Atualizada às 14h38 José Luiz Teixeira
De São Paulo
Recentemente, ao falar sobre a demissão de ministros, a presidente Dilma foi enfática: não tolerará malfeitos em seu Governo.
Fiquei em dúvida sobre o sentido que ela quis dar à palavra malfeito; se a usou como substantivo ou adjetivo.
Como substantivo, segundo o Houaiss, por exemplo, o verbete significa crime, delito, o que é ruim, má ação.
Como adjetivo, quer dizer algo defeituoso, imperfeito, feito incorretamente e - aí é que está o buzílis - mal executado.
Tenho a impressão de que os ministros e colaboradores vítimas da 'faxina' da presidente se encaixam melhor neste último caso.
Muitos parecem proceder da mesma forma: pegam carona em helicópteros de empresários, contratam empresas de parentes, superfaturam obras...
No entanto, fazem tudo benfeito, ou seja, ninguém descobre suas falcatruas; nenhum repórter enxerido vai atrás de suas amantes, de seus contratos escusos, de seu enriquecimento ilícito.
Mantêm boas relações com correligionários, colegas de governo, dirigentes do partido e nunca são alvo do fogo amigo na luta interna pelo poder.
São os mais espertos, ou mais sortudos; duram um ou dois governos e, ao final do mandato, ainda saem pela porta da frente posando de impolutos.
Porém, se por acaso escorregam, fazem algo com incompetência e são pegos com a boca na botija, estão condenados.
Ainda que estejam arregimentando caixa dois para campanhas eleitorais de seu partido, ou para garantir a governabilidade do presidente, são isolados.
Há uma espécie de acordo tácito na política dos corruptos - salvo as exceções de praxe - de que aqueles que se deixarem pegar caem sozinhos.
O máximo que os companheiros podem fazer por eles é arrumar bons advogados para defendê-los de penas maiores.
Do ostracismo, da solidão, não escapam. São as cabeças entregues a Salomé, são os cristãos jogados ao leões para satisfação da plebe ignara.
Diante dessa reflexão, a faxina da presidente Dilma aparenta ser mais reativa do que pró-ativa.
Assemelha-se muito com a limpeza que faço na geladeira, de vez em quando.
Não tenho o hábito de periodicamente abri-la e ver o que já está vencido para retirar e jogar no lixo.
Ao contrário, só descarto alguns produtos quando percebo que já perderam a data da validade e começam a cheirar mal.
Fale com José Luiz Teixeira: jl.teixeira@terra.com.br