Terra Magazine

 

Quarta, 27 de julho de 2011, 09h36 Atualizada às 12h36

Líder de associação de ateus: Somos cidadãos de segunda categoria

Eliano Jorge


Propagandas de ateus exibidas em outdoors de Porto Alegre (foto: Divulgação)

Eles reclamam de discriminação, se veem subjugados, se sentem na pior casta social. E são os únicos que nem podem apelar para Deus. Trata-se dos ateus, que resolveram recorrer à publicidade para combater o preconceito. Obviamente, só remexeram a polêmica em relação às suas descrenças.

Criada em 2008, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) teve negados seus pedidos para manifestar sua falta de credo em anúncios nos ônibus de São Paulo, Salvador, Porto Alegre e Florianópolis a partir do fim do ano passado. Mas conseguiu propagar suas mensagens em outdoors da capital gaúcha neste mês de julho e ganhou repercussão na mídia.

Um dos líderes da entidade, Daniel Sottomaior, queixa-se da premissa recíproca:
- Falar mal de ateus, ninguém nota, isso não dá notícia - afirma em entrevista a Terra Magazine.

A Atea divulga que nasceu para defender os direitos de ateus e agnósticos, lutar contra a discriminação, promover o Estado independente de religiões, zelar pelo pensamento crítico e pelo método científico.

Para Sottomaior, o País marginaliza seu grupo. "Temos o direito de ser ateu, mas como cidadãos de segunda categoria", lamenta. "Na minha opinião, nós somos párias oficiais. Tem pesquisa mostrando claramente isso", declara, referindo-se a um trabalho da Fundação Perseu Abramo. "Nem travestis, nem garotas de programas, nem usuários de drogas, nada. Não conheço nenhuma categoria que tenha mais rejeição que nós".

Ele avisa que a campanha de visibilidade dos ateus continuará e se ampliará. "Para deixar muito claro que não vamos embora, não vamos nos acovardar, não interessa quem seja que não queira que as mensagens sejam mostradas. Elas serão mostradas enquanto tivermos dinheiro e nossos financiadores", promete.

Sobram críticas também para a proximidade do poder público com a Igreja. "Quando as pessoas falam do Estado laico, é, no máximo, da boca pra fora. Isto está em conluio tanto com os membros do Executivo, como do Legislativo e do Judiciário", condena Sottomaior, sem fé em nenhuma instância.

Leia a entrevista.

Terra Magazine - Quando começou essa campanha em outdoors? Só existe em Porto Alegre por enquanto?
Daniel Sottomaior -
Ela começou em 4 de julho. Por ora, é só em Porto Alegre.

Mas vocês são sediados em São Paulo, não? Por que a opção por Porto Alegre?
Isso, a sede é em São Paulo. Porque (Porto Alegre) foi uma das capitais que negaram a campanha dos ônibus. Aqui em São Paulo, a Lei da Cidade Limpa não permite (outdoor). O Rio Grande do Sul é um dos Estados que mais tem membros da Atea. São Paulo tem mais, porém lá per capita tem quase o dobro.

Quantos filiados possui a Atea?
Somos 2.700.

Vocês estimam que há quantos ateus no Brasil e no mundo?
No Brasil, cerca de 2% (da população). No mundo, alguma coisa aí perto de 10%, 15%.

Há uma noção sobre quais países possuem mais ateus?
Existem vários países com muitos ateus, em especial quase todos os países da Europa têm, no mínimo, 10%, 20% de ateus, frequentemente 40%, 50%. O Japão também tem bastante porque o xintoísmo e o budismo não falam de divindades.

Qual é a motivação para esta campanha publicitária da Atea? Para quem não pertence ao movimento, talvez aqui no Brasil não seja perceptiva a discriminação que vocês alegam sofrer. Como isso ocorre no dia a dia?
Uma das coisas que descobri, entrando em contato com pessoas do Movimento Negro e do Movimento LGBT, é que aparentemente o preconceito não muda quando mudam os alvos, só muda o endereço mesmo. Ele acontece na família, com pessoas ostracizadas dentro da própria família, com pessoas que perdem amigos ou emprego, pessoas que são hostilizadas na rua por desconhecidos, pessoas que perdem até o marido ou a esposa quando se descobre que são ateias. Existe todo tipo de reação negativa que a gente enfrenta no dia a dia. Uma amostra pode ser vista no blog Ateus Atentos (http://ateusatentos.blogspot.com/). Ele e seu Twitter existem só para pegar e registrar casos de declarações a respeito de ateus. Todos os dias, você vê lá pessoas dizendo: "Não respeito ateu", "Ateus deveriam morrer", "Ateus são criminosos, são maus, são incapazes de amar". Todo tipo de coisa que se imaginar está dito lá.
Há até declarações, por exemplo, do (candidato tucano José) Serra na campanha. A primeira pergunta que fizeram a ele na Rede Vida foi se era importante que o presidente cresse em Deus. Claro que era uma pergunta obviamente dirigida para espinafrar a Dilma. Ele jogou para a plateia e disse: "Com certeza, é importante porque o ateísmo causaria males para o Brasil e pro mundo". Imagine se ele dissesse isso do judaísmo. Este sujeito seria execrado em praça pública. Ia gerar uma comoção nacional. Os jornais, na hora, iam entrevistar os rabinos da comunidade judaica. Este sujeito ia ser processado por racismo, discriminação. Enfim, ia dar notícia na CNN por falar mal de judeus. Falar mal de ateus, ninguém nota, isso não dá notícia.

Como a Atea avaliou o excesso de referências religiosas na campanha eleitoral de 2010? Para vocês, era importante que um presidente da República se manifestasse ateu? É possível que um candidato ateu se eleja no Brasil?
Já existe uma pesquisa feita no Brasil, seguindo uma série de outras pesquisas que se faz desde os anos 20, se não me engano, sempre com a mesma pergunta. "Você considera que é bem qualificado um candidato, independentemente de qualquer coisa. Você não votaria nele nestas condições, se ele fosse..." Aí tem umas 15 categorias: mulher, negro, judeu, homossexual, um monte de coisas. Uma delas é "ateu". Desde que esta pesquisa começou a ser feita, o maior índice de rejeição é dos ateus. Mesmo superior ao dos negros, mesmo em época de apartheid. E continua sendo.
No Brasil, foi feita uma pesquisa pela revista Veja que deu exatamente a mesma coisa. No topo de qualquer outra rejeição política, estão os ateus. A imensa parte dos eleitores fala com todas as letras: não votariam num ateu, mesmo que fosse bem qualificado. Então, a Dilma, tudo indica que seja ateia pelas declarações que ela deu à Folha de S. Paulo numa sabatina, um ou dois anos antes da eleição. Perguntaram se ela acredita em Deus. "Se eu acredito em Deus, se eu não acredito, sobre essa questão, eu me equilibro". Mais na tangente, impossível, né? E a gente sabe que na campanha ela virou católica fervorosa.
Pouca gente sabe, mas o Brasil recentemente assinou um acordo com o Vaticano, dando amplos privilégios à Igreja Católica. Não por acaso, para assinar o acordo, quem foi? O (então presidente) Lula, a (primeira-dama) Marisa e a Dilma. Tem foto da Dilma de veuzinho de católica, beijando o anel do papa.

Existem outros exemplos...
Esta interferência é tristíssima porque, entre outras coisas, além de eventos como esse do Serra que suscitou, gerou várias outras oportunidades para políticos e eleitores manifestarem seu ódio aos ateus. Por exemplo, o Frei Betto, que é o católico preferido do PT, escreveu um artigo na Folha de S. Paulo para defender a Dilma das acusações de ateísmo. No meio do artigo, ele diz que os torturadores, durante a ditadura, praticavam o ateísmo militante. A Folha de S. Paulo deu direito de resposta para a Atea por isso aí que o cara falou. E ele depois reafirmou em novo artigo. Não só ele associa a tortura ao ateísmo militante como ele se dá ao trabalho de escrever um artigo para defender um candidato da acusação de ateísmo num país laico, livre. Ateísmo não é acusação. Ele tinha que dizer: "Olha, este é um país em que o Estado é laico, e o ateísmo não é acusação coisa nenhuma". Mas, não, ele segue a corrente de "Deus me acuda de ter uma candidata ateia", como ele claramente sabe que ela é.
A mistura de religião e política sempre deu maus resultados. Na história, resultou em sangue no mais das vezes. Por que se conseguia justificar os poderes ilimitados dos monarcas e dos déspostas até o século 17. Só tem um jeito de você dizer: "Eu posso ser rei e nenhum de vocês pode". O direito divino, né? Uma das grandes sacadas do iluminismo foi essa, a separação da Igreja e do Estado. Eles defenderam que isso sempre gerava problemas para as minorias. Quando o governo assume uma religião, todo mundo que não é daquela religião está na roça. Infelizmente, aqui no Brasil, não há essa percepção. A mistura entre Igreja e Estado é uma coisa corriqueira. Quando as pessoas falam do Estado laico, é, no máximo, da boca pra fora. Isto está em conluio tanto com os membros do Executivo, como do Legislativo e do Judiciário. Você vê, nos três poderes, as repartições públicas cheias de figuras religiosas. Quem vai tirar? Não tem nenhum político, ninguém do Executivo, do Legislativo e do Judiciário nessa briga. É um símbolo muito claro do conluio de interesse entre Igreja e Estado. Como tantos outros: a mensagem religiosa no nosso dinheiro, a imunidade fiscal das igrejas...

Vocês se sentem como se não tivessem o direito de serem ateus?
Temos o direito de ser ateu, mas como cidadãos de segunda categoria. Imagine se, num país em que está escrito na cédula de dinheiro "Thor seja louvado", as pessoas que não louvam Thor são cidadãs como todas as outras? Eu acho que não. É uma mensagem clara de que: "Aqui nós é que mandamos, vocês são estranhos no ninho, não são cidadãos como nós". Está no nosso dinheiro, na nossa Constituição, a religião não paga imposto... A Atea tem que pagar imposto. Mas, se eu montar a Igreja do Sagrado Evangelho Quadrangular, eu não pago imposto. As redes de TV, mesmo as particulares, todas mostram programas religiosos, às vezes até de graça. Fala-se em praça pública que os ateus são execráveis e nada acontece com as pessoas. Pode ser desde um bicheiro até um candidato a presidente da República, o Ministério Público não faz absolutamente nada a respeito disso.
Na minha opinião, nós somos párias oficiais. Tem uma pesquisa mostrando claramente isso. A Fundação Perseu Abramo queria uma pesquisa sobre diversidade sexual para ver qual era a rejeição das pessoas a homossexuais. Eles pegaram os níveis de rejeição com relação a gays, lésbicas, travestis, garotas de programas, uma série de categorias. Alguém teve a brilhante ideia de incluir ateus só para fazer a comparação. Moral da história: os ateus têm a maior rejeição do que todos os outros. Nem travestis, nem garotas de programas, nem usuários de drogas, nada. Não conheço nenhuma categoria que tenha mais rejeição que nós. Se não me engano, deu 43%. Não é só uma percepção subjetiva, não são só relatos.

Como seguirá essa tentativa de vocês de dar publicidade às suas manifestações?
Não tentamos em Florianópolis e Salvador ainda. A intenção é expandir para outras capitais. Essas preferencialmente, para deixar muito claro que não vamos embora, não vamos nos acovardar, não interessa quem seja que não queira que as mensagens sejam mostradas. Elas serão mostradas enquanto tivermos dinheiro e nossos financiadores. Vamos continuar fazendo esta campanha e outras.

Vocês sofrem retaliações? Isso aumentou depois da campanha?
Na verdade, praticamente não nos chega este tipo de reações. São coisas muito esparsas, mesmo porque muitas pessoas só vão conseguir chegar até nós através do site. Tem gente que nem lê nosso endereço lá. A imensa parte das manifestações que chegam até nós são extremamente positivas. No primeiro dia da campanha, em que começaram a sair notícias na internet, até esteve no número 1 dos trending topics do Twitter. Contei centenas de alusões favoráveis à campanha e uma ou duas negativas. Mas sabemos que existem pessoas que ficaram bem bravas com isso. Um site importante de notícias no Sul, o Sul21, publicou declarações um pouco mais irritadas, se não me engano, de um arcebispo de lá, dizendo que tínhamos sido desrespeitosos, coisa que eu realmente não consigo enxergar.

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