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Sábado, 3 de setembro de 2011, 08h04 Atualizada às 14h38

Faxina reativa

José Luiz Teixeira
De São Paulo

Recentemente, ao falar sobre a demissão de ministros, a presidente Dilma foi enfática: não tolerará malfeitos em seu Governo.

Fiquei em dúvida sobre o sentido que ela quis dar à palavra malfeito; se a usou como substantivo ou adjetivo.

Como substantivo, segundo o Houaiss, por exemplo, o verbete significa crime, delito, o que é ruim, má ação.

Como adjetivo, quer dizer algo defeituoso, imperfeito, feito incorretamente e - aí é que está o buzílis - mal executado.

Tenho a impressão de que os ministros e colaboradores vítimas da 'faxina' da presidente se encaixam melhor neste último caso.

Muitos parecem proceder da mesma forma: pegam carona em helicópteros de empresários, contratam empresas de parentes, superfaturam obras...

No entanto, fazem tudo benfeito, ou seja, ninguém descobre suas falcatruas; nenhum repórter enxerido vai atrás de suas amantes, de seus contratos escusos, de seu enriquecimento ilícito.

Mantêm boas relações com correligionários, colegas de governo, dirigentes do partido e nunca são alvo do fogo amigo na luta interna pelo poder.

São os mais espertos, ou mais sortudos; duram um ou dois governos e, ao final do mandato, ainda saem pela porta da frente posando de impolutos.

Porém, se por acaso escorregam, fazem algo com incompetência e são pegos com a boca na botija, estão condenados.

Ainda que estejam arregimentando caixa dois para campanhas eleitorais de seu partido, ou para garantir a governabilidade do presidente, são isolados.

Há uma espécie de acordo tácito na política dos corruptos - salvo as exceções de praxe - de que aqueles que se deixarem pegar caem sozinhos.

O máximo que os companheiros podem fazer por eles é arrumar bons advogados para defendê-los de penas maiores.

Do ostracismo, da solidão, não escapam. São as cabeças entregues a Salomé, são os cristãos jogados ao leões para satisfação da plebe ignara.

Diante dessa reflexão, a faxina da presidente Dilma aparenta ser mais reativa do que pró-ativa.

Assemelha-se muito com a limpeza que faço na geladeira, de vez em quando.

Não tenho o hábito de periodicamente abri-la e ver o que já está vencido para retirar e jogar no lixo.

Ao contrário, só descarto alguns produtos quando percebo que já perderam a data da validade e começam a cheirar mal.

José Luiz Teixeira é jornalista. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou em diversos órgãos de imprensa, entre os quais as rádios Gazeta, Tupi e BBC de Londres, e os jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Folha da Tarde.

Fale com José Luiz Teixeira: jl.teixeira@terra.com.br

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