Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Mortal Engines, Philip Reeve. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2011, 279 páginas. Capa de David Wyatt. Tradução de Eduardo Barcelona Alves.
Parece que o steampunk já se tornou uma tendência editorial palpável, mesmo sem ser ainda um rótulo estabelecido entre editoras de médio e grande porte, como a Novo Século, que lança agora este que é o primeiro de quatro volumes assinados pelo escritor inglês Philip Reeve.
Mortal Engines chega com reputação muito bem firmada lá fora: foi o Livro do Ano de 2003 na categoria "Livro que Não Consegui Largar" do Prêmio Blue Peter, um programa infantil da BBC, e também o Nestlé Smarties Book Prize, para livros dirigidos a um público dos 9 aos 11 anos. Na Inglaterra, foi finalista do Whitbread - o principal prêmio para a literatura infanto-juvenil naquele país -, tendo sido publicado pela Scholastic, a editora dos livros da série Harry Potter.
Como steampunk, o livro de Reeve talvez ofenda os fundamentalistas desse subgênero, que o imaginam sempre como uma especulação coerente de tecnologias da era do vapor, e esquecem as suas outras características possíveis: a "ciência louca", as sociedades secretas, a morbidez gótica, o espírito brincalhão que às vezes chega ao desvario.
Com Mortal Engines, Reeve projeta a sensibilidade steampunk a um contexto pós-apocalíptico: depois da terrível Guerra dos Sessenta Minutos, resta da Europa uma árida terra devastada por onde rodam "cidades tracionadas" - construções erigidas sobre esteiras de metal propelidas a vapor, uma à caça da outra pelas planícies desérticas, para o desmonte e o aproveitamento do que for possível aproveitar, mão-de-obra escrava inclusive. É o que chamam de "Darwinismo Municipal".
Londres é uma dessas cidades volantes. A primeira, segundo aprendem os seus habitantes, criada pelo engenheiro Nikolas Quirke, centenas de anos no passado da aventura narrada no romance.
Tom Natsworthy é um dos moradores de Londres, adolescente atrapalhado, aprendiz de historiador, órfão de pais que morreram na "Grande Inclinação". Tom tem uma queda por Katherine, a filha do grande Thaddeus Valentine, o historiador que é o herói de Tom - e da maioria dos moradores de Londres.
Depois que Londres apanha uma cidade menor em suas mandíbulas de aço, Tom tem a boa fortuna de salvar Valentine de ser assassinado por uma garota encapuzada - e imediatamente depois, o azar de se ver exilado da cidade, acompanhado apenas dessa mesma garota, chamada Hester Shaw.
Tom logo descobre que Hester é uma menina sacudida, que se vira sozinha desde que sua mãe foi assassinada por ninguém menos que o próprio Valentine. Além de ter testemunhado o crime, Hester tem como terrível lembrança uma enorme cicatriz que deforma o seu rosto.
O romance se desenvolve portanto como uma viagem fantástica, na qual os dois jovens vagam pelo futuro distante imaginado por Reeve, encontrando outras comunidades volantes, passando por um posto de troca e conhecendo figuras como a aeronauta Anna Fang e o pirata Chrysler Peavey. Também no caminho, dirigíveis blindados, um porto aéreo, e um artefato anterior ao apocalipse que pode dar poder absoluto a Londres e ao seu prefeito. O plano é usá-lo contra uma liga de povos situados atrás de uma espécie de Grande Muralha da China - contra uma Ásia Central que, ao contrário da Europa, ainda conserva comunidades estabelecidas na terra e que ainda concentra recursos. É uma inversão do "perigo amarelo" que coloriu tanto das páginas da literatura de aventura que inspira a tetralogia de Reeve.
Enquanto Tom e Hester vagam por esse mundo implacável e assustador - caçados por Shrike, uma espécie de ciborgue redivivo, um monstro de Frankenstein com garras retráteis e visão noturna -, Katherine trilha os caminhos labirínticos dos porões de Londres, onde dejetos humanos são reciclados como alimento para os escravos que mantém a cidade rodando. Para equilibrar, situações divertidas e movimentadas, absurdos nomes próprios e o desafio constante de encontrar paralelos entre a Londres de hoje e a da cidade tracionada do futuro.
Hester Shaw talvez seja a personagem mais fascinante do livro, menina embrutecida e feia que o leitor aprende a amar. Mas o centro da narrativa são as jornadas de Tom e Katherine, muito semelhantes entre si, pois são as jornadas de dois jovens que imaginavam viver em uma sociedade justa e equilibrada, mas que são obrigados a enfrentar a sua verdadeira face, predatória e brutal e levando derradeiramente ao colapso inevitável. E tudo dentro de um enredo de aventura desbragada, onde a ação de capa-e-espada lembra as origens inglesas do gênero. Ao mesmo tempo, Reeve nunca doura a pílula, pintando para o leitor "entre 9 e 11 anos" o quadro sujo e enferrujado de um mundo brutal onde a predação é um modo de vida aceito por todos.
É claro que o "Darwinismo Municipal" é uma face exagerada e especulativa, projetada séculos adiante, do darwinismo social e da competição desenfreada entre as nações que está aí desde a Revolução Industrial, no plano da ciência, do comércio ou das ideologias. O livro surge num momento em que nosso futuro energético parece depender de trabalhadores nordestinos arrastados para canteiros de obras na Amazônia, ou em que o consumo e o estilo de vida que dele depende parecem tão atrelados à exploração de trabalhadores da China "comunista", da Tailândia ou do Vietnã. A crítica ao darwinismo social embutida em Mortal Engines serve tanto para o leitor jovem quanto para o adulto, e expõe, de maneira despretensiosa, um vislumbre das engrenagens daqueles motores mortais que nos arrastam inapelavelmente para um futuro sombrio.
Um dos principais lançamentos de ficção científica neste ano, exige com convicção que aguardemos ansiosamente as três seqüências programadas.
Veja também:
» Drops
|
Divulgação
Mortal Engines, de Philip Reeve
|