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Sexta, 26 de agosto de 2011, 08h12 Atualizada às 12h37

Mino Carta: "A arte virou uma questão de marketing"

Bob Fernandes

Terra Magazine - ...Você sabe, Mino, que por toda sua trajetória, da forma como ela foi feita, da forma como você é, como pessoa, como jornalista... Você sabe que sempre vai encontrar mais dificuldades... Seja em relação a seus quadros, seja em relação a seus livros. Você sabe disso, não sabe? Ou tem alguma ilusão?
Mino Carta - Nenhuma. Acho que faz parte. Mas não sou um cara que entrega a rapadura.

Mas você tem consciência disso, não tem?
Tenho.

Você tem amigos, mas sabe também que em grande parte, no seu caminho, estão, estarão a fuzilaria ou o silêncio...
Mas aí que está. O silêncio é uma coisa...

...o famoso "estrondoso silêncio"...
Isso é uma coisa... No Brasil, sabe, é uma coisa inevitável. É próprio da mentalidade de uma minoria. É Idade Média, né? Isso não é coisa moderna, ao contrário do que se pode supor. É uma coisa terrivelmente antiga. A Idade Média porque é este período tão nebuloso, embora depois os exegetas, historiadores, enfim, gente importante descobre que não foi tão ruim assim, a Idade Média; houve cabeças magníficas na Idade Média. "A Idade Média era só trevas e tal". Não é verdade, não foi só isso. Por que parece ter sido só isso? Porque era o silêncio. Era como hoje no Brasil. O Brasil é um país que estranhamente vive dois tempos ao mesmo tempo. Um é a Idade Média. Depois, o outro, que tem os computadores, que tem gente que...

...ou você joga o jogo como querem que você jogue, ou se aceita o jogo como querem que seja aceito, ou tome-lhe silêncio... Mais até do que a fuzilaria...
Isso aí é um clássico.

Você tem consciência disso?
Total. Total. Mas o silêncio não significa o fracasso.

Claro que não. Muitas vezes, é uma condecoração...
Você veja, às vezes não funciona. Eu lancei dois livros. Um foi muito bem editado, com grande badalação e tal. Foi um sucesso.

"O Castelo de Âmbar"...
É. "O Castelo de Âmbar" vendeu mais ou menos vinte mil exemplares. Até hoje, recebo um dinheirinho do "Castelo de Âmbar". Vinte mil exemplares no Brasil é um ótimo resultado. O outro foi entregue a uma editora que já estava falida e que faliu de vez. Não existe na praça.

Que é o...
"A Sombra do Silêncio". Se esse livro ("O Brasil") tiver algum resultado, eu vou recuperar "A Sombra do Silêncio" e entregar ao mesmo editor e republicar. Porque aquilo caiu na mão de uma editora falida. Eles entraram em órbita. Normalmente, os falidos pagam suas dívidas. No Brasil, tem mais essa. Os caras sumiram, desapareceram. Hoje são ectoplasmas, talvez.

E o jornalismo? Como estamos?
No fundo, a mesma coisa. Quer dizer, você, dentro das possibilidades, faz uma publicação como a "Carta Capital", que você tão bem conhece, e conta com a perseguição geral. Precisa de muito dinheiro. Se você tem dinheiro, vai tudo bem. Quem sabe a gente consiga algum.

Você deu um pulo no "mundo virtual", na internet. Fez um blog e tal...
Fiz e retirei.

Não teve saco para...
Não, não tenho. Eu sou um velho. Ou o cara se apresenta: "Olha, estou aqui, quer travar um duelo direto e tal, de espada?", ou...

...ou, com anônimos, muitas vezes fascistóides escondidos atrás das moitas, foi difícil?
Aí, é difícil.

Mas essa é uma das características do meio. A internet tem, por outro lado, muitas coisas muito legais.... Se tem, pra começar, uma capacidade infindável de incluir quem jamais entraria...
Eu não excluo o instrumento, que é magnífico. Como a televisão. Depende de como você a usa. Estou falando de um instrumento para um velho a esta altura.

Você gosta do duelo cara a cara? O cara atrás da moita, anônimo, lhe incomoda e você não tem como debater... Você não sabe com quem está debatendo... Aí é mais complicado, é isso?
É isso.

É uma coisa cultural... Outro dia o Gilberto Gil disse, num debate muito interessante do youPIX no Ibirapuera: "A gente continua fazendo disco porque é um tributo estético". O disco, aquilo das 12, 14 músicas, não tem mais sentido. As pessoas podem baixar todas as músicas que quiserem. Você pode botar duzentas, trezentas, cinco, dez mil, então o disco como o conhecemos é, hoje, só um tributo estético. Mal comparando, é a mesma coisa. A estética lhe incomoda... Você ali, contra 50 escondidos atrás da moita...
No fundo, no fundo, no fundo, hoje em dia, é mais difícil ser pintor do que ser escritor. Ainda. É um aspecto da questão...

...a coisa das imagens, da multiplicidade, quantidade, transformação, isso da velocidade e mobilidade de um tempo de imagens e mais imagens "congela" a pintura como expressão?
Só que acho que... Na Europa, onde as ideias ainda...

...o "slow" não é, não seria apenas para o "food" em outras paragens?
Isso, isso. Você veja, na Europa, acaba de sair na França um livro do Jean Clair, que é o maior crítico de arte, que está baixando a lenha. Está dizendo que esses caras que hoje vendem seus quadros a cifras absurdas...

Falta suor...
Não, não é que falta suor. Eles são os assassinos da arte. Deveriam se dedicar apenas ao marketing. A arte virou uma questão de marketing.

Quase tudo...
Agora, eu digo... Eu, de minha parte, digo: (Marcel) Duchamp fez tudo nessa área. Tirando um sarro esplêndido. Ele fez tudo, tudo. Mas quando? Há 70, 80 anos. Entende? Acabou. Não adianta você pegar um tubarão, colocar numa caixa de vidro, encher a caixa de formol e botar o tubarão lá dentro e vender a 15 milhões de dólares. Isso é (Damien) Hirst. É uma quantidade incrível de mistificadores, de bobões.

Não ficarão?
Claro que não vão ficar. Matisse ficará.

...comparando...Michael Rogers, futurista do New York Times, fez uma palestra no MediaOn e terminou dizendo o seguinte: "Mas no final, com tudo isso, serão necessários bons jornalistas para organizar toda essa massa de informações...". Todo mundo, felizmente, pode fazer tudo, publicar tudo, agora, em certos espaços as pessoas querem... Algo terá que ser organizado...
Não tenho dúvida. Uma coisa que me marcou muito foi a leitura de um ensaio da Hannah Arendt, "Entre o passado e o futuro", e eu aconselho a leitura a qualquer jornalista, e é extraordinário esse ensaio. É primoroso. Tem ali algumas coisas que são definitivas. A frase mais importante, central é: "Não há esperança de sobrevivência humana sem homens dispostos a dizer o que acontece, e que acontece porque é?". Naturalmente, há pessoas que não entenderam este "porque é". Porque é porque está fixado na grande moldura do tempo e do espaço. Não há esperança de sobrevivência humana. Isso se aplica ao jornalismo. E é fundamental.

Onde é que você acha que acertou muito bem acertado no jornalismo e onde é que você errou muito bem errado no jornalismo?
Olha, não posso falar de Quatro Rodas porque desde os 26 anos sou diretor de redações, então, é uma situação muito cômoda e, certamente, precipitada por muita sorte. No meu modo de ver as coisas.

Você crê na sorte, no destino?
Não, não é isso. Acho que existem as circunstâncias do acaso, que você pode chamar de sorte...

...mas você tem que bater na porta certa, na hora certa.
...é isso. Exatamente. Não tenho dúvida que tive esse tipo de sorte. Então, não posso falar de Quatro Rodas. O Jornal da Tarde foi uma empreitada muito interessante e devo dizer que a família Mesquita me deu uma autonomia total em termos formais, em termos estéticos, mas nenhuma em termos políticos, ideológicos, obviamente.

Nos idos dos 60...
Bom, o jornal foi lançado em janeiro de 1966.

A Quatro Rodas em 64, 63?
Quatro Rodas é 60. Jornal da Tarde é de 66 e a Veja de 68. Na Veja tive autonomia imposta por mim. Quando os Civita me procuraram eu disse: "Tudo bem, mas vocês não metem o bedelho na pauta. Vocês podem me dizer o que gostariam que se fizesse, mas a posteriori. Podemos conversar, considerar o que foi feito e o que faltou fazer, na opinião de vocês, ouvirei e verei, mas isso só depois". Isso criou uma autonomia total, que foi desfeita, nas condições que você conhece, no começo de 76. Aí, nasceu a IstoÉ. Foi um grande sucesso. Não como mensal, foi como semanal. Uma revista toda em branco e preto. Só tinha cor na capa e nos anúncios. Arrojada e tal.

E o grande erro?
Grande erro, sem dúvida, foi o Jornal da República. Não considero um fracasso do ponto de vista jornalístico. Pelo contrário. Se o Brasil tivesse tido gente capaz de entender que aquilo... podia ser um jornal realmente viável, um jornal que já mirava em certas situações que depois aconteceram. Teria sido algo bom, mas não havia...

Foi um grande fracasso empresarial, comercial...
Empresarial, comercial e, como direi, de alguma forma intelectual, porque eu não fui capaz de entender aquele Brasil...

Não entendeu o tempo e a coisa toda...
É. Exatamente. Não era o momento. Pisei numa plantação de tomates. Depois, veio a Senhor, tudo bem, foi dentro das possibilidades, era o que convinha. Sempre fui muito pragmático no meu jornalismo. Acho que IstoÉ/ Senhor, que depois voltou a ser IstoÉ continuou, no fundo, uma tradição.

Senhor é de quando?
De 82. Em 88, a IstoÉ/Senhor, que em 89 volta a ser simplesmente IstoÉ. Acho que, como fórmula, a melhor é a Carta Capital. Agora, é sempre jornalismo contra a corrente, num País onde vigora o pensamento único em matéria de mídia. A mídia é totalmente do pensamento único.

A mídia hoje não é uma só, Mino... A mídia hoje tem um espaço monumental... tem a Internet, portais tem sete, oito, milhões de visitantes únicos a cada dia...
É... A internet pode ser uma pedra no sapato... É a grande novidade...

Nas últimas eleições, por exemplo, foi decisivo vazadouro quando o cerco se fechava...
Lógico, lógico... É uma novidade muito importante. Mas, você sabe, eu não sou desse tempo.

Você tem dificuldade de compreender a extensão do que é, do que significa, por exemplo, um portal que tem sete, oito milhões de acessos únicos por dia?
Não, ao contrário. Entendo perfeitamente. A revista Carta Capital, ou melhor, a Editora Confiança, ainda produzirá um site decente. Está a caminho disso, de certa forma. Estamos um pouco no alvorecer. É um alvorecer tímido, mas eu acho que chego lá também. E eu acho que o destino dessas coisas também dá dinheiro.

A tela.... Tudo estará numa tela, numa telinha ou telona daqui a pouco, aliás já está. Como temos no papel, tudo estará numa tela...
E também no papel para certas coisas.

Para certas porções da população, por enquanto...
Por isso que acho que a Carta Capital é uma revista que, de alguma forma, se antecipou a essa situação nova. Nova e muito importante. Terrivelmente interessante. Situação respeitabilíssima de todos os pontos de vista.

Qual situação?
A situação da internet, do virtual. Esse mundo virtual é na realidade uma realidade fortíssima.

Mino. Qual é, segundo seu olhar, a sua grande qualidade? Seja como pessoa, seja como profissional?
Acho que é a incorruptibilidade, não ceder nunca diante do poder. Devo dizer, com toda sinceridade, que o poder não me amedronta. No fundo, no fundo, acho que não tenho medos...

Você sabe que, vira e mexe, dizem: "Ah, porque a Carta Capital recebe dinheiro de publicidade do governo". Sou obrigado a dizer, porque sei, que quem fala isso se esquece de dizer que, durante oito anos, a Carta Capital, sob silêncio quase geral, não tinha anúncio nenhum do governo federal. Fora uma ou duas páginas, eventuais e logo "cassadas", era uma pobreza franciscana. Pergunto: o que tem agora é proporcional ao número de leitores que tem, como qualquer outra?
O que nós, no fundo, ainda não convencemos... Se a questão é, digamos assim, publicidade governista, essa situação, de alguma forma, está resolvida porque contamos com a isonomia. Agora, o que ainda não convencemos são os publicitários antigos.

Mais aí entra o tal BV, a bonificação por volume, entra todo aquele...
É, sei... Mas os publicitários nativos têm, como escrevo no editorial desta semana, a convicção de que tamanho é documento. Se a The Economist fosse publicada no Brasil estava perdida. Coitadinha. Não que nós tenhamos o porte da The Economist. Absolutamente. Mas eu quero dizer... Há revistas que atingem um público especial que, no frigir dos ovos, é o público que mais interessa. Não adianta muito você atingir os consumidores de Kolynos.

Mas há quem se interesse pelos consumidores de Kolynos...
Claro, mais que perfeito. Mas você não vai vender para eles máquinas monumentais ou última palavra em computadores.

Você vai vender Kolynos.
Vai vender Kolynos.

Ainda nessa simbiose pessoa/profissional. Qual é o seu grande defeito? Ou, onde é que você errou, pisou e repisou mais no erro ao longo da vida?
Meu defeito maior nasce do meu temperamento. Assim como do meu temperamento nasce a qualidade, do meu temperamento nasce também o defeito. Eu sou uma pessoa que não guarda rancor. Tem algumas pessoas que...

Você mataria várias vezes (risos).
Não sei se eu mataria, mas esbofetearia com enorme prazer. Mas, de um modo geral, não guardo rancor. Sou uma pessoa que depois retoma o rumo com absoluta tranquilidade...

...sim, mas você não falou do defeito...
...sou um sujeito impulsivo. Na mesma hora, eu perco as estribeiras. Este "perder as estribeiras" sempre foi uma coisa que me atormentou sobremaneira, porque depois eu sei que perdi as estribeiras e me lamento por isso.

Sabe que foi muito além do jardim e tal e criou problemas pra si mesmo....
Não, é o remorso, que é uma coisa terrível.

Mas na vida prática, pragmática, isso cria problemas...
Sem dúvida. É problema na vida prática. Exatamente. Eu sou um sujeito de caráter, eu te diria. Essa é minha qualidade. Agora, de temperamento discutível.

Você sabe, certamente, conhece o temperamento atribuído a Francis Bacon, o transitar de um lado para o outro com alguma rapidez...
Mas eu não sou exatamente um ciclotímico.

Não, não é um ciclotímico...
O meu normal é um certo bom humor... Agora, me emputeço com uma facilidade exagerada. Não sei me controlar. Isso é uma coisa horrível.

But, "La nave va"...
La nave va. O que fazer? Olha, eu li um poema lindo, de um persa, antes de Cristo, que diz o seguinte: "Deus é um oceano. E nós somos as ondas. Os peixes nadam no mar, no coração desse oceano, mas jamais se perguntaram o que é o mar. A onda não deveria se perguntar quem é o oceano. Temos que nos entregar ao oceano."

E a burrice...?
....a burrice é um fenômeno de uma grandiosidade...

...avassaladora...
Chama a atenção, e nasce, também, muito da ignorância. Vivemos em um país extremamente ignorante; isso não como ofensa, mas como fato, no sentido de ignorar, não saber...

...e, também, de certa gente que se supõe...
...se leva a sério. Agora, é o seguinte, ao meu ver: honestamente, eu digo essas coisas porque acredito nelas: o Brasil é imbatível na sua pujança, na sua vitalidade.

Na sua força vital...
Isso, é imbatível. Deveria ser o primeiro país do mundo. Agora, a elite brasileira, quem, digamos, se chama de elite, se entende como elite, se olha como elite, é a pior do mundo.

Mas isso não terminará sendo amalgamado pelos eventos sociais, pelo correr do tempo, da história?
Certamente, será. Mas quando? Eu não vou assistir a esse momento de glória.

...mas imagina ser possível...
Totalmente... Possível, não, é inevitável, acho. A não ser que haja um cataclisma, que caia um meteorito.

A Europa tem os problemas que tem hoje e por mais alguns anos, os Estados Unidos têm hoje os problemas que têm... A China tem 1 bilhão e 300 mil bocas, mais de 60% das terras áridas, terrível poluição das águas, centenas de milhões de pobres e miseráveis ainda para ascender, e 12 inimigos históricos em 24 vizinhos...
...e não é só isso. Tem as temperaturas geladas...

...o vento e a areia zunindo desde o deserto de Gobi...
Situações que o Brasil não tem.

Você sabe que é rotulado como um "pessimista". O que você está dizendo é exatamente o contrário...
O contrário, não. Isso é inevitável... Acho que o Brasil será um grande país. Para mim, é, será o primeiro país do mundo, não tem nenhum que se compare. Não há um. Por mais que você se esforce, não vai encontrar nada similar. Em termos de privilégio da natureza. A natureza criou aqui uma situação exemplar.

Tem algo que foi terrível na sua formação, que ainda tem consequências, mas...
...mas que eu acho que ainda está muito presente e é isso que cria... a "Idade Média", é a herança da Casa Grande e da Senzala. Esse país teve três séculos de escravidão.

Três séculos e meio...
...e meio. Esse é o maior problema do país até hoje. Temos um povo inerte, que não tem a consciência da cidadania. Ainda. Então, não tem condições de exercer pressão. Por que a eleição de Lula é uma coisa tão extraordinária, ao meu ver? É porque, pela primeira vez, aparece um igual a eles que vai para a presidência. Isso é magnífico, extraordinário. Ele não foi o que eu teria gostado que fosse.

Ah, quanto a essa sua frase, dirão: "Ah, ele é petista!!!".
Lula não fez o que poderia ter feito. Poderia ter feito muito mais. Fez algumas coisas, indiscutivelmente, mas fez 20% do que poderia ter feito. Mas isso já é um assombro para o Brasil e para certa malta que "se acha", como dizem meus netos. Eles se acham...

Confira a primeira parte da entrevista:
»Mino Carta: "Lula fez 20% do que poderia, mas já é um assombro"
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"Temos um povo inerte, que não tem a consciência da cidadania", diz Mino Carta

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