Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Sandy declarou que a Playboy foi sensacionalista ao destacar a frase sobre "prazer anal" (Foto: Divulgação)
Um portal pediu que respondesse às perguntas abaixo sobre o uso do "termo" presidenta. Achava que o caso já tinha morrido. Disse isso à pessoa que fez contato, após mandar um e-mail. Soube que leitores reclamam... Ah, os leitores! Sabendo disso, resolvi responder, brevemente, por escrito, para evitar que minhas pobres declarações fossem picadas. As perguntas eram: "É aceitável? É correto? Quais os prós e contras?".
Minha resposta: "a) As perguntas são um pouco inadequadas. Correção e aceitabilidade, em sociedades abertas, não são universais (como em muitos outros casos envolvendo cultura ou política). b) "Presidenta" não é bem um termo. É o feminino de "presidente". c) É correto? Pelos critérios das gramáticas e dos dicionários, sim. Mas é curioso que os que apelam para gramáticas para criticar "os livro" não aceitam as gramáticas quando abonam "presidenta"! Os que não aceitam a forma não devem conhecer esses "livros". d) É aceitável? Para muitos, sim. Para outros, não (por falta de cultura letrada ou por preconceito; ou por ambas as razões). e) Os argumentos a favor são os gramaticais (em mais de um sentido). Os contrários podem vir da sua conotação política ou feminista. e) Se se tratar de problemas "de ouvido", há duas soluções: ler mais ou ir ao otorrinolaringologista".
Tudo isso vale evidentemente, também para os leitores desta coluna...
Ao pedir para responder por escrito, tinha em mente o fenômeno (que ando estudando) das frases destacadas, cada vez mais notório. Frases tiradas do texto em que ocorreram originalmente, citadas como se fossem autônomas, podem receber interpretações diversas da que tinham nos textos originais. Já fui vítima de procedimentos assim. De tudo o que já disse em longos papos telefônicos, o que saía era uma frase que eu não reconhecia...
Um dos últimos casos que a mídia reverberou foi uma declaração de Sandy. Ela teria dito à Playboy que "É possível ter prazer anal". Não tentei descobrir o que ela tinha dito de fato (notícias sobre "people" não fazem minha cabeça), mas tinha uma secreta certeza de que não teria sido isso. A certeza tem a ver apenas com avaliações que fui levado a fazer das mídias.
Alguns dias depois do começo da história, o portal Terra informou que Sandy declarara que a Playboy foi sensacionalista ao destacar aquela frase. E publicou a pergunta da revista e a resposta de Sandy (a conversa era sobre sexo anal). A resposta de Sandy foi que é impossível falar do tema sem entrar numa questão pessoal. "Mas, falando de forma geral, eu acho que é possível ter prazer anal. Sim, porque é fisiológico".
Observe-se a declaração completa, que é breve. Sempre haverá quem defenda simplesmente que ela de fato fez a declaração que circulou. Afinal, as palavras estão lá...
Tenho quase certeza de que muitos defensores da linguagem clara e das normas gramaticais defenderão que picar um pedaço de frase e publicar como se fosse tudo o que uma pessoa disse é correto, não tem nada de errado. No mundinho em que estamos, grande parte dos debates públicos (diria que infelizmente) tem essa característica.
Diz-se todos os dias que se deve aprender a escrever adequadamente, a argumentar consistentemente etc. Mas, convenhamos, as falas públicas deixaram há bastante tempo de ser sobre textos bem construídos. Em geral, eles são considerados chatos.
Liberdade total para a imprensa, claro. Mas ela poderia ser um pouco mais "complexa"!