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Sábado, 11 de junho de 2011, 15h33 Atualizada às 00h53

Andanças de maio

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Maio foi um mês rico em atividades de ficção científica, mas que para mim se concentraram bem no finalzinho.

Alguns meses antes, o editor da Conrad Livros, Rogério de Campos, havia me indicado para trabalhar como assessor na concepção de uma exposição que se chamou "Ficção Científica Britânica", com curadoria de Rogério e fazendo parte do 15.º Cultura Inglesa Festival. Sui generis em vários aspectos, a exposição seria montada no espaço de exposições da Estação Paraíso do Metrô, em São Paulo. Depois de uma reunião com Tarsila de Oliveira e Castro, da produção do Festival, pus mão à obra.

Foi um trabalho muito interessante. Refletir sobre a ficção científica britânica era algo que eu já vinha fazendo, por conta de uma pesquisa sobre o movimento New Wave iniciado na Inglaterra, na década de 1960. Rogério de Campos se mostrou muito conhecedor dessa área, tendo lido muito de Aldiss e Ballard, mas sendo muito mais conhecedor da contribuição britânica para a FC no cinema, nos quadrinhos e na televisão, do que eu. Meu papel foi mais o de produzir o rascunho de uma "linha do tempo" da evolução da FC britânica, do século XVIII ao presente.

A produção ficou a cargo do arquiteto Elisio Yamada, um especialista nesse tipo de trabalho - que neste caso foi feito no estúdio do artista plástico Mario Cafiero, na região da Avenida Paulista. Eles e o resto da equipe fizeram escolhas muito inteligentes e perspicases, como dispor a linha do tempo como a sinalização das estações do metrô de Londres, e a criação de painéis temáticos destacando figuras como Mary Shelley, H. G. Wells, Brian Aldiss, J. G. Ballard, Allan Moore, China Miéville e até mesmo o artista brasileiro Henrique Alvim-Corrêa, que ilustrou uma rara edição de A Guerra dos Mundos, de Wells, lançada na Bélgica em 1906. Eu já havia montado várias exposições no âmbito amadorístico do fandom de ficção científica, e fiquei muito bem impressionado com o profissionalismo, o senso estético e a tecnologia empregada por Elisio e sua equipe.

Mas como é inevitável, algumas coisas ficaram para a última hora e uma delas foi uma seleção de livros e revistas inglesas a serem expostos em mesas de vidro. Em uma das conversas, levantou-se a possibilidade de eu fornecer esse material, e no dia 17 de maio recebi e-mail nesse sentido, de Flávia Taiar, uma jovem que trabalha com a equipe de Elisio, e que eu ainda não conhecia. O próprio Elisio me escreveu sugerindo que fossem 30 livros e 30 revistas, o que estava bem dentro das minhas possibilidades. Mas isso nem sempre significa uma facilidade em encontrar o material, no abarrotado e apertado apartamento em que vivo com minha mulher e meu filho, aqui no Sumaré... Eu deveria levar tudo até o Metrô Paraíso no dia 26 de maio, à tarde. No dia 25 fui pela manhã até o local. Eu já estivera antes no inventivo espaço de exposições do Metrô, mas a exposição estava ali, ainda semi-instalada mas já inspiradora. Colorida, informativa, a linha do tempo estava toda ali, materializada da tela do computador e do software em adesivos colados às pranchas fornecidas pelo Metrô.

Eu estava lá para ajudar com a montagem, mas isso não foi necessário por duas razões - um grupo de profissionais chegou para fazer justamente isso; e porque a direção do Metrô não permitia que houvesse movimentação de trabalhadores ali, dentro do seu horário de funcionamento.

Flávia Taiar estava ali, e também Mario Cafiero, que me perguntou se não seria interessante termos legendas para alguns dos itens que estariam expostos, entre eles grandes imagens que, ele me disse, seriam adesivadas nas paredes.

Como nos dias anteriores tive que cuidar de uma emergência burocrática na USP, relativa à minha pós-graduação, pude manter a minha tradição pessoal de deixar tudo exatamente para a última hora, reunindo o material apenas na manhã do dia 26, uma quinta-feira. Com uma sacola de livros e a mochila pesada de revistas, fui até o Paraíso. Meu filho de 19 anos forneceu apoio moral.

Lá, demorou um pouco para o pessoal chegar com as vitrines. Eram duas, com uma área relativamente pequena, de modo que a maioria absoluta das revistas ficaria de fora. Mas eu havia acertado com precisão milimétrica o número de livros - que incluíam obras de Shelley, Wells, Wyndham, Clarke, Aldiss, Ballard, Baxter e Stross, seguindo em uma ordem mais ou menos cronológica até fechar com o romance Brasyl (2007), de Ian McDonald. As revistas eram a New Worlds em sua fase paperback, em fins da década de 1960, e Interzone, ainda a revista de FC mais importante da Inglaterra. Incluí também o boletim da British Science Fiction Society, e um exemplar da Locus - The Magazine of the Science Fiction and Fantasy Field especial de new space opera, que é revista americana e não inglesa, mas que trouxe os britânicos Charles Stross e Alastair Reynolds (entrevistado esta semana no É só Outro Blogue, de Tibor Moricz: http://frombartobar.wordpress.com/2011/06/10/from-bar-to-bar-interviews-alastair-reynolds).

Elisio estava lá, e dividiu o espaço das revistas na vitrine com álbuns de quadrinhos escritos e desenhados por ingleses famosos, particularmente Alan Moore com suas obras inigualáveis, V de Vingança, Watchmen e Liga Extraordinária. Ele também me deu o OK para a preparação das legendas, que incluíram a informação de quem era o autor dos belíssimos painéis colocados ao lado de uma tela plana e de frente para um enorme pufe com o "Union Jack", a bandeira do Reino Unido: John Harris é um artista inglês, um dos meus ilustradores de FC favoritos pela qualidade etérea, quase mística de suas imagens espaciais e astronaves.

O material tridimensional também já estava instalado - esculturas e brinquedos inspirados em filmes como Frankenstein e Alien: O Oitavo Passageiro, além de séries de TV como Thunderbirds e quadrinhos como Watchmen.

A esta altura a organização do Festival já havia acertado a vinda do convidado internacional, Robert Sherman, um escritor de scripts para o programa da BBC, Doctor Who, uma série de TV que é cult internacional. Shearman esteve na inauguração da "Ficção Científica Britânica" na Estação Paraíso, assim como Rogério de Campos, Tarsila e o resto da equipe organizador do Festival. Infelizmente, minhas encrencas burocráticas e um começo de gripe me impediram de comparecer à festa. Mas encontrei tempo para terminar a leitura de Crossing the Line (2004), ótima ficção científica de aventura espacial escrita pela jornalista inglesa Karen Traviss, autora que mostra que existem opções para uma FC britânica dinâmica e inteligente fora da new space opera e de outras modalidades pós-cyberpunk de ficção científica.

Na sexta-feira, dia 27, enviei minha coluna aqui para Terra Magazine - uma entrevista com Sherman (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5153980-EI6622,00-Entrevista+com+Robert+Shearman+escritor+da+serie+Doutor+Who.html), e a Elisio Yamada enviei as legendas que eu havia preparado na véspera.

No sábado dia 28, já bem gripado, fui para o local da exposição, onde Rogério de Campos e eu faríamos um bate-papo às 12h30, discutindo a FC britânica. Enquanto testávamos os microfones, apresentamos algumas figuras da comunidade de ficção científica e fantasia presentes: o escritor e blogueiro Álvaro Domingues (Blog do Pai Nerd: http://blogdopainerd.blogspot.com) e um de seus filhos; Bruno Cobbi, outro escritor e blogueiro; o autor Adriano Siqueira, e o editor e agitador cultural Silvio Alexandre, o criador da FantastiCon. Minha esposa Finisia Fideli e nosso filho também estavam lá, assim como Tarsila e a equipe da organização. Foi ótimo rever o pessoal do fandom, mas também havia um bom número de interessados que eu não conhecia. A conversa foi boa. Observando a exposição em si, fica fácil visualizar o quanto os britânicos contribuíram para a evolução da ficção científica como a conhecemos, e em geral com uma clara preocupação de crítica social e política, como Rogério de Campos sublinhou. Não havia previsão para que o público fizesse perguntas, mas elas foram feitas, e respondidas assim mesmo, sem atrasos.

A exposição Ficção Científica Britânica termina no dia 12 de junho. Fazia muito frio naquele sábado, e minha gripe não se beneficiou em nada com o vento encanado da estação do Metrô. Minha família e eu fomos almoçar no Shopping Pátio Paulista, onde tomei meus remédios homeopáticos. Nós nos despedimos na Estação Brigadeiro, e eu fui até a Livraria Martins Fontes, ali mesmo na Avenida Paulista, para o lançamento do romance O Peregrino, um weird western escrito por Tibor Moricz (seu terceiro romance) e publicado pela Editora Draco (http://editoradraco.com). Lá estavam Domingues e seu filho, Silvio Alexandre e Bruno Cobbi - e nós voltamos a nos cumprimentar efusivamente. Também apareceram alguns fãs que perderam o bate-papo no Paraíso - o autor e blogueiro Daniel Borba (que escreveu sobre as andanças daquele sábado no blog Além das Estrelas: http://alemdasestrelas.wordpress.com/2011/05/30/um-dia-na-vida-de-um-nerd) e o tradutor Carlos Angelo, além de Erick Santos, o editor da Draco. O próprio Moricz apareceu apenas cinco minutos atrasado - quando havia sugerido no Twitter um atraso bem maior e muito mais embriagado. Sua simpática esposa veio com ele.

Saí cedo, sabendo que muitas outras personalidades do fandom chegariam depois. Eu estava a caminho da Livraria Cultura, onde Robert Shearman falaria às 17h30, quando Tarsila me ligou no celular perguntando seu eu poderia chegar mais cedo. Na entrada do Conjunto Nacional, tomei um café para esquentar e acalmar a garganta inflamada. Em seguida, fui à livraria, em busca dos livros de Shearman que, eu supunha, a Cultura teria importado para oferecer ao público do evento. Quando eu soube que a livraria não tinha tido condições de importar os livros, fiquei frustrado. Robert Shearman chegou com o pessoal da Cultura Inglesa. Ele logo se mostrou um sujeito meio tímido, mas falante, apesar. Na infância, sofreu de gagueira, e, como se costuma ouvir entre atores e diretores, foi para o teatro a fim de enfrentar o problema. Ele selecionou um trecho de "Dalek", o episódio que escreveu para Doctor Who, e que seria apresentado num telão antes da sua fala. "Dalek" foi indicado ao Prêmio Hugo de Melhor Apresentação Dramátiva.

É claro, fiquei louco quando vi que ele havia trazido exemplares do seu segundo livro de contos, Love Songs for the Shy and Cynical (2009), o resto do dia foi um único esforço para conseguir um exemplar autografado. Seu primeiro livro, Tiny Deaths (2007), ganhou o World Fantasy Award de melhor coletânea - uma marca invejável. Shearman foi apenas o terceiro vencedor do World Fantasy Award a visitar o Brasil em anos recentes (os outros dois foram Orson Scott Card e Neil Gaiman). Uma das anedotas mais divertidas que ele contou foi a de como foi recebido em Calgary, Canadá, para onde viajou a fim de participar da entrega do prêmio: muitos freqüentadores lhe disseram que nunca tinham ouvido falar dele, e que ele não tinha chance de ganhar. Por isso, quando foi subiu no palco para receber o prêmio, estava "levemente" embriagado...

A dinâmica da palestra de Shearman foi dominada pela sua verve e sua experiência como escritor de Doctor Who - e pela presença de uma maioria de fãs da série, na platéia. Dois terços do público eram de fãs dessa série iniciada na década de 1960. Número que, eu imagino, não surpreendeu apenas a mim, mas ao próprio Shearman. Seus contos lidam com o absurdo e com o lado emocional imponderável da experiência humana, muitas vezes assumindo um caráter humorístico (a comédia é o seu principal modo narrativo, desde a sua atividade de dramaturgo).

No café do hotel em que Shearman ficou, eu finalmente consegui o autógrafo - imediatamente antes de ele ser cercado pela legião de fãs de Doctor Who. De São Paulo, ele ainda seguiu para o Rio de Janeiro, onde participou do Space Blooks, um seminário de ficção científica e fantasia realizado na livraria Blooks.

Sábado foi um dia intenso e maravilhoso para um fã de FC e fantasia - e eu ainda perdi o jantar de lançamento de Rei Rato, o primeiro romance do celebrado autor inglês China Miévielle lançado no Brasil (pela Tarja Editorial), que também acontecia na região da Avenida Paulista, mas num horário incompatível com a palestra de Shearman. Foi ótimo ouvir o inglês, e participar do 15.º Cultura Inglesa Festival. A exposição Ficção Científica Britânica ficará na minha memória.

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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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15.º Cultura Inglesa Festival

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