Terra Magazine

 

Quarta, 20 de julho de 2011, 14h08

Entidade: Musas paraguaias prejudicam identidade da mulher

Eliano Jorge


Coordenadora de comitê que luta pelos direitos femininos no Paraguai reclama da "mercantilização do corpo e da vida das mulheres" (foto: Getty Images)

O futebol paraguaio recentemente se notabilizou menos pelos bons jogadores que exporta e mais pela geração de musas de recheados decotes que adornam sua torcida. Proliferam em jornais, revistas, sites e TVs de diversos países as imagens de paraguaias exibindo seus dotes físicos - naturais ou devidamente comprados - nos jogos da seleção alvirrubra.

Esta produção em série começou no próprio país, durante a Copa do Mundo de 2010, de carona com o time que brilhou na África do Sul. Tem continuidade neste mês de julho, com mais candidatas a vedetes, na Copa América, na Argentina. Nesta quarta-feira (20), a partir das 21h45, no duelo entre Paraguai e Venezuela pelas semifinais, novo desfile é esperado.

Algumas garotas conseguiram ensaios fotográficos, contratos publicitários, participação frequente em eventos e convites midiáticos. Nos estádios, há quem faça propaganda e quem esteja em busca de oportunidades como essas.

- Salvo as feministas, não houve uma reação social contrária, e isso mostra que existe uma sociedada cúmplice no Paraguai sobre a mercantilização do corpo e da vida das mulheres - analisa, em entrevista a Terra Magazine, María Limpia Díaz, coordenadora nacional do Comitê da América Latina e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem).

Ela lembra que comportamento semelhante ocorre no Brasil. E critica "o sistema patriarcal unido ao do capitalismo", os "estereótipos que a sociedade global e suas distintas culturas assumem como feminino ou masculino", destacando o "papel preponderante" dos meios de comunicação de massa.

- Estas imagens sexistas não demonstram a heterogeneidade e multiculturalidade das mulheres paraguaias, porque se oferece majoritariamente ao espectador(a) uma representação de mulher, "ideal", que costuma ser "branca, jovem e magra". É uma distorção da realidade, que prejudica a identidade da mulher - avalia a representante do Cladem no Paraguai. - Só contribuem para manter as desigualdades de gênero e injustiças institucionalizadas - acrescenta.

Leia a entrevista completa.

Terra Magazine - Como foi, no Paraguai, a reação à divulgação internacional de imagens de torcedoras paraguaias em poses sensuais, com chamativos decotes ou seminuas?
María Limpia Díaz -
Creio que, na realidade, salvo as feministas, não houve uma reação social contrária, e isso mostra que existe uma sociedada cúmplice no Paraguai sobre a mercantilização do corpo e da vida das mulheres.

Como o Cladem avalia este tipo de exploração da imagem de mulheres paraguaias? Prejudica a população feminina?
O sistema patriarcal unido ao do capitalismo hoje utiliza o corpo das mulheres e as mercantiliza. Isso se acentua e se reproduz através da publicidade, exercendo os meios de comunicação de massa um papel preponderante. Os estereótipos que a sociedade global e suas distintas culturas assumem como feminino ou masculino se manifestam em imagens sexistas que só contribuem para manter as desigualdades de gênero e injustiças institucionalizadas e em nada para fomentar uma imagem pluralista e promotora do respeito à diversidade estética e de gênero existentes nas sociedades paraguaia e latino-americana.
Uma ação importante que o Cladem Brasil teve na luta pela eliminação da discriminação às mulheres foi a denúncia apresentada ao Ministério Público (em 2003) para que adotasse medidas correspondentes a fim de que a empresa Kaiser retirasse de forma imediata todas as publicidades referidas a "Mulher e Cerveja: Especialidades da Casa".
Todos os Estados que firmaram e ratificaram a "Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de discriminação contra a Mulher (CEDAW) estão obrigados pelo artigo 2 a tomar todas as medidas para a eliminação da discriminação às mulheres". O Estado deve tomar as medidas adequadas para eliminar o sexismo e a discriminação às mulheres, e a sociedade civil tem que exigir o cumprimento das mesmas, como o fez no caso da empresa Kaiser.

Pode-se criar estigmas negativos sobre a mulher paraguaia?
Estas imagens sexistas não demonstram a heterogeneidade e multiculturalidade das mulheres paraguaias, porque se oferece majoritariamente ao espectador(a) uma representação de mulher, "ideal", que costuma ser "branca, jovem e magra". É uma distorção da realidade, que prejudica a identidade da mulher, que fica subordinada geralmente ao desejo e ao poder do homem.

Este comportamento dificulta a luta pelos direitos das mulheres no Paraguai? Faz retroceder o processo de evolução do papel da mulher?
Do movimento feminista que impulsiona demandas, luta e conquistou avanços historicamente, se fez e avançou muito, entretanto, isso segue nos demonstrando que ainda nos falta muito o que exigir; não se trata de culpas individuais, e sim de um sistema sociocultural, que não nos permitiu ver-nos como o que somos: seres humanos.

Há riscos de esta imagem criada sobre o Paraguai atrair o chamado turismo sexual?
A "coisificação" do corpo das mulheres foi um dos motivos principais de exploração de seus corpos por parte de terceiros e, sendo assim, enquanto seguimos reproduzindo a imagem de mulher "coisa", de "objeto sexual", seguirá havendo este tipo de exploração e escravidão.
Segue sendo uma preocupação e desafio afrontar o turismo sexual e o risco do uso de mulheres e meninas com fins de exploração sexual, que ameaça de forma constante as mulheres no Paraguai.

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