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Sábado, 20 de agosto de 2011, 08h13

Pronto, parei!

José Luiz Teixeira
De São Paulo

Faz 15 dias que estou sem fumar. Passei a integrar o time das pessoas saudáveis, limpas, politicamente corretas, enfim, cidadãos acima de qualquer suspeita.

Agora, não sou mais aquele indivíduo de segunda categoria olhado de cima e com desprezo pelas pessoas superiores, quando acendia um cigarro em uma calçada qualquer, sob a chuva, o frio, o vento e o sol.

Quando comecei a fumar, influenciado pelo Mr. Magoo (um colega do ginásio, tão míope e baixinho quanto o homônimo personagem do desenho animado), passeava dando minhas baforadas pela Rua Augusta, em São Paulo, como se fosse um ator de cinema.

Quanto glamour, quanta sensualidade - imaginava eu - exalava dos meus pulmões junto com a fumaça do Minister com filtro! Sentia-me um Humphrey Bogart flertando com Rita Hayworth. Que charme!

Acreditava que todos os adultos que me viam passar olhavam para mim admirados pela minha maturidade, meu charme, minha elegância.

Nunca pensei que talvez estivessem surpresos, na verdade, pela pouca idade do fedelho querendo parecer adulto por causa do cigarro.

Nós, os fumantes, tal qual nossos ídolos do cinema, éramos os descolados, os "pra frente", os machos.

Os não fumantes, principalmente os adolescentes, eram os bobocas, os infantis, os caretas, os "por fora", os nerds.

Aos poucos, essas imagens foram se invertendo, até chegar aos dias de hoje, quando bonito mesmo é não fumar; ser adulto e in é não ceder ao vício vil da nicotina.

De repente, comecei a invejar essa categoria de seres de pulmão limpo que nunca experimentaram o sabor do tabaco; é frustrante vê-los subir escadas, andar de bicicleta, correr 10, 20, 40 quilômetros.

Quando estava no colégio, invejava os colegas de classe que sabiam Matemática.

Nunca sofriam diante de um logaritmo, nunca empacavam que nem jumento em frente a raízes quadradas, regras de três, equações de primeiro, segundo, terceiro graus.

Eram filhos dos Deuses, provavelmente, pois só mentes privilegiadas podiam - e podem - entender todas aquelas fórmulas, cálculos e símbolos que enchiam a lousa.

Assim são, também, os não fumantes: semideuses, os príncipes do Poema em Linha Reta, que nunca levaram porrada, nunca foram vis, enxovalhados, nunca tropeçaram nos tapetes dos hotéis, nunca tossiram incessantemente pela manhã. Como desejei ultimamente ser um deles!

Há duas semanas, estou tentando esse upgrade na minha existência, motivado por uma broncopneumonia que, felizmente, já passou. Mas deixou essa sequela.

Havia prometido para mim mesmo que o dia em que tivesse uma pneumonia pararia imediatamente com o tabagismo.

Ainda tentei negociar comigo mesmo, argumentando que broncopneumonia não fazia parte da promessa, que era só para pneumonia (sem brônquio), mas acabei cedendo ao bom senso e à vergonha na cara. Pronto, parei!

Não tenho mais medo de ser linchado nas ruas pelas patrulhas antitabaco, pelo simples gesto de acender um isqueiro.

Agora, não fumo, não bebo e não minto. Acho que vou virar crente!

José Luiz Teixeira é jornalista. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou em diversos órgãos de imprensa, entre os quais as rádios Gazeta, Tupi e BBC de Londres, e os jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Folha da Tarde.

Fale com José Luiz Teixeira: jl.teixeira@terra.com.br

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