Mauricio Tagliari
De São Paulo

O meio-campista vascaíno Juninho Pernambucano (Foto: Léo Pinheiro/Terra)
Depois de uma vitória, cheio de moral, Juninho Pernambucano, um dos jogadores brasileiros mais respeitados, por sua seriedade e profissionalismo, dentro e fora de campo, diz: "Eu bebo a minha cerveja, sei o momento de fazer e não me incomodo em falar. É isso o que falta no Brasil, saber a hora da festa. Mais da metade do time do Lyon fumava e os caras corriam para caramba. Na Europa se fuma e se bebe muito mais que no Brasil, mas os caras são muito disciplinados. Falei de cerveja, mas gosto muito mais de vinho. Depois do jogo eu não consigo dormir. Não vejo nada demais em tomar três ou quatro cervejas pequenas. Lógico que eu não vou tomar dez, porque isto me prejudica no dia seguinte. Eu sei o meu limite. Talvez, quando eu parar (de jogar), eu não saiba mais. Mas aí também não haverá problema. Sei que é gostoso beber um vinho, uma cerveja, curtir os amigos, estar ali numa roda". A mídia repercutiu e o tom foi: "Juninho admite que gosta de vinho".
Ora, do alto de seus 36 anos, o meia do Vasco, "ene" vezes campeão francês e liderando um esquadrão cruzmaltino como há tempos não se via, em ótima condição física, é um antípoda de Ronaldo Fenômeno ou de Adriano Imperador no quesito educação etílica, estes dois últimos com problemas de peso e volta e meia fotografados com o copo de cerveja na balada. A mídia não tem como dar lição de moral no craque do Vasco.
Educado, Juninho toca na ferida que havíamos mencionado nesta coluna duas semanas atrás (leia aqui Vitão e os biodinâmicos contra os SUV e as bebidas transnacionais ). O problema não é o álcool em si, mas o uso que se faz dele. No caso de Juninho, a bebida serve para relaxar, é como um santo remédio no pós-jogo. Vários jogadores e técnicos, como Muricy Ramalho, por exemplo, mencionam como um problema a adrenalina surgida após a partida. Que médico indicaria, nestes casos, um diazepínico no lugar de um ou dois copos de vinho?
Mas não somente nesta situações se bebe no esporte. Não sei hoje, mas até pouco tempo atrás os times alemães e mesmo sua poderosa seleção não davam vez aos isotônicos comerciais, privilegiando sua deliciosa cerveja na hora de reidratar durante os treinos e até no intervalo dos jogos. Conhecidos que correram a maratona de Berlim confirmam o civilizado hábito de hidratação zitológica.
A oportuna declaração do jogador vascaíno me traz a chance de mais uma vez criticar o hábito brasileiro de fazer leis tortas. Serei atacado, como já fui, pelos emails e comentários, principalmente de moralistas e evangélicos. Mas a lei seca como é, sem um programa de educação, torna-se pouco mais que um tormento para os bebedores educados.
Em uma cidade do tamanho de São Paulo, a fiscalização para que a legislação se cumpra é insuficiente. Ela praticamente só acontece no entorno de bairros boêmios de classe média, nas noites de fim de semana. Muito já se escreveu que o nível de tolerência é descabido. Concordar com zero de tolerância é afirmar e reconhecer que nenhum cidadão brasileiro tem discernimento para beber um copo de vinho ou um chope durante uma refeição e parar. Que somos todos adolescentes irresponsáveis. Além disso, é grande fonte de corrupção. Há notícias de policiais comprando seus bafômetros e perpetrando blitz por conta própria com o fim de receber propina. Ao que parece, prática comum no Rio de Janeiro.
Não defendo o fim da lei, nem faria sentido uma coisa dessas. Mas enquanto se proibir que a propaganda mostre o consumo da bebida e valorize seu sabor, e permita apenas enfatizar o comportamento alegre de quem bebe, e enquanto as tevês a cabo passarem propaganda de destilados no meio da tarde, nos intervalos de jogos e programas infantis, enquanto não se valorizarem os produtores artesanais de cerveja, os importadores de produtos fermentados premium, seja vinho ou cerveja de grande qualidade, eu não acredito na eficácia da lei.
Se fossem retirados os impostos sobre o vinho, considerado até pela FAO (órgão da ONU que cuida da alimentação) como alimento, assim como dos produtores de cervejas premium e artesanais, aqueles que produzem em um limite muitíssimo abaixo dos gigantes do setor, talvez seu consumo fosse incentivado e substituísse o irrefreado hábito de beber quantidade no lugar de qualidade.
Quem aprende a beber prefere um copo de uma grande cerveja do que dez de uma das insossas comerciais. Um cálice de um grande vinho satisfaz mais do que uma garrafa de um ordinário. Isto não é elitismo, e sim estímulo à educação e à sensibilidade. Juninho Pernambucano morou anos em Lyon. Tenho certeza que aprendeu a beber e a saborear os maravilhosos vinhos da região, rompendo com o estigma de pouco refinamento dos boleiros. Já mencionei aqui os elogios que os brasileiros do Milan receberam do prestigiado produtor Maurizio Zanella, do Ca' del Bosco.
Uma lei mais adequada, mais educação. Bons salários aos professores. Precisamos disso para que o consumo de álcool não seja um alvo eterno de moralistas e corruptos. Claro que melhores transportes públicos são bem-vindos também. Beba com moderação. E, se beber, do que jeito que as coisas são por aqui, o melhor é não dirigir.
E para não dizer que não bebi nada de interessante e esta é a razão do texto iracundo acima, aqui vai uma dica quente:
Alfa Centauri Sauvignon Blanc 2008. Um vinho da O. Fournier trazido pela Vinci. 100% sauvignon blanc, 13,5% de álcool, passa 12 meses em barricas novas de carvalho francês de 500 litros. Segundo Stephen Tanzer, é o melhor branco do Chile. Aromas complexos e delicados de frutas brancas. Na boca é leve, cremoso e com ótima acidez natural. Elegante, equilibrado e de ótimo corpo. Diria que é um branco de alta classe. O detalhe é que a Vinci arrematou todas as 900 garrafas. Sorte nossa que podemos degustar esta maravilha de U$59,90.
PS. Na coluna sobre os produtores do Douro e do Tejo (aqui http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5270592-EI13996,00-Vinhos+do+Douro+e+do+Tejo+personalidades+diferentes.html ) devo corrigir uma informação: o Redoma Branco é importado pela Mistral.
» Protecionismo e vinho: uma questão delicada