Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Na coluna de 26 de fevereiro deste ano - a respeito da noveleta de Christopher Kastensmidt, "O Encontro Fortuito de van Oost e Oludara", texto finalista do Prêmio Nebula 2010 -, eu já alertava para o fato de que as "indicações deste ano são bastante internacionais, expressando o atual interesse da literatura especulativa por outras culturas e pela sua dimensão global."
Indicações para outros prêmios, e outras discussões dentro da comunidade anglo-americana, sugerem que esse interesse pela dimensão global da ficção científica e da fantasia podem estar configurando uma verdadeira "virada internacional".
É bom observar, antes de mais nada, que já há uns quinze anos que o centro de interesse na ficção científica em inglês parece ser dominada por autores um pouco fora do antigo centro, que era composto de escritores norte-americanos, seja da Golden Age (Asimov, Bradbury, Heinlein, de Camp, Farmer, Pohl, Williamson, Vance, Clement), da New Wave (Ellison, Zelazny, Disch, Wolfe), do feminismo (Le Guin, Rusch), ou do Movimento Cyberpunk (Gibson, Sterling, Rucker, Cadigan).
Esses autores dominantes nos últimos quinze anos seriam britânicos como Neil Gaiman, Stephen Baxter, Paul J. McCauley, Charles Stross, China Miéville, Alastair Reynolds, Ken McLeod, Ian McDonald, Iain Banks, Gwyneth Jones e tantos mais, além de um ou outro australiano como Greg Egan.
Isso não significa, é claro, que os escritores americanos tenham parado de escrever obras significativas, ou que tenham entrado em decadência - nem que esses autores ingleses e australianos sejam inerentemente superiores, mas apenas que o núcleo que eles formam vem rivalizando fortemente com outros centros, demonstrando já um índice de uma maior internacionalização do gênero.
Agora a escritora sul-africana Lauren Beukes acaba de receber o Arthur C. Clarke Award de melhor romance com Zoo City, uma narrativa cyberpunk ambientada em Johannesburg, recomendada por William Gibson e elogiada por Gwyneth Jones em resenha para o jornal inglês The Guardian (http://www.guardian.co.uk/books/2011/may/14/zoo-city-lauren-beukes-review).
Na lista de candidatos ao Prêmio Locus, certamente um dos mais importantes da ficção científica em língua inglesa, consta o elogiado romance de FC hard The Quantum Thief, do autor finlandês Hannu Rajaniemi. Está na categoria de Melhor Romance de Estréia, mas ainda assim se trata de uma indicação significativa. Rajaniemi está no centro de um longo artigo do americano Jeff VanderMeer - recentemente publicado pela primeira vez (profissionalmente) no Brasil pela Tarja Editorial -, em que VanderMeer, tendo viajado à Finlândia, discute os talentos locais. Além de Hannu Rajaniemi, a escritora de fantasia Johanna Sinisalo teve romance publicado nos EUA em 2010, Birdbrain, também elogiado. O texto de VanderMeer (e alguns vídeos) está disponível em http://www.omnivoracious.com/2011/05/finnish-science-fiction-and-fantasy-johanna-sinisalo-hannu-rajaniemi-and-moomins.html.
Eu também observo que a escritora nigeriana-americana Nnedi Okorafor concorre ao Locus na categoria de Melhor Romance de Fantasia, com Who Fears Death, lembrando ainda que escritoras negras de descendência caribenha como Nalo Hopkinson (que vive no Canadá) e Tananarive Due (norte-americana), tem trazido a sua contribuição para o campo da ficção especulativa já há vários anos.
Além dessas distinções maiúsculas, autores de perfil mais internacional e multi-racial têm sido incluídos em listas dos melhores de 2010, por personalidades significativas do mundo da ficção especulativa em inglês. A lista de VanderMeer, do melhor da fantasia em 2010, é provavelmente a mais internacional: inclui o romance The Golden Age do escritor checo Michal Ajvaz, Who Fears Death de Okorafor, e Birdbrain de Sinisalo. Confira a lista de VanderMeer em http://www.locusmag.com/Reviews/2011/02/jeff-vandermeers-fantasy-in-2010-a-bakers-dozen-of-the-best.
Já a lista de Larry Nolan, um poliglota que tem dado atenção a autores brasileiros, é dedicada à fantasia heróica e inclui o romance Tríptico de Trinidad, do argentino Carlos Gardini, além do polonês Andrzej Sapkowski com La Dama del Lago (publicado na Espanha). Nolan destaca o romance de Gardini como a melhor fantasia heróica que ele leu no ano, disparado, e observa que um problema da fantasia heróica tradicional é a sua dependência excessiva a uma única herança cultural européia. Mas nota que, "conforme o mundo de hoje vai se tornando mais globalizado do que nunca antes, a fantasia heróica composta fora do mundo anglófono começa a ganhar audiências enormes". A lista de Nolan está disponível em http://www.locusmag.com/Reviews/2011/02/larry-nolens-best-heroic-fantasy-of-2010.
Adam Roberts, um romancista e acadêmico importante na Inglaterra, destaca Zoo City, de Beukes, mas também o romance japonês Harmony, de Keikaku ¿Project¿ Itoh, The Quantum Thief de Rajaniemi, e Aurorama, romance steampunk do francês Jean-Christophe Valtat. A opinião de Roberts está em http://www.locusmag.com/Reviews/2011/01/adam-roberts-10-best-sf-novels-of-2010.
A FC japonesa encontrou uma cabeça-de-praia no mercado americano com a editora Haikasoru (cujos livros têm sido importados pela Livraria Cultura, para o Brasil), que já lançou mais de vinte livros, inclusive o livro de Itoh que chamou a atenção de Adam Roberts. Outros títulos incluem a FC militar/existencialista de Chōhei Kambayashi, Yukikaze, e The Ouroboros Wave, de Jyouji Hayashi, mistura de FC hard e misticismo hindu. O site da Haikasoru, que é dirigida por Nick Mamatas, tem mais exemplos: http://www.haikasoru.com.
Lois Tilton, que faz resenha de FC curta para o site da Locus (http://www.locusmag.com), destaca entre os melhores contos e noveletas de 2010 títulos como "The Night Train" de Lavie Tidhar, escritor israelense muito elogiado atualmente, além da árabe-canadense Amal El-Mohtar com "The Green Book". A seleção de Tilton está em http://www.locusmag.com/Reviews/2010/12/lois-tiltons-2010-short-fiction-reviews-in-review.
Enfim, uma das conseqüências mais importantes dessa tendência - mesmo que ela falhe em fundamentar uma "virada internacional" no centro da ficção científica publicada nos Estados Unidos e Inglaterra - seria uma transformação potencial da FC, que assumiria um olhar mais dirigido ao mundo em desenvolvimento. Esse é o assunto do ensaio de Jonathan Wright, "New World Order Ahead: The Developing World Is the Setting for Science Fiction¿s Best New Novels" (http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/books/features/new-world-order-ahead-the-developing-world-is-the-setting-for-science-fictions-best-new-novels-2270569.html).
Wright abre seu texto afirmando: "O futuro não vai acontecer em Londres, Nova York ou Toquio; vai acontecer em Bombaim, Rio e Lagos." Ele então menciona um número de obras recentes ambientadas no Terceiro Mundo, como o romance de Beukes, e Dervish House, de Ian McDonald (indicado para o Prêmio Hugo deste ano), que é ambientado na Turquia - o romance anterior de McDonald, Brasyl, foi finalista dos principais prêmios, e se passa no Brasil em três épocas diferentes. Wright também menciona o grande vencedor de prêmios de ficção científica de 2009, The Windup Girl, de Paolo Bacigalupi, um ítalo-americano que ambientou o seu romance na Tailândia do século 23. The Windup Girl será publicado no Brasil pela Devir.
Contudo, citando o inglês Geoff Ryman (que escreveu FC ambientada na Nigéria), Wright pergunta se não seria mais interessante para o gênero que escritores anglo-americanos especulassem menos sobre o Terceiro Mundo, e lessem mais FC escrita no Terceiro Mundo: "Por que não ler histórias de ficção científica indiana, nigeriana e brasileira, ao invés?"
É claro, para isso a ficção científica brasileira deveria estar sintonizada com as mudanças que a tecnologia tem trazido ao país, e interessada em especular sobre nosso futuro como nação emergente. Quer tenhamos em mente ou não essa suposta abertura no mercado em língua inglesa, e importante para o desenvolvimento da FC brasileira em si, que nós também adotemos uma visada terceiro-mundista, sem nos centrarmos apenas em emular as mais novas tendências da FC anglo-americana. Se o futuro da FC está, entre outros lugares, aqui no Brasil, um país emergente, é bom finalmente abrirmos as janelas para o nosso próprio contexto e olharmos em torno.
Veja também:
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Divulgação
Capa de Zoo City, uma narrativa cyberpunk da sul-africana Lauren Beukes
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