Eliano Jorge
Entre as observações da pesquisadora Emico Okuno sobre o acidente nuclear em Fukushima, percebe-se a capacidade humana em corrigir os efeitos negativos da contaminação. Mas parece fora de controle a propagação entre os animais marinhos. "É um pouco mais problemático", admite a professora do Departamento de Física Nuclear do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP).
- Se você pescar algum peixe que veio da região, pode ter problema - adverte.
Existem ainda chances de a contaminação se espalhar por meio da cadeia alimentar oceânica e das migrações de seres vivos para outras áreas do planeta.
A especialista não estima quanto tempo vai durar o problema, até porque continua vazando material tóxico. "São quatro reatores bastante danificados. Ainda estão tentando resolver estoicamente, minimizar, para que a radiação não saia", lembra.
O desastre ucraniano de 1986, embora tenha sido em proporções muito maiores, lhe serve como referência. "Na região de Chernobil, ainda hoje há rios em que os peixes estão contaminados. O rio não tem uma quantidade imensa de água para distribuir", conta Emico, doutora em Física e com experiência em instituições estrangeiras.
Outro exemplo situa-se no Oceano Pacífico. "Os americanos fizeram cerca de 66 testes nucleares no Atol de Biquíni. Lá até hoje existe coqueiro contaminado, o coco tem um pouco de césio".
A cidade japonesa de Hiroshima, alvo de bomba atômica em 1945, entretanto, não apresenta mais contaminação. "Não tem mais vestígios, é belíssima, com progresso, com prédios imensos, cheia de flores de cerejeira", comemora a professora.
Ela conta que aquelas vítimas são monitoradas até hoje, assim como seus filhos e netos, que sofrem com efeitos hereditários do bombardeio. "Continua aumentando a incidência de todos os tipos de câncer, exceto leucemia, entre os sobreviventes. É o estudo mais bem documentado sobre os efeitos biológicos das radiações".
A contaminação atual não passa nem perto do que viveu o Japão em 1945. "É completamente diferente. Agora é incomparavelmente menor. Naquelas explosões, foram jogadas bombas para matar gente mesmo. Explodiram no ar, não explodiram no chão. Foi uma quantidade imensa de material radioativo numa área razoavelmente pequena", descreve Emico Okuno.
Na União Soviética, porém, o alcance se ampliou. "A explosão em Chernobil liberou material radioativo em quantidade muito maior do que em Hiroshima. Só que a poeira radioativa acabou descendo nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, e um pouco no mar, enquanto a poeira radioativa de Chernobil se espalhou pela Europa inteira, foi para o ar", detalha a pesquisadora, que considera muito pequena a contaminação de Fukushima que se alastrou para a Europa.

Vista aérea da usina de Fukushima (foto: Reuters)
- Em Hiroshima, morreram 150 mil pessoas nos primeiros dois meses. Muitas morreram por causa do calor, porque a temperatura instantaneamente atingiu 3 mil graus Celsius, o corpo evaporou, só sobrou a sombra da pessoa. Isso está documentado, tem um museu com fotografias das sombras de pessoas que desapareceram - explica Emico.
Outro motivo das mortes foi a ocorrência de "queimaduras imensas", diz a especialista. "Ou por onda de choque, que lançou para as paredes e para o alto as pessoas, que se machucaram. Se tivessem sobrevivido, morreriam por causa da radiação, que é um pouco mais tardia", acrescenta.
Insegurança
A professora Emico admite que também foram abaladas suas opiniões sobre os perigos das usinas nucleares. "Os reatores deveriam ter mais segurança. O mundo inteiro está repensando isso. Alemanha e Inglaterra, que têm mais reatores fechados do que em operação, estão falando em fechar mais. Porque muitos deles estão velhos, há muito tempo não se constroem mais".
Ela critica a situação brasileira. "As pessoas responsáveis deveriam ser um pouco mais humildes, e agora estão começando a falar que precisamos rever (usinas nucleares) lá em Angra, quando o mundo inteiro diz que vai rever. Inicialmente, no Brasil, diziam: 'Não, nossos reatores são seguros, não precisa rever'. Há muito tempo, a gente já falava sobre a dificuldade no problema de evaporação e a localização muito ruim".
Apesar do acidente em Fukushima, as usinas nacionais são menos confiáveis do que as japonesas, na sua avaliação. "O reator do Brasil tem muito mais segurança do que o reator de Chernobil. Os quatro reatores de Chernobil não tinham muita segurança. Depois do acidente, foram fechados. Os do Japão são muito mais seguros (do que os brasileiros). No seu caso, foi um evento da natureza totalmente inimaginável nesse nível. Chernobil (em 1986) e Three Mile Island (em 1979) não tiveram tsunami e terremoto", compara.
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