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Sexta, 29 de julho de 2011, 08h05 Atualizada às 08h26

Os quatro pênaltis e a vergonha nacional

Jorge Portugal
De Salvador (BA)


O lateral André Santos lamenta perda de pênalti contra o Paraguai
(foto: Ricardo Matsukawa/Terra)

Choro e ranger de dentes. Corações despedaçados. Torcedores à beira de um ataque de nervos. Quase não se podia sair à noite, depois do jogo, em Itapuã pois os carros pareciam desgovernados, buzinaço de raiva e protesto contra os quatro pênaltis perdidos pela seleção no jogo com o Paraguai. "Não pode!", gritavam uns; "Traidores!" urravam outros. E o Brasil inteiro parece não ter conseguido dormir diante de tamanho fracasso e derrota.

Entretanto, muito além daquele jogo e há muito tempo, ainda contamos 18 milhões de analfabetos "clássicos" e porcentuais piores de analfabetos funcionais, pessoas que, até com "anel no dedo" não sabem interpretar um parágrafo, nem entender a simples mensagem de um gráfico. O nosso ensino médio, em particular, tornou-se "a bomba social brasileira", nas palavras de Gilberto Dimenstein, e apenas 50% dos que ingressam no segundo grau, conseguem chegar ao fim do terceiro ano. Silêncio total. Ninguém diz nada. A voz coletiva não se levanta. Ninguém ameaça ir às ruas e escancarar sua indignação. Desse quadro, ninguém parece ter vergonha.

"Esses jogadores são uns pernas-de-pau, uns avarentos que só pensam em grana; não têm amor à camisa, nem sentimento pelo país". Essa era a avaliação comum na boca de cada brasileiro, nos bares, nas esquinas e nas ruas. Nos escritórios também. E quiçá nos palácios. Humilhação maior não poderia haver: perder para o Paraguai, com quatro pênaltis desperdiçados! De que maneira chegaremos à copa?

Todavia, muito além do estádio e daquela desclassificação, há muitíssimo tempo, estamos tomando goleada da corrupção, que surrupia bilhões dos cofres públicos para bolsos privados e, quando a grande mídia anuncia espalhafatosamente o fato, quase nunca denuncia o corruptor, facilitando a eterna substituição dos corruptos nos próximos crimes das novas manchetes. Nas construções dos estádios para a copa, nas estradas, pontes, viadutos, no desvio da merenda escolar, no "mensalinho" das feiras livres, onde quer que haja dinheiro do povo, a "mão-de-gato" age rápida e livremente. Apatia geral. Alguns resmungos aqui e ali, mas nenhuma proposta de tomar as ruas e nelas permanecer até a restauração da ética e da moralidade públicas. Passeatas por uma reforma política à prova de corrupção, nem pensar!

"Esse Mano Menezes não sabe nada de tática!", gritavam muitos naquela noite. E, nos guetos e periferias, muitos "manos" pensavam desesperadamente em alguma tática que lhes trouxesse a primeira refeição de todo o dia, que já terminava. "Neymar e Ganso não jogaram nada!", esbravejavam os que ainda não aceitavam o resultado. No resto do país, milhões de "patos" continuam chutando "pra fora" a chance de existir, porque são, apenas, cidadãos de segunda categoria, sub-empregados, sem informação e, provavelmente, sem futuro. Por eles, quase ninguém se importa. Por eles, ninguém jamais soltará um grito de gol.

Jorge Portugal é educador, poeta e apresentador de TV. Idealizou e apresenta o programa "Tô Sabendo", da TV Brasil.

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