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Sábado, 11 de junho de 2011, 08h05

As lições da queda de Palocci

AFP
Após crise política, Antonio Palocci se despediu da Casa Civil do governo Dilma
Após crise política, Antonio Palocci se despediu da Casa Civil do governo Dilma

Francisco Viana
De São Paulo

As cabeças de Luiz XVI e Marie Antoinette rolaram antes de serem decepadas pela lâmina afiada da guilhotina. Isto porque a Revolução Francesa começou bem mais cedo que tomada da Bastilha pelas massas populares. Seu ponto de partida foi a dessacralização da realeza que passou a ser alvo de críticas e descrédito nas feiras, nas ruas e nos bares, em qualquer lugar onde a gente comum francesa pudesse se encontrar. Embora não tenha sido o estopim de nenhuma revolução, o caso Palocci lembra o fenômeno do falar mal do governo e do descrédito. Não apenas com relação ao ministro da Casa Civil, que acabou caindo, mas, sobretudo, no que diz respeito ao governo Dilma Rousseff.

Quais a lições a colher? Primeiro, a questão humana: no fugaz espaço de cinco anos, Palocci perdeu dois cargos capitais para o País e para a sua carreira. De prefeito de Ribeirão Preto, tornou-se respeitado ministro da Fazenda e ministro da Casa Civil, em ambos os casos uma das personalidades mais proeminentes da vida brasileira. Como lidar com tão rápida ascensão e agônica queda? Essa a primeira lição: quanto maior a força do homem público, maior a vulnerabilidade. Não existe blindagem quando a dialética entre a verdade e o desprezo pelos fatos pende para a segunda alternativa. Se surgem as crises, estas precisam ser superadas pela demonstração da verdade factual, nunca pelo convencimento.

Essa dialética nasceu na Atenas do século V a.C, quando a liberdade política criou condições para a liberdade de pensamento e expressão. Mas sempre mediadas não pela retórica do convencimento, mas pelo conhecimento. Era o que os gregos definiam como a ideia do Bem, isto é, a preponderância da razão dos fatos sobre a ilusão das opiniões. Uma evidência tão antiga quanto a democracia, mas que é geralmente esquecida ou relegada a plano secundária.

A seguir, pode-se alinhar o vigor da imprensa tradicional. Não o simples vigor como fiscal do poder. Um vigor mais amplo, se analisado à luz da realidade. Espetaculosa ou sensacionalista, pouco profunda ou de alcance limitado pelos compromissos econômicos, a verdade é a que imprensa brasileira, a cada dia, revela-se mais necessária à vida política como contra-poder ou polo de crítica ao poder. Se Maquiavel enalteceu a República Romana por reunir, num mesmo modelo, a aristocracia, a realeza e o povo, esta é uma referência para as modernas democracias. Precisam ser includentes, não excludentes, sobretudo se o tema é imprensa. Democracia é isso: pluralidade de visões de mundo, pluralidade de crítica. No caso Palocci, mais uma vez a imprensa cumpriu o seu papel. Afirmou-se como interlocutora ativa do regime democrático, em particular se viermos a construir uma democracia de multidões.

A revitalização do governo Dilma é a terceira lição do caso Palocci. Não se pode negar: há uma crise de imagem-reputação-identidade que eclodiu e não vai terminar com a simples renúncia de Palocci. Houve demora para enfrentar, de cara, o problema. Fosse diferente, o ministro não teria agonizado no cargo. A presidente, vista como uma gestora eficaz, ficou na alça de mira dos críticos. Ou, mesmo daqueles que a apoiam e admiram. Crises são reações em cadeia. Exigem intervenções cirúrgicas: rápidas, precisas, com estratégia bem definida para evitar que imagens e reputações se danifiquem e, como desdobramento, a identidade seja colocada em questão.

Foi o que aconteceu na França pré-revolucionário. O rei e a rainha não perceberam que estavam perdendo créditos preciosos no terreno da comunicação. Simplesmente, deixaram que a burguesia revolucionária, então em ascensão, saísse do anonimato para as ruas. No caso brasileiro, o desafio é outro. Existe tendência em se atribuir a responsabilidade pela crise às conspirações. Parte desse fenômeno seria atribuído à imprensa, vista com desconfiança pelas correntes à esquerda. Não explica, porém, o que objetivamente acontece nos bastidores do poder. É necessário informar de maneira coerente, clarificar. Inclusive provar se existe ou não conspiração. É o que se poderia chamar de fatos da razão e razão dos fatos, com este último conceito lançando luzes sobre a verdade dos fatos. No caso Palocci, não houve transparência, ficaram as perguntas: por que não explicar, detalhadamente, as origens do enriquecimento? Quais foram os seus clientes? Que serviços prestou quando era deputado federal? Nada disso foi esclarecido.

Ensina a boa gestão de crises que não se pode criar um problema dentro do problema e, o que é igualmente relevante, que o pós-crise é tão essencial quanto a crise. São princípios universais, mas que geralmente são esquecido. Há no imaginário político brasileiro a crença de que a sociedade carece de memória. Não é verdade, em particular agora com a emergência das redes sociais. Fosse diferente, o próprio PT não teria hesitado em apoiar Palocci, nem o governador baiano, Jaques Wagner, teria disparado o tiro de misericórdia com a afirmação publica de que o então ministro estava prejudicando a vida política brasileira e que sua fortuna chamava atenção.

O que significa trabalhar o pós-crise? Uma agenda positiva torna-se premente - a crise se enfrenta com uma chuva de boas notícias - , mas é imprescindível criar padrões para o exercício da vida pública. A começar pela punição clara ao tráfico de influência. O critério de igualdade deve prevalecer para todos. Pois no tribunal da opinião pública, não cabem recursos. Cabem apenas os fatos. E os fatos podres, mentirosos, artificiais sempre são expulsos pelos fatos concretos, inquestionáveis, duros como a verdade.

Francisco Viana é jornalista, mestre em filosofia política pela PUC-SP, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)


Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br

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