Atualizada às 10h47 Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

(foto: Divulgação)
Dioberto "DIO" Souza, um fã da série alemã Perry Rhodan, me chamou a atenção para o fato de que ela completa, no dia 8 de setembro deste ano, um cinqüentenário de existência. Em homenagem a esta que é a maior série de ficção científica de todos os tempos, com mais de 2.600 episódios publicados no seu país de origem (marca atingida em junho deste ano), ao longo das próximas semanas o leitor desta coluna poderá encontrar aqui vários artigos a respeito dela e desta data tão extraordinária para um produto literário popular.
Perry Rhodan é fruto de um momento político e econômico vivido pela Alemanha, no período que se seguiu à 2ª Guerra Mundial. Os países afetados pelo conflito foram auxiliados, em seu processo de recuperação, pelos Estados Unidos, no que foi chamado de "Plano Marshall".
O Plano Marshall foi aprovado em abril de 1948, e a Alemanha, mesmo tendo sido o grande adversário dos Aliados na guerra, foi incluída no final de junho de 1949. o país já estava dividido, e a parte beneficiada foi a República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental). O plano tornou-se muito importante para a nação devastada pela guerra. Em 1972, o chanceler Willy Brandt criou o Fundo Marshall Alemão, como expressão de agradecimento pela ajuda americana.
Mas o plano não foi apenas um gesto de boa vontade norte-americana para com a Europa destroçada. Já em março de 1947, a administração do Presidente Harry S. Truman rascunhava a "Doutrina Truman", que transformava em política governamental a proteção a países "ameaçados" pelo comunismo. Um dos principais objetivos era deter o avanço da influência soviética na Europa.
A ficção científica alemã do pós-guerra se plasmou dentro desse contexto em que o país derivava para a esfera de influência norte-americana, e com o conseqüente aumento do interesse pela FC como um gênero literário caracteristicamente americano. Bernhard Kempen, no ótimo artigo "Perry Rhodan'Our Man in Space: Transformations of a German SF Phenomenon", revela que no pós-guerra a FC foi reintroduzida na Alemanha Ocidental como parte de um "programa cultural das Forças Aliadas que governavam o país". Segundo Kempen, "A primeira forma de publicação foram os Leihbücher (livros para empréstimo) nos anos cinqüenta. Faltava dinheiro e os leitores não podiam comprar livros. Os Leihbücher eram uma forma especial de publicação, porque na realidade eram impressos para uso das bibliotecas, e não para a venda direta".
James Gunn fornece uma cronologia, depois de afirmar que "O período moderno da FC na Alemanha, como na França, começa com a publicação de FC americana em tradução", e que esse aspecto pode ser mais importante do que a série Perry Rhodan. "As primeiras traduções começaram a aparecer em 1951 pela editora Gebrüder Weiss, e em 1953 pela Karl Rauch e pela Pabel, em 1956 pela Lehning, em 1957 pela Moewig, e em 1960 pela Goldmann".
Ao final da década de 1950, a renda da população alemã crescia, os livros populares surgiram, mas a frugalidade de uma Alemanha Ocidental recém-saída da guerra impunha restrições ao tamanho desses paperbacks: todos deveriam conter cerca de 150 páginas. "Isto, por exemplo, aconteceu até mesmo com Duna, de Frank Herbert, que em 1971 foi realmente publicado em uma edição de 150 páginas", conta Kempen.
Também na década de 1950 apareceu um outro formato tipicamente alemão, o Heftromane, que Kempen define como "uma espécie de revista ou livreto" com cerca de 22 cm x 15 cm, com 64 páginas, semelhante a uma pulp magazine norte-americana. "Mas a principal diferença em relação a uma pulp magazine é que um Heftroman contém apenas um romance (mais ou menos) completo". (Raras foram as pulp magazine com esse enfoque; a norma era a publicação de várias histórias em uma revista.) Muitos eram traduções de livros em inglês, freqüentemente cortados para caber nas 64 páginas, mas a maioria sendo escrita por autores alemães que, "atendendo" à demanda popular por boas histórias dos Estados Unidos, escondiam-se atrás de pseudônimos como "Wayne Coover", "Bert Horsly", "Clyde Morris" ou "J. E. Wells" (que lembra o inglês H. G. Wells). É claro que o nosso Walter Ernsting usou o mesmo truque, ao assumir "Clark Darlton" como pseudônimo. Kempen: "Às vezes esses romances vinham com um falso título original em inglês, enquanto o nome real do autor aparecia como tradutor". Isso configura claramente o que os estudiosos da tradução chamam de "pseudotraduções", muito comuns em países que caíram sob a influência norte-americana após a Segunda Guerra Mundial.
Mesmo no Brasil esse hábito editorial existe, e foi empregado até pelo famoso dramaturgo Nelson Rodrigues, que assinou livros como "Suzana Flag". Alguns autores se notabilizaram por produzirem centenas de livrinhos de banca sob pseudônimos de sabor anglo, em especial R. F. Lucchetti e o conhecido Rioky Inoue, que chegou a ser incluído no livro Guinness de recordes como o mais prolífico escritor do mundo.
Sam J. Lundwall, que em Science Fiction: An Illustrated History (1977), inclui Perry Rhodan numa linhagem de space opera que vem de E. E. "Doc" Smith e os seus lensmen e de Edmond Hamilton e o seu Captain Future, relata que "Na Espanha e nos países de fala espanhola da América do Sul, o maior herói espacial não foi um único, mas uma família, a intrépida família Aznar, que de 1954 a 1963 lutou contra todo o universo em 35 romances grandiosos" (32, segundo The Encyclopedia of Science Fiction). Seu autor era Pascual Enguídanos Usach, um espanhol que assinava "George H. White". As pseudotraduções se tornaram muito comuns na Espanha, e um autor se tornou conhecido por produzir centenas delas: Antonio Vera Ramírez, que chegou a produzir para o mercado brasileiro, sob o pseudônimo de "Lou Carrigan", entre outros.
Mesmo na Alemanha unificada de hoje, fora de Perry Rhodan os autores alemães poucas chances têm de alcançar grande projeção. Uma exceção é Andreas Eschbach, cujo romance Jesus Video foi traduzido para várias línguas e se transformou em uma minissérie exibida no Brasil pela HBO, e cujo romance Die Haarteppichknüpfer foi lançado com sucesso nos Estados Unidos em 2005, como The Carpet Makers. (Eschbach, não obstante, foi motivo de um perfil publicado no episódio 1988, num suplemento que trazia o programa da Conveção Mundial de Perry Rhodan em 2000. Ele também chegou a escrever para a série.) Por outro lado, Perry Rhodan hoje aceita, dentro do seu espaço conquistado sob pseudônimos anglos ou ambíguos, nomes mais francamente germânicos.
Kempen informa que séries do período pré-guerra, como Sun Koh e Jan Mayen foram republicadas como Heftromane, em versões "desnazificadas"; ou seja, sem o conteúdo de simpatia pelo regime do Nacional Socialismo da década de 1930. Por sua vez, The Encyclopedia of Science Fiction (1993) sugere que está errada a afirmativa de "alguns críticos de que as atitudes simplistas dos heróis dessas séries na verdade serviam como artifício psicológico para o regime fascista".
Como os enredos dessas séries se limitavam à Terra, Kempen hesita em defini-las como space operas. Quando Scheer e Ernsting lançaram Perry Rhodan pela Moewig em 6 de setembro de 1961, eles estariam criando o primeiro Heftromane de space opera.
Ainda segundo Kempen, o colorido da capa e a proeminência do título da série, em contraste com a ausência do nome do autor na capa, implicam que se espera que o leitor compre um romance de Perry Rhodan, e não a obra de um escritor em particular - levando muita gente, ainda hoje, a imaginar que Rhodan seja autor e não personagem (um engano bastante comum também no Brasil).
Interessante que, em seu ano de lançamento, ninguém esperava que a série superasse trinta edições e se tornasse mais bem-sucedida do que todas as anteriores. "Mas quando o número 100 surgiu em 1963", escreve Kempen, "começou a parecer que esta não era só 'mais uma série'".
Na década de 1960, quando K. H. Scheer e Walter Ernsting a criaram, nenhum país ocidental sentia mais a pressão da Guerra Fria, do que a Alemanha. Enquanto a União Soviética criava o maior exército de invasão do mundo, os alemães ocidentais se viam no meio do caminho da imensa força de tanques da URSS e das suas divisões de infantaria blindada lançadas de pára-quedas. A Alemanha era a fechadura da Europa Ocidental, e nela os americanos despejaram tropas e mísseis nucleares, além da ajuda financeira.
Perry Rhodan, o personagem, é fruto direto desse estado de coisas. Um herói americano, mas um americano idealista, capaz de sonhar com uma Terra unida, sem fronteiras ou disputas ideológicas. "Para mim, todos os habitantes deste globo são homens", diz o herói na primeira aventura, "terrestres, quaisquer possam ser a cor de suas peles, suas crenças ou ideologias. Por fim, se libertarão de suas angústias".
Nesse sentido, a idéia da Terra unida em uma grande nação espelha a necessidade de uma Europa unida (exatamente o que vemos hoje), para então fazer frente tanto ao perigo soviético, quanto ao paternalismo norte-americano - representados talvez pelos arcônidas, de um lado despersonalizados pelo controle implacável do Cérebro Regente de Árcon, e de outro tão dependentes dos vigorosos terranos para deter a dissolução do seu império.
A própria idéia da Terceira Potência, criada por Rhodan no Primeiro Ciclo como uma alternativa para a divisão do mundo nos blocos capitalista e comunista, e como um modo de isolar a tecnologia arcônida superior dos beligerantes, é em si uma resposta às ansiedades alemãs com respeito à Guerra Fria. Um título em particular parece traduzir essas ansiedades, tanto as pessimistas quanto as otimistas: A Guerra Atômica que Não Houve.
A estrita independência adotada pelos terranos sob o comando de Rhodan, tanto no plano global quanto no interestelar, sugere o descontentamento dos autores da série tanto diante da ameaça soviética do outro lado da cortina de ferro, quanto diante da própria dependência européia em relação aos Estados Unidos e à OTAN contra as forças comunistas.
Talvez possamos enxergar, em Perry Rhodan como fenômeno ligado a estratégias de pseudotradição, um modo dos alemães do pós-guerra, sob a influência político-militar e cultural dos americanos, empregarem uma FC tipicamente americana como forma de entender a mentalidade dos seus aliados, e remodelá-la de modo a explorar a nova ordem mundial do pós-guerra e da guerra fria sob um viés mais local.
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