravação, olhou feio do outro lado do vidro quando João Gilberto pediu dois microfones: um para a voz, outro para o violão. Onde já se vira isto?", conta. "A Odeon era britânica no seu controle acionário e mais britânica ainda - mão fechada - no seu controle de custos: cantores estreantes e desconhecidos não tinham direito a luxos. Mas a carta branca de Aloysio (de Oliveira, diretor geral) funcionou, e os dois microfones surgiram."

O livro de Ruy Castro oferece minúcias das exigências profissionais de João Gilberto, as quais servem para entender o aborrecimento do músico com a mixagem realizada pela EMI, décadas mais tarde. "Gravando direto com a orquestra, ao vivo no estúdio, sem playback, ele interrompia take após take, ouvindo erros dos músicos que escapavam aos outros, e obrigando a orquestra inteira a tocar de novo. Em certos momentos, era como se todo mundo no estúdio fosse surdo, menos ele", descreve o biógrafo.

João Gilberto revelou ao amigo Aderbal Duarte um conselho dado por Ary Barroso, nos corredores da Odeon, em julho de 1958: "Faça exatamente o que você quer!". Pouco antes, na mesma gravadora, Ary e Dorival Caymmi haviam registrado um disco em conjunto. Como até Stan Getz comprovaria, não era preciso recomendar autenticidade ao mago da Bossa Nova.

"EMI amesquinhou a obra de João Gilberto"

O embate João Gilberto x EMI envolve, além da eterna briga da voz do dono com o dono da voz, a preservação da memória musical brasileira. Na imprensa, o folclore do músico motiva mais parágrafos do que a permanência de sua obra. "Acho isso uma doideira, uma hora deram razão, mas mesmo assim a gravadora não precisava corrigir, o que é facílimo. Não sei por que esse processo ainda existe. Eles têm uma maneira de corrigir, podem tirar o som original. Fico com pena", lamenta Paulo Jobim, em conversa com a Terra Magazine.

"A obra de João tem um equilíbrio entre violão e voz, o som já sai mixado. Ele sabe botar a altura certa e trabalha o violão como se fosse uma orquestra", define o professor Aderbal Duarte, estudioso da obra de João Gilberto e da batida da Bossa Nova. Uma das testemunhas do compositor no processo, Duarte se revolta com o resultado de "O Mito". "Aquilo é um absurdo. Na música erudita, você tem quatro movimentos. Se tiram um movimento, é sinfonia inacabada. João é mais uma das vítimas da truculência das gravadoras. Ele tem uma consciência total, fantástica, é uma piada fazer isso", ataca.

No laudo, Paulo Jobim responde a questões técnicas levantadas pelas partes. Ele trabalhou como músico e arranjador em discos de Tom Jobim, Chico Buarque, Sarah Vaughan e Milton Nascimento, entre outros. Seu parecer reforça, com palavras duras, as queixas de João Gilberto. "Sim, mutilou no sentido de deformar a voz do artista, depreciar e amesquinhar a obra e, no caso do 'medley' com as músicas do 'Orfeu', no sentido de cortar literalmente parte das faixas", afirma Jobim.

Em outro momento, ele esclarece detalhes da mixagem: "Da leitura dos laudos da firma americana Oncore e de Ricardo Garcia (técnico indicado pela EMI), duas coisas já ficam claras e coincidem com a minha avaliação do CD 'O Mito', objeto da discussão destes autos: houve a adição de reverberação (Eco) estéreo nas faixas mono do LP 'Chega de Saudade' e houve uma forte equalização acentuando as frequências agudas em todas as faixas".

Assistente técnico da defesa, Caetano Veloso acolhe a perícia de Jobim e ressalta os "incalculáveis prejuízos" ao músico. "Como os referidos LP's e Compacto representam, no meu entender, o ponto culminante da música popular brasileira moderna (e a mais importante mirada na nossa tradição), considero urgente uma solução do problema no sentido de devolver aos ouvintes essas obras na integridade de sua beleza e força cultural", pede Veloso em seu "laudo crítico".

Apesar das análises de Jobim e de Caetano, a juíza da primeira instância, Maria Helena Pinto Machado Martins, não atendeu ao pedido de danos morais e rejeitou o fim da comercialização; como justificativa, ela aponta a "sensibilidade extremada" de João Gilberto.

"Em que pese o teor da prova acima e, em especial, da prova técnica, entende este Juízo que situação apontada nos autos escapa a esfera do homem comum, tratando-se de sensibilidade extremada e, por isto, não restariam configurados de forma patente os danos de cunho moral", diz a sentença.

Desde março de 2009, o recurso especial está para ser julgado pelo ministro do STJ, Sidnei Beneti. Em entrevista, a advogada e diretora de Business Affairs da gravadora EMI no Brasil, Ana Tranjan, afirmou que a fase de negociações estava suspensa. "O processo está terminando, na última fase da instância judicial, em Brasília. Na verdade, o ritmo não é o que se deseja, mas faz parte. Nós estimamos, como já vínhamos estimando, que este ano haja uma solução final para essa questão", disse.

Em 2011, João Gilberto completa 80 anos sem o anúncio de um show comemorativo nem a certeza de uma solução para o impasse judicial que retirou seus discos clássicos das prateleiras. Não há paz, não há beleza.

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Confira trechos do laudo de Paulo Jobim.

Equalização

"O efeito prático desta equalização foi o total desequilíbrio da mixagem original, realçando a bateria e as cordas em detrimento da voz e do violão, que deveriam ser exatamente o centro das atenções. Se tal equalização fosse aplicada a uma peça complexa com orquestra, por exemplo, 'A sagração da primavera', de Igor Stravinsky, o resultado seria uma outra música, com o trabalho de interpretação e equilíbrio do maestro jogado fora". (...)

"Além disso, essa equalização tão violenta chegou a alterar o timbre da voz do cantor, tornando-a muito metálica e dura."

Matrizes

"Eu acho que diante de Matrizes tão boas e históricas como essas, o melhor seria manter o som original. SEM MEXER!!".

Reverberação

"A mistura de todas as faixas também deturpa a obra, pois um disco é pensado como um conjunto de obras relacionadas. Historicamente também se perde a trajetória do artista a cada disco. Se as obras estivessem juntas como no original, não haveria tal incompatibilidade citada no laudo de Ricardo Garcia. Eu não acho que haja uma incompatibilidade entre os fonogramas originalmente estéreo e mono, pois as faixas mesmo mono e estéreo, tem uma homogeneidade impressionante, portanto tal feito era inteiramente desnecessário."

  "De uma maneira simplista, excetuando-se adição de reverberação que não faz parte de um processo de masterização, sim, o processo era o mesmo e praticamente só a MicroService masterizava e produzia os CDs. Acontece que houve muita masterização ruim em que o resultado era muito pior do que o do LP. Abusava-se de agudos e em alguns casos, como no disco 'Caymmi visita Tom', o conteúdo era totalmente deturpado pela equalização , com o coro aparecendo mais do que os cantores e outras coisas assim. No LP de Antonio Carlos Jobim 'Stone Flower' se chegou a remixar o disco incluindo solos de trombone e partes de flauta que tinham sido retirados na mixagem, num total desrespeito ao artista. O que aconteceu neste disco de João Gilberto não é um caso único. As máquinas podem ser as mesmas mas o problema é como utilizá-las. Reverberação ou Eco não fazem parte de um processo normal de Masterização."

"Matrizes têm qualidade impressionante"

"Como esse processo de masterização pode deformar a obra, seria prudente ter submetido o resultado da masterização ao artista para evitar o que está se passando. Diga-se de passagem que as Matrizes originais, da década de 60 ainda conservam uma qualidade impressionante".

Chega de Saudade

"A meu ver, estes são os três discos mais importantes da nossa música, que levaram nossa música para o exterior, que vendem há mais de 40 anos e que vão continuar a vender para sempre pela importância que têm".

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Tuca Vieira/ Wikipédia/Reprodução
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