Terra Magazine

 

Terça, 5 de abril de 2011, 08h08

Kwaidan número 1

Paulo Rebêlo/Terra Magazine
Não precisa gostar de cinema japonês para encontrar fantasmas de vez em quando. Todos nós conhecemos alguns pelo caminho
Não precisa gostar de cinema japonês para encontrar fantasmas de vez em quando. Todos nós conhecemos alguns pelo caminho

Paulo Rebêlo
De Brasília (DF)

Uma fração das mulheres mais lindas que conheci na vida talvez nunca tenham existido de verdade.

A exemplo de uma das histórias do Kwaidan original, clássico de 1964 do cinema japonês, você pode jurar que elas continuarão ali. Até o dia em que ela desaparece sem deixar rastros.

Hoje conto apenas uma dessas pequenas histórias, enquanto relembro outras aparições desse tipo que podem ser publicadas. Oxalá não venham puxar meu dedão do pé de madrugada.

Depois de uma palestra na UFRJ, perdi a hora conversando com uns estudantes marotos e, assim, perdi também minha carona para voltar ao hotel. Quase 23h de um sábado, não havia mais ninguém por perto além de um vigilante que mostrou onde era a parada do ônibus, com um ponto de táxi por perto.

Andei até lá e bateu um certo medo. Não havia ninguém na parada além de uma pessoa com casaco de capuz. Não consegui enxergar quem estava por trás do capuz. Não havia táxi. Não havia ônibus. Só o breu. E aquele capuz.

Sentei na outra ponta do banco, esperando qualquer movimento daquele cidadão de capuz. Mas por baixo do capuz havia uma das mulheres mais lindas que vi na vida.

Os olhos dela brilharam e falou-me logo do alívio por chegar alguém na parada de ônibus. Ela perdeu a carona das amigas.

Nessas horas é que a gente percebe como temos cara de burguês... não dá para assustar sequer uma donzela indefesa na parada de ônibus à noite.

Fazia uma hora e quinze minutos que não passava nenhum ônibus e o teletáxi não vinha. Mas foram os 75 minutos que pareceram 75 segundos. Às vezes, me pego pensando naqueles cabelos ruivos, meio vermelhos, falando e gesticulando como se fôssemos grandes amigos.

Até chegar, enfim, um táxi. Um maldito táxi que apareceu do nada.

Antes que ela entrasse, eu quis perguntar nome, telefone, endereço postal (email ainda era meio novidade na época...), qualquer coisa.

Mas, em horas assim, sempre achei uma grande presunção (ou arrogância) demais da minha parte. Sempre acho que as mulheres lindas estão cansadas demais de cantadas, de gente pedindo o telefone delas, de homens que se acham os verdadeiros garanhões italianos, de assobios, indiretas, convites para sair de todo zé roela que ela conhece.

Mudo estava, mudo fiquei.

Ao se dirigir ao táxi, ela parou por um instante, olhou para trás, deu dois passos na minha direção e hesitou, como se quisesse falar alguma coisa. Ou talvez estivesse esperando alguma pergunta.

Senti-me um paspalho porque não consegui falar nada. E ficamos os dois olhando um para o outro por alguns poucos segundos, até ela baixar a cabeça e entrar no táxi.

E assim, se foi. E pelos três dias seguintes, voltei para aquela parada de ônibus enquanto estava no Rio. Antes de ir embora, encontrei o vigilante daquela noite e perguntei se ele a conhecia: talvez ela fosse professora, aluna, secretária.

Mas ele disse que não viu ninguém.


Paulo Rebêlo é jornalista. Site oficial - www.rebelo.org


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