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Sexta, 24 de junho de 2011, 08h01

A pracinha e as babás de branco

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo


O que nos diz sobre nós mesmos a obrigação de que babás vistam branco?
(foto: Getty Images)

Estimados leitores, eis que me encontro em uma pracinha, diante de uma bela pracinha, para ser mais preciso, sentado em um bar e olhando para as pessoas na pracinha, para ver se a banda passa por aqui.

O fato é que meu baronato Carneiro da Cunha, localizado no nobre bairro de Pinheiros está se deslocando mais para perto do parque do Ibirapuera, para um bairro que me parece nobre, mas mais sem noção e onde passarei a reinar daqui pra frente. Os motivos todos saberão um pouco adiante, mas, por uns tempos, preciso de ruas menos ladeirosas e mais verdes, coisa que Pinheiros, tão pródigo em outros bens, praticamente não possui. E assim vim, na busca por terras com mais palmeiras e sabiás, e aqui, descubro, existe uma pracinha, e é nela que estou, porque me agradam muito as pracinhas.

Na minha infância querida, aurora de minha vida na friíssima e bela serra gaúcha, havia uma pracinha em especial na qual passei bons e ótimos momentos. Nela havia uma ilha com alguns macacos, coisa mais exótica do que pode imaginar um não-gaúcho e, mais tarde, barquinhos, nos quais gastei muita sola de sapato aprendendo o básico da navegação a pedal. Pracinhas são a razão da vida, eu acho.

Nessa pracinha, aqui no meu novo bairro, no entanto, existem flores exóticas. Elas passam bastante tempo paradas, se movem aos poucos e em grupos. Elas falam baixinho e entre si, não consigo ouvir o que dizem. Elas são flores com frutos, mas os frutos não são delas, aparentemente, e não se vê qualquer árvore-mãe, pelo menos daqui da mesa de bar onde estou sentado e olhando. As flores, estranhamente, num mundo com tantas cores, todas, todas, vestem branco. E isso, caros leitores, provocou um estranhamento e uma inquietude que agora se transformam nessa coluna.

Eu até que conheço bastante o Brasil, mas meu olhar inicial é moldado pela serra italiana no RS dos anos 60 e 70, pelo menos naquela época a parte mais igualitária que eu jamais vi no país. Lembro do desagrado da parte mais arcaica dos Carneiro da Cunha em visita ao ver a todos nós, família e trabalhadoras da casa almoçando juntos, mesma mesa, mesma comida, mesmos tudo. Lembro do meu espanto ao conhecer famílias de rincões mais atrasados do Brasil, tais como o Rio de Janeiro, ao ver os quartos destinados a elas, ao que se esperava delas, que eram chamadas à noite para fazer um suquinho para o Júnior. Na falsa riqueza da zona sul carioca, imperavam símbolos do falido império. Do mundo onde eu vivia, isso simplesmente não fazia parte. Na Porto Alegre em que eu cresci não havia porteiros nos prédios, como começam a surgir junto com a arquitetura paulistana que brota em todo canto. O que não quer dizer que aqui eu esteja criando um falso Rio Grande apenas para impressionar as visitas. Claro que existem sinais exteriores de diferenças sociais em todo lugar. Apenas sinto que eles não são tão gritantes lá como os que vejo nessa pracinha.

Aqui, na pracinha, brotam flores brancas por onde quer que eu olhe, e sinto que parte de mim vai ser infeliz nesse novo bairro. Vou gostar muito do verde, vou curtir o parque ali ao lado, quem sabe até mesmo comprar uma bicicleta? Mas o verde daqui é salpicado de branco, caros leitores, e isso é tão desnecessário quanto triste.

Não por conta das babás, que afinal trabalham e, me dizem, são bem pagas no bairro. Mas por conta dos empregadores que exigiram delas o branco. O que isso nos diz sobre o cérebro deles, o seu sistema de valores? O que isso nos diz sobre nós mesmos e sobre o que realmente somos e onde estamos, nesse Brasil de 2011?

Havia babás no meu prédio no nobre bairro de Pinheiros, mas branco vestem apenas os médicos que por ali vivem, e que vão ter que abandonar esse branco dos aventais usados em público. O meu nobre barro de Pinheiros é um lugar muito amigável e cordial, onde todos se cumprimentam no elevador e parecem gostar de estar ali. O meu novo bairro me surge como um lugar rico e ameaçador, onde os prédios têm câmeras e tantos seguranças vestindo preto quanto babás vestindo branco, símbolo do que pensam os meus novos vizinhos, mesmo que meu prédio fique na fronteira e a minha rua não seja uma rua igual às demais desse bairro. Saber que esse branco está aqui, e que a linda pracinha é um território dessas práticas segregatórias, faz de mim um barão Carneiro da Cunha bem menos contente do que eu era na minha luxuosa laje.

Todos sabem que eu gosto muito de viver em São Paulo, eu os atormento com as minhas experiências na cidade o tempo inteiro. Aqui, na pracinha, meu novo amor é submetido a um duro teste, e dele não sei como sairemos, todos que dele participam. Vai ser importante conviver com essa realidade que eu ainda não tinha sentido ou percebido. Vai ser importante passar por aqui todos os dias e pensar a respeito do que ainda somos, os brasileiros, especialmente os mais ricos. Colocar uma babá de branco a cuidar de um filho me parece ser, entre outras, uma das coisas mais bregas que eu já vi. Mas sou novo no bairro, e prefiro ser pós do que pré conceituoso. Por enquanto, a sensação é de que talvez não role amizade, mas apenas boa vizinhança, algo essencial. E compensações há. Existe uma surpreendente escola estadual aqui ao lado, e já estou me organizando para ir lá falar de literatura com grupos de EJA, algo que é simplesmente bom demais, e o bairro também permite. Nada é absoluto, a não ser o branco, dizem.

Um abraço a todos, daqui mesmo, no meio do branco menos branco que o mundo já viu, nesse pedaço de céu onde as nuvens seguem ordens, nesse lugar que consegue ser, ao mesmo tempo, uma pracinha e uma celebração do nosso insensato e infeliz apartheid à brasileira.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br
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