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Domingo, 24 de julho de 2011, 08h29 Atualizada às 09h17

Para além da morte de Amy

Marlon Marcos
De Salvador (BA)


Amy e todo seu estilo (foto: Getty Images)

Não é tolerável que se fale bem de Amy Winehouse, que se descrevam as características do seu talento, que se compreenda agora a dureza da vida frente às dificuldades de convivência, às vezes esta, insuportável aos mais sensíveis e criativos; e com candura hipócrita: minimizem, agora, as drogas perante o que a cantora, de vida breve, fez no cenário da música popular ocidental, igualzinho a outros ícones que morreram (ou foram mortos?) pela força da normalidade que configura este mundo asfixiante em que vivemos como prisioneiros moralistas.

A questão não é a droga pela droga, nem o desvario pelo desvario que alguns artistas apresentam. A questão não é elaborar um tratado psicológico ou sócio-antropológico, do ponto de vista acadêmico, para revelar as fragilidades da grande Amy; fragilidades que todos têm e se salvam pelo ordenamento, coisas que os inquietos e criativos, os de temperamento questionador, muitas vezes genial, não conseguem e nem querem se submeter.

A questão, se existe uma, é entender que nós criamos os drogados e precisamos dos transgressores. E esse tipo de morte expurga nossa culpa covarde de querer gozar a normalidade e combater letalmente os que tentam se destruir como forma de denúncia, de desabafo, de escracho inocente e suicida; os que se lançam à morte buscando uma vida mais luminosa, que entre nós, nem o grande talento consegue trazer.

Lamento a morte de Amy como se lamentasse a perda da minha vida. Ela alimentou, com seu escárnio autodestrutivo, a indústria midiática dos escândalos e das fofocas que dão densidade à existência tacanha de milhões de pessoas espalhadas por este mundo. Não sei se ela tinha coragem; tenho certeza que tinha um grande talento e estava entre as vozes mais agradáveis e especiais das cantoras planetárias na contemporaneidade.

Era toda ela um jeito surreal de ser: a forma idealizada que se tem do verdadeiro artista, aquele que representa o que não saberíamos ser: por pequenez, inabilidade, covardia, incompetência, falta de talento, de vocação, enfim, a tal da normalidade que emprega os medíocres.

Tomara que esta morte tenha um efeito contrário e não sirva para acariciar a pele rude da necrofilia do Ocidente; tomara que não só se façam discursos contra as drogas e nem mitifiquem Amy, santificada agora porque calada, castigada pela morte, por conta das suas transgressões, da sua rebeldia, da "fúria marginal", do seu encanto selvagem bem acima das possibilidades do humano em sua normalidade.

Back to Black acendendo-se em nossos ouvidos em uníssono para registrar uma despedida que é encontro. A gente sempre foi Amy no recôndito dos nossos sonhos, em nossas lamentações profundas, em nossa ânsia de fórmulas anestésicas, em nosso grito esmagado em busca de uma liberdade que nunca será...

Mas ela tentou, se desesperou, se aliviou, se maltratou; se errou integralmente não sei; sua voz ficará na galeria dessa imortalidade daninha que conferimos aos mitos; seu canto está em muitos antes e depois dela e continua até repousar em outro que tenha de morrer em nome da harmonia deste mundo que adoece os sensíveis, os proponentes, os que rejeitam: a alegria pipoca e macaco, poltrona TV domingo, neuroses bancárias, carro apartamento status... O poder que mata para que haja esta civilizada sociedade dos homens e mulheres bolsonaros.

Marlon Marcos é jornalista, antropólogo e professor. Blog: Memórias do Mar.

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