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Sábado, 27 de agosto de 2011, 08h21

Perry Rhodan 50 anos: Space Opera

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Dioberto "DIO" Souza, um fã da série alemã Perry Rhodan, me chamou a atenção para o fato de ela completa, no dia 8 de setembro deste ano, um cinqüentenário de existência. Em homenagem a esta que é a maior série de ficção científica de todos os tempos, com mais de 2.600 episódios publicados no seu país de origem (marca atingida em junho deste ano), ao longo das próximas semanas o leitor desta coluna poderá encontrar aqui vários artigos a respeito dela e desta data tão extraordinária para um produto literário popular.

Atualmente, fala-se muito no subgênero da ficção científica conhecido como space opera, em grande parte por conta da militância do escritor Hugo Vera, que este ano lançou pela Editora Draco a antologia Space Opera: Odisséias Fantásticas na Fronteira Final, a primeira dentro do subgênero. Traz histórias de Vera, Gerson Lodi-Ribeiro, Clinton Davisson, Maria Helena Bandeira, Jorge Luiz Calife, Letícia Velásquez, Marcelo Jacinto Ribeiro, Flavio Medeiros Jr. e Larissa Caruso.

É bom lembrar, porém, que durante muitos anos, incluindo boa parte das décadas de 1970 e 80, Perry Rhodan, vendido em bancas e por reembolso postal, foi a space opera de maior circulação no Brasil.

Sobre as origens da expressão space opera, do mesmo modo como existia um tipo de FC antes do gênero ser conhecido como "ficção científica", a space opera também existia antes de ser assim designada. A expressão que se aplicava às histórias de E. E. "Doc" Smith e de seus seguidores a partir de 1928 com o lançamento da série Skylark, o primeiro marco da space opera, era "histórias de super-ciência" - em referência à escala e à distância do tipo de tecnologia vista nessas histórias, em relação à tecnologia contemporânea e aos limites do conhecimento científico do momento em que foram escritas. A expressão entrou inclusive no título da revista Super Science Stories (1940 a 1943, depois de 1949 a 1951).

A expressão "space opera" foi criada num fanzine por Wilson Tucker em 1941, e tem a sua própria história, segundo The Encyclopedia of Science Fiction (1993): "Quando o rádio era o principal meio de entretenimento doméstico nos EUA, seriados... destinados às donas-de-casa eram freqüentemente patrocinados por empresas de sabão-em-pó; esses seriados foram então apelidados de "soap operas" ou "operas de sabão"." Ainda hoje, as novelas da televisão americana são chamadas de soap operas. Na época, seriados de faroeste também foram chamados, jocosamente, de "horse operas". Tucker lançou "space opera" como um termo que designava o tipo mais vagabundo e desgastado de FC. Esse uso pejorativo se manteve por muito tempo, a ponto do escritor brasileiro André Carneiro ainda sustentar, por influência de Damon Knight em seu livro In Search of Wonder (1956), que space opera não é nada além de FC ruim.

Como às vezes acontece, pode ser que os fãs tenham incorporado a expressão pejorativa, justamente para invertê-la e destituí-la do seu aspecto pejorativo. Space opera virou apenas a designação de um tipo de FC como qualquer outro. Para se apontar uma obra como sendo parte desse subgênero (e "sub" aqui como em subdivisão, e não como algo inferior), pensamos em sua estrutura e em seus efeitos sobre o leitor, e não em sua qualidade.

Muitos historiadores da FC acreditam que Edward Elmer Smith (1890-1965) foi o criador da space opera. Só por isso já teríamos que reconhecer nele um antepassado de K.H. Scheer e Walter Ernsting, os criadores de Perry Rhodan. Isaac Asimov, no livro No Mundo da Ficção Científica (Asimov on Science Fiction, 1981), afirma que, durante a história da FC nas pulp magazines, três novas explodiram, alterando para sempre o que viria a seguir: "E. E. Smith foi a primeira nova", declara Asimov. Com a publicação de The Skylark of Space (1928) em partes na revista Amazing Stories, "Pela primeira vez, numa revista do gênero, o homem foi arrebatado aos confins do espaço interestelar, tendo diante de si todo o Universo. Pela primeira vez, os leitores tiveram o ensejo de visualizar o homem como criatura dotada de uma infinita capacidade..." (As duas outras novas, a propósito, teriam sido, segundo Asimov, Stanley G. Weinbaum e Robert A. Heinlein).

Na série Skylark, um jovem engenheiro americano constrói uma espaçonave e chega com ela, acompanhado de sua noiva e de um amigo, a um planeta povoado por uma espécie humanóide ameaçada por uma outra raça inteligente e despótica - que ele imediatamente passa a exterminar até o último membro da raça.

De Smith, Perry Rhodan deve ter herdado as naves de formato esférico e a corrida tecnológica que sempre imagina uma nova arma, um raio da morte mais poderoso. Felizmente a série alemã deu uma temperada no darwinismo social e na sua discussão do genocídio de Smith - já que o herói criado por Scheer & Ernsting sempre evitava o uso de armas de destruição planetária, um dos elementos vistos com freqüência na space opera. Rhodan também tinha o hábito de transformar os inimigos de hoje nos aliados de amanhã, como aconteceu com a Alemanha ao final da Guerra Mundial, ao se tornar parte da OTAN.

Outra influência foi o escritor canadense A. E. van Vogt (1912-2000), que estreou na FC em 1939, bem no início da Golden Age do gênero, com a novela "Black Destroyer", sobre um predador alienígena de aparência felina, capaz de teleportar-se e de consumir o id de suas vítimas, e que ataca a tripulação de uma nave oriunda da Terra. Apareceu na edição de julho da revista Astounding Science Fiction.

"Black Destroyer" ganhou a ilustração de capa e foi logo reconhecida pelo público como sendo um trabalho especial. Além do fato de termos um alienígena que é um teleportador - uma faculdade "paranormal" freqüentemente vistas nas páginas de Perry Rhodan -, a história fala da ciência do "nexialismo", criada por van Vogt a partir do seu contato com a chamada "Semântica Geral" de Alfred A. Korzybski. Segundo van Vogt, "Nexialismo é a ciência da união, de maneira ordenada, do conhecimento de um campo do aprendizado, com aquele dos outros campos. Ela fornece técnicas para acelerar os processos da absorção do conhecimento e para o uso efetivo do que é aprendido." Enquanto o mundo caminha para a especialização, o nexialismo, a ciência dos nexos, sonha em reunificar os campos do conhecimento, ciência e religião inclusive. Van Vogt expandiu o conceito em Missão Interplanetária (The Voyage of the Space Beagle, 1950), e das páginas da ficção científica, o nexialismo foi adotado pelo Nexial Institute, cuja página na web está em http://www.nexial.org/nexialism.htm .

O nexialismo aparece em Vôo para o Infinito (P32), de Clark Darlton, que discutimos aqui semana passada. Ao conhecer o planeta Bárcon, aparentemente o mundo de origem dos arcônidas, Rhodan é recebido por um grupo de barcônidas que inclui Nex, o criador do nexialismo, e assim reage à sua presença: "'Quer dizer que também no mais solitário dos mundos do universo prevaleceu a idéia de que um saber abrangente traz mais vantagens do que a simples especialização', pensou Rhodan, que conhecia perfeitamente a doutrina do nexialismo." Darlton, portanto, não apenas se apropria da idéia de van Vogt, mas dá a ela uma origem própria.

A carreira de van Vogt prosseguiu com vários contos e com seu primeiro romance, serializado na revista Astounding Science Fiction, o berço da Golden Age da FC americana. O romance se chamou Slan, e foi um grande sucesso. Depois de publicado em partes, foi lançado em um volume pela Arkham House de August Derleth em 1946. Foi o primeiro best seller da editora e o único volume de ficção científica publicado por ela, que se concentrava mais no horror sobrenatural e na fantasia.

Slan conta a história do jovem Jommy Cross, membro de uma raça de mutantes engendrados para ser uma força de elite da humanidade, agora obrigada ao sigilo por causa da inveja dos humanos normais. Um telepata com dois corações e força sobrehumana, assim como inteligência superior, Cross se envolve com o ditador da Terra e com outros slans (como os mutantes são chamados), em uma disputa pelo poder no planeta. Slan provavelmente está presente em Perry Rhodan no seu "Exército de Mutantes", que tem todo um grupo de aventuras no Primeiro Ciclo da Série (volumes 1 a 49).

"Robô positrônico", "cérebro positrônico", "robôs positrônicos-biológicos". Tais expressões aparecem constantemente em Perry Rhodan, mas o seu criador foi o americano de origem russa Isaac Asimov (nasceu na Rússia em 1920 e emigrou para os Estados Unidos com a Família em 1923; faleceu em 1991).

Asimov chamou sua série sobre robôs de "As Crônicas dos Robôs", compreendendo cerca de quatro dezenas de histórias e meia-dúzia de romances. Ele começou a escrevê-las quando tinha apenas 19 anos. Um leitor voraz de ficção científica, Asimov cansara-se de ler nas pulp magazines histórias de robôs malígnos e descontrolados. Pensou em uma alternativa: robôs que fossem apenas máquinas, realizando o potencial de sua programação. Os problemas adviriam das ambiguidades dessa programação, ou dos seres humanos que interagiriam com os robôs. Em "Robbie" (1940), aparece pela primeira vez a expressão "cérebro positrônico". O pósitron é um elétron negativo, realmente existente mas muito raro na natureza, e o cérebro positrônico parece sugerir uma capacidade imensamente superior ao cérebro eletrônico - o nosso computador. Asimov admite que "Isso era só um blablablá, mas representava alguma fonte desconhecida de força que era útil, versátil, rápida e compacta."

O corolário mais importante das Crônicas dos Robôs são as três leis da robótica: "1. Um robô não pode ferir um ser humano, ou, pela inação, permitir que um ser humano seja ferido. 2. Um robô deve obedecer às ordens dadas por a ele por seres humanos, exceto quando tais ordens estejam em conflito com a Primeira Lei. 3. Um robô deve proteger a sua própria existência, enquanto essa proteção não entrar em conflito com a Primeira e a Segunda Leis." As Leis apareceram na história "Runaround", de 1942. Em Perry Rhodan, freqüentemente as Três Leis aparecem citadas - e como "As Leis de Asimov".

A influência de Asimov em Perry Rhodan certamente não se resume a esses empréstimos sobre a robótica. A outra série de Asimov, dentre as mais famosas, é a Série Fundação - uma vastíssima space opera ambientada em um futuro muito distante, em que a humanidade colonizou quase toda a galáxia. A Série Fundação foi primeiro composta de histórias curtas publicadas na revista Astounding Science Fiction e mais tarde montadas como um grande romance. Recentemente, a primeira parte da série foi republicada no Brasil pela Editora Aleph, com Trilogia Fundação.

Perry Rhodan, com o Império de Árcon e mais tarde o Império Solar, e outros, é outro devedor de Asimov, embora a space opera do russo-americano primasse mais pelo conteúdo intelectual de maquinações e movimentos estratégicos, fator que a série alemã equilibrou com muita ação. Tratar da influência destes autores sobre o tom geral da série não é excluir a possível influência de vários outros, de modos específicos. O escritor Gian Danton (nome de um revolucionário francês e também de um personagem de Perry Rhodan) localizou em O Pseudo, escrito por Clark Darlton (Walter Ernsting), a influência do dramaturgo russo Nicolai Gógol. "O livro é uma adaptação da peça O Inspetor Geral" , escreveu em http://www.burburinho.com/20021005.html. "Gógol escreveu sua peça como uma crítica ao autoritarismo e à corrupção do Estado Czarista. Darlton atualizou a discussão, transpondo-a para um cenário futurista."

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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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