Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › José Luiz Teixeira

Sábado, 27 de agosto de 2011, 07h34

Fi-lo porque qui-lo

José Luiz Teixeira
De São Paulo


Muitas das frases e expressões atribuídas a Jânio talvez não tenham sido pronunciadas por ele, mas acabaram sendo repetidas como de sua autoria, diz jornalista(Foto: Reprodução)

Faz 50 anos que Jânio Quadros renunciou à Presidência da República, tentando uma frustrada espécie de golpe para retornar ao Palácio do Planalto com mais poder para dominar o Congresso Nacional. Nessa época, ainda não haviam inventado um modo bem mais simples de controlar o Parlamento, usado décadas depois pelo ex-presidente Lula, ou seja, o Mensalão.

Mas o assunto aqui não é Lula, e, sim, Jânio, a quem conheci pessoalmente, por dever de ofício, quando ele retornou à vida pública, no início da década de 80.

Eleito prefeito de São Paulo em 1985, ele comprovou a máxima de Karl Marx de que a História se repete como farsa.

Em vez do líder que arrebatava massas com seus inflamados discursos, imagem que eu tinha pelas narrativas históricas, o que vi nesta segunda empreitada foi um político mais para o histriônico do que para o estadista.

Gostava, porém, de suas divertidas frases de efeito, que geralmente rendiam bons títulos de matérias nos jornais.

Muitas dessas frases e expressões talvez não tenham sido pronunciadas por Jânio Quadros, mas acabaram sendo repetidas como de sua autoria. Ornavam com sua personalidade.

Ele jurava, por exemplo, que nunca havia se referido a "forças ocultas", na época da renúncia, mas a "forças misteriosas"; entretanto, ninguém se importava com sua negativa e continuava creditando a ele a primeira expressão.

Outro caso ocorreu quando era candidato à Prefeitura de São Paulo, e uma prima distante, Luciane Quadros, posou nua para a revista Playboy.

Pessoas ligadas a seu partido, o PTB, ficaram preocupados com a possibilidade de o fato respingar em sua imagem e tirar votos de sua candidatura.

Ele, porém, não se abalou. Quando os repórteres perguntaram sobre o assunto, manteve a esportiva: - Pena que o tio Juracy (pai da moça) não tenha me apresentado uma beldade dessas quando eu era jovem - lamentou, sorrindo.

Isso é o que disse e o que foi publicado. O que corria à boca pequena, entretanto, é que nos bastidores o ex-presidente teria feito um jocoso trocadilho sobre a sensual priminha:

- Se pudesse, comê-la-ia; como não posso, como Eloá...

Obviamente era uma piada maldosa, grosseira, envolvendo o nome de sua resignada esposa; mas havia correligionário que jurava ter ouvido isso da boca de seu líder. Não acredito.

A mania de falar o Português correto ajudava as pessoas a criar folclóricas frases que se encaixavam perfeitamente em seu estilo.

O "filo porque qui-lo" é mais uma declaração que jamais proferiu, assim como a maldosa explicação que, segundo seus adversários, ele dava quando perguntado a respeito de sua famosa admiração pela bebida:

- Bebo porque é líquido; fosse sólido, comê-lo-ia.

José Luiz Teixeira é jornalista. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou em diversos órgãos de imprensa, entre os quais as rádios Gazeta, Tupi e BBC de Londres, e os jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Folha da Tarde.

Fale com José Luiz Teixeira: jl.teixeira@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol