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Quinta, 7 de abril de 2011, 18h54 Atualizada às 19h49

Antropólogo: Mídia usa religião para explicar um ato sem sentido

AP
Parentes buscam informações sobre alunos da escola municipal Tasso da Silveira, no Rio
Parentes buscam informações sobre alunos da escola municipal Tasso da Silveira, no Rio

Claudio Leal

A cobertura midiática da tragédia na escola Tasso da Silveira, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, se apressou em elaborar, com a contribuição de fontes policiais, justificativas para o ato de Wellington Menezes de Oliveira, que matou 12 crianças na manhã desta quinta-feira, 7. O número de mortos foi anunciado esta noite pela Polícia Civil.

O comandante do 14º Batalhão, Djalma Beltrame, ao referir-se à carta deixada pelo atirador, caracterizou-a como fundamentalista e com fraseado islâmico. Nos trechos divulgados à imprensa, porém, há menções a Deus e a Jesus.

-...Preciso da visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna - escreveu Wellington.

Doutor em Antropologia pela Universidade de Paris VII e professor aposentado da Universidade Federal da Bahia, o professor Roberto Albergaria avalia que a mídia e a sociedade desejam explicações para um desvario sem significado.

- A mídia busca uma explicação para o que é uma singularidade do ser humano. O homem é um animal incerto - afirma Albergaria, ecoando o ensaísta francês Montaigne.

O antropólogo desconstroi o uso do islamismo nas narrativas televisivas sobre a tragédia na escola carioca. A religiosidade do atirador, a julgar pelo conteúdo da carta, seria um subproduto do evangelhismo televisivo.

- Se ele fez alguma referência ao islamismo, como chegaram a dizer, certamente não foi ao religioso, mas ao da mídia, que o alimentou com a ideia da destruição. A mídia associa a imagem do islamismo à imagem do mal. A linguagem do delírio dele se refere ao mundo da mídia e ao mundo das religiões, os dois mundos paralelos. A mídia vai dar a ele o exemplo de um grande ato de destruição, de grande impacto, como foi o de Columbine, um modelo americano.

Na crítica à busca afoita por sentido, Albergaria recorre a estudos franceses sobre a "violência pós-moderna", caracterizada por uma ruptura irracional, sem explicação.

- Esse tipo de ato é bem característico do que os franceses chamam de "a violência pós-moderna". Ela é caracterizada por duas coisas: a confusão entre o real e o imaginário (cada vez mais é o imaginário que vem da televisão) e a ausência de sentido. São atos completamente arbitrários. Antigamente, era matar pra ter dinheiro, matar para ser herói, etc. Nos livros sobre a violência pós-moderna, fala-se na destruição pela destruição. Não adianta buscar sentido. O que eu estou sentindo na mídia o tempo todo é as pessoas buscarem um sentido. Claro, a sociedade precisa de um sentido, precisa encaixá-lo como psicótico, como vítima do preconceito contra os doentes mentais...

Wellington, ex-aluno da escola Tasso da Silveira, protagonizou uma "explosão comportamental" que não atende aos padrões "normais", acrescenta o antropólogo.

- O máximo da violência moderna é o terrorismo, que ainda tem um sentido político. Mas a pós-moderna não tem sentido nem político nem psicológico. É um ato de ruptura, de um nonsense absoluto, uma explosão cega. É um "sair de si", na linguagem da psicanálise.

 

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