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Sexta, 3 de junho de 2011, 07h59 Atualizada às 17h14

Imagens das denúncias de casal assassinado no Pará

Maria do Espírito Santo/Arquivo CPT/Reprodução
O extrativista José Cláudio Ribeiro da Silva, assassinado no último dia 24, aborda caminhão que levava madeira ilegal
O extrativista José Cláudio Ribeiro da Silva, assassinado no último dia 24, aborda caminhão que levava madeira ilegal

Felipe Milanez
De Marabá

O casal José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo amava a floresta. Numa caminhada com ele pela mata, José apontava com orgulho a castanheira, a andiroba, o açaí, "ouro negro do Pará", dizia. "Olha aquelas araras, tão trocando até carinhozinho elas".

» Fotos dos flagrantes de desmatamento feitos pelo casal

"Eu vejo a beleza aqui. Aqui é onde eu fico sentado, onde eu venho meditar. e pensar: como é que é linda a natureza, o silêncio, o barulho do vento na folhagem."

Mas o assentamento onde viviam estava sendo devastado. Armados com uma câmera digital, andavam a sós pelo assentamento, tentando proteger o lote de invasão de madeireiros, assim como registrar os crimes ambientais que eram cometidos.

Maria fazia as fotos. José parava os caminhos, apontava as castanheiras derrubadas, mostrava as áreas devastadas, queimadas, para virar pasto.

As imagens eles utilizavam para municiar as denúncias que faziam à Comissão Pastoral da Terra, que encaminhava aos órgãos competentes, ou então diretamente ao Ministério Público Federal ou ao Ibama. "Eles eram organizados, tinham tudo documentado. Vinham aqui e me mostravam as imagens, que nos ajudava a preparar as operações", afirma o fiscal Roberto Scarpari, então gerente do Ibama em Marabá.

"Tenho medo, sou um ser humano. Mas não é por isso que eu vou deixar de denunciar", ele disse em entrevista realizada em outubro de 2010 na sua residência. Eles foram assassinados por pistoleiros dentro do Assentamento Praia Alta Piranheira, há oito quilômetros da casa onde moravam, numa emboscada, em 24 de maio de 2011.

Felipe Milanez é jornalista e advogado, mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil, trabalhos nos quais se especializou em admirar e respeitar o Brasil profundo e multiétnico.

Fale com Felipe Milanez: felipemilanez@terra.com.br

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