Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Dioberto "DIO" Souza, um fã da série alemã Perry Rhodan, me chamou a atenção para o fato de ela completa, no dia 8 de setembro deste ano, um cinqüentenário de existência. Em homenagem a esta que é a maior série de ficção científica de todos os tempos, com mais de 2.600 episódios publicados no seu país de origem (marca atingida em junho deste ano), ao longo da próxima semana o leitor desta coluna poderá encontrar aqui vários artigos a respeito dela e desta data tão extraordinária para um produto literário popular.
Criada portanto em fins de 1961 pela dupla de veteranos autores alemães, K. H. Scheer (1928-1991) e Clark Darlton (pseudônimo de Walter Ernsting; 1920-2005), foi concebida para ter apenas 30 episódios, desenvolvidos como romances curtos. Fez sucesso e não parou mais. Seu próprio gigantismo acaba por mantê-la em circulação, conquistando gerações de leitores. No Brasil, chegou em 1968 com os dois primeiros episódios reunidos no livro Operação Astral (publicado na coleção Galáxia 2000), e como série propriamente, em 1975, pela Ediouro, do Rio de Janeiro. Depois de interrupções e recomeços, passou a ser publicada pela SSPG, de Belo Horizonte, e passa agora por nova interrupção. Seus editores anseiam por retomá-la eventualmente.
Na década de 1960 o conhecimento do universo era um, e o de hoje é outro, muito ampliado atualmente, em especial pela atividade dos telescópios orbitais como o Hubble e o Spitzer. Não surpreende, portanto, que a série tenha cometido muitos enganos - alguns propositais, para enriquecer a trama ou homenagear uma ficção científica pulp dos "idos de antigamente". É o caso de uma fiada de episódios ambientados em um planeta Vênus selvático, na linha de um Pirate of Venus (1935), de Edgar Rice Burroughs.
A série errou, porém, quando um de seus autores afirmou que planetas anelados como Saturno seriam muito raros na galáxia. Logo na década de 1980 sondas planetárias fotografaram anéis em Júpiter, Urano e Netuno, e hoje uma astrônoma brasileira Pryscilla Maria Pires dos Santos, da UNESP, estuda a possibilidade do planeta anão Plutão também ter anéis. Já no episódio 32, Vôo para o Infinito, Ernsting leva o leitor a uma jornada aos confins da Via Láctea. Perry Rhodan, o herói da série, é abduzido por uma inteligência coletiva que controla o tempo e o espaço e é conhecida por Ele ou Aquilo. Rhodan e seus companheiros já haviam sido presenteados por Aquilo com a imortalidade relativa através da "ducha celular" - que, supõe-se, aparece na capa de Vôo para o Infinito, na arte do americano Gray Morrow. Nessa história, porém, Rhodan é levado, duzentos mil anos no passado, até o planeta Barcon II, origem dos ancestrais da espécie alienígena que abriu as portas do espaço interestelar para a humanidade, os arcônidas.
Barcon é um planeta que se desgarrou da Via Láctea e, junto com o seu sol, foi arremessado para o abismo do espaço intergaláctico. Seu povo criou um gigantesco projeto de engenharia planetária para levá-lo de volta à ilha cósmica que é a nossa galáxia. Enquanto o seu povo hiberna profundamente em instalações subterrâneas, gigantescos propulsores transformarão Barcon em uma nave espacial, afastando-a do seu sol, de volta à Via Láctea.
Quando li essa história, provavelmente em algum momento de 1976 ou 1977, o conceito me pareceu espantoso, e a imagem da existência de um povo à margem de uma galáxia povoada por incontáveis inteligências, profundamente trágica. "Já compreendeu por que os barcônidas querem afastar seu planeta do sol a que pertence?", Aquilo pergunta a Rhodan. "Compreendeu por que a solidão infinita desse mundo quase os leva à loucura? Sempre que contemplam o céu à noite, não vêem outra coisa senão galáxias distantes, que a seus olhos devem ser um símbolo de uma convivência amistosa, e realmente são. Naquele lugar, pensam eles, os mundos habitados estão tão próximos um do outro que entre eles existe um contato ininterrupto. Acontece que eles, os barcônidas, enfrentam a solidão, uma solidão eterna e infinita."
Em maio deste ano, a agência espacial americana, NASA, divulgou que foi descoberta uma nova classe de planetas, do tipo gigante gasoso, que flutua livremente pelo espaço entre as estrelas, desgarrados do sóis em torno dos quais, supõe-se, foram formados milhões ou bilhões de anos atrás.

(Reprodução)
"A descoberta se baseia em uma pesquisa conjunta de Japão e Nova Zelandia que escaneou o centro da Via Láctea durante 2006 e 2007", informa o site da NASA em http://science.nasa.gov/science-news/science-at-nasa/2011/18may_orphanplanets, "revelando evidência de até dez planetas que flutuam livremente e tem mais ou menos a massa de Júpiter." São planetas que estão a uma distância média de dez mil a vinte mil anos-luz do nosso sistema solar.
"Isto poderia ser apenas a ponta do iceberg", o site alerta. Os cientistas estimam que haveria duas vezes mais planetas dessa classe na galáxia, do que estrelas. Seria tão comuns quanto planetas bem estabelecidos em órbita de estrelas. "Isso somaria centenas de bilhões de planetas solitários apenas na nossa Via Láctea."
Essa pesquisa, liderada pelo cientista japonês Takahiro Sumi da Universidade de Osaka, não tem instrumentos sensíveis o bastante para detectar planetas semelhantes à Terra, mas há suposição de que mundos como o nosso poderiam ser ejetados de suas órbitas estelares faz parte dos modelos teóricos dos astrônomos. Uma situação semelhante faz parte da intriga do premiado (Nebula 2005) romance de Jack McDevitt, Seeker, em que um planeta habitável é lançado para fora de sua órbita pela passagem de uma estrela, e se torna o satélite troiano de um gigante gasoso.
Mas me parece que Walter Ernsting, em Vôo para o Infinito, realizou primeiro a sugestão trágica de uma civilização isolada, com o seu próprio mundo, dos seus pares.
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