José Luiz Teixeira
De São Paulo
Muitas das frases e expressões atribuídas a Jânio talvez não tenham sido pronunciadas por ele, mas acabaram sendo repetidas como de sua autoria, diz jornalista(Foto: Reprodução)
Faz 50 anos que Jânio Quadros renunciou à Presidência da República, tentando uma frustrada espécie de golpe para retornar ao Palácio do Planalto com mais poder para dominar o Congresso Nacional. Nessa época, ainda não haviam inventado um modo bem mais simples de controlar o Parlamento, usado décadas depois pelo ex-presidente Lula, ou seja, o Mensalão.
Mas o assunto aqui não é Lula, e, sim, Jânio, a quem conheci pessoalmente, por dever de ofício, quando ele retornou à vida pública, no início da década de 80.
Eleito prefeito de São Paulo em 1985, ele comprovou a máxima de Karl Marx de que a História se repete como farsa.
Em vez do líder que arrebatava massas com seus inflamados discursos, imagem que eu tinha pelas narrativas históricas, o que vi nesta segunda empreitada foi um político mais para o histriônico do que para o estadista.
Gostava, porém, de suas divertidas frases de efeito, que geralmente rendiam bons títulos de matérias nos jornais.
Muitas dessas frases e expressões talvez não tenham sido pronunciadas por Jânio Quadros, mas acabaram sendo repetidas como de sua autoria. Ornavam com sua personalidade.
Ele jurava, por exemplo, que nunca havia se referido a "forças ocultas", na época da renúncia, mas a "forças misteriosas"; entretanto, ninguém se importava com sua negativa e continuava creditando a ele a primeira expressão.
Outro caso ocorreu quando era candidato à Prefeitura de São Paulo, e uma prima distante, Luciane Quadros, posou nua para a revista Playboy.
Pessoas ligadas a seu partido, o PTB, ficaram preocupados com a possibilidade de o fato respingar em sua imagem e tirar votos de sua candidatura.
Ele, porém, não se abalou. Quando os repórteres perguntaram sobre o assunto, manteve a esportiva: - Pena que o tio Juracy (pai da moça) não tenha me apresentado uma beldade dessas quando eu era jovem - lamentou, sorrindo.
Isso é o que disse e o que foi publicado. O que corria à boca pequena, entretanto, é que nos bastidores o ex-presidente teria feito um jocoso trocadilho sobre a sensual priminha:
- Se pudesse, comê-la-ia; como não posso, como Eloá...
Obviamente era uma piada maldosa, grosseira, envolvendo o nome de sua resignada esposa; mas havia correligionário que jurava ter ouvido isso da boca de seu líder. Não acredito.
A mania de falar o Português correto ajudava as pessoas a criar folclóricas frases que se encaixavam perfeitamente em seu estilo.
O "filo porque qui-lo" é mais uma declaração que jamais proferiu, assim como a maldosa explicação que, segundo seus adversários, ele dava quando perguntado a respeito de sua famosa admiração pela bebida:
- Bebo porque é líquido; fosse sólido, comê-lo-ia.
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