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Quinta, 15 de setembro de 2011, 08h14 Atualizada às 18h10

Existem várias maneiras de se criar um Perdedor. Invente uma

Divulgação
Glee nos cinemas: o mundo vasto mundo de uma estampa de camisa
Glee nos cinemas: o mundo vasto mundo de uma estampa de camisa

Carol Almeida
De São Paulo

Glee Live! 3D!, assim mesmo com duas exclamações, chega esta sexta-feira aos cinemas do Brasil varonil com sabor de tutti frutti, textura de pelúcia, perfume de Giovanna Baby e possivelmente a frase mais expressiva da carreira de Gwyneth Paltrow: "Let's go get some tacos", o que significa nada mais que "Vamos lá comer uns tacos".

Para os conhecedores da série de TV que inspirou o show agora filmado em um 3D que, óbvio ululante, quase não se percebe, sabe-se que este é o longa que compila alguns dos hits interpretados por Rachel, Finn e companhia. Músicas do cancioneiro pop americano - algumas, aliás, marcos da musicografia gay - ganham aqui a tecla sap de um espetáculo no estilo Criança Esperança em tarde de sábado, com a ressalva de ser bem mais pirotécnico.

O filme traz o que o público quer: os personagens da série são os personagens do show e aqui eles ganham os holofotes com agudos de hormônios em crise, alguns playbacks faça-você-mesmo e coreografias que calculam equações de segundo grau com o corpo.

Mas não é exatamente sobre a performance dos atores/cantores/dançarinos que este texto vem falar. Tudo começa quando o filme decide sustentar um porte de documentário usando para isso relatos verídicos de adolescentes que, de alguma forma, encontraram em Glee a auto-afirmação necessária para a elaborada arte do convívio social.

Sabe-se que o brasão da série é representado por uma imagem popular nos Estados Unidos, o "L" dos losers. Ao pé da letra, o "L" dos perdedores, sujeitos fora de padrão (ou "otários" na dublagem equivocada do filme). Pois bem, o "documentário" de duas exclamações no título tem uma tese a apresentar: a de que os perdedores, ao se reconhecer em alguns personagens da série, conseguem se relacionar com seus próprios medos e realidades quando atravessam esse corredor de fantasia e ficção dos indivíduos caricatos da série (Lacan sempre homologando nossa carência pelo showbiz).

Glee quer então abraçar esses perdedores e gentilmente afagar seus apertados corações com músicas que falam quase sempre sobre esse poder do indivíduo em guerra com as convenções sociais. E faz isso da maneira mais lucrativa possível: usando e abusando de todos os estereótipos e rótulos que teoricamente viria criticar: da loira burra até o gay Barbra Streisand.

A moral da história deve ser de que o perdedor em Glee é, na verdade, o grande vencedor, aquele que tudo supera. Mas a ética e a estética da série estão aí para provar que até mesmo para ser um perdedor, você é obrigado a se etiquetar como tal para, somente assim, ser melhor, maior e mais popular. Tudo que você é pode e deve ser reduzido a poucas palavras impressas em uma camisa: "Eu gosto de meninos", "Eu não sei dançar", "Sou Quatro Olhos". A lógica dos "vencedores", ou o axioma da inclusão pela exclusão, é reproduzida Ipsis Litteris na série e no filme que agora estreia nos cinemas. Esse é o jeito Glee de se fazer um perdedor.

Mas calma lá, porque nessa mesma cultura americana obcecada por castas sociais tão intricadas quanto uma partida de Batalha Naval, existem vários outros jeitos e diferentes estéticas que apresentam a imagem do perdedor na cultura pop. Eis algumas que valem a pena destacar, por grau de complexidade:

Os perdedores Bazinga


Sheldon Cooper: o mundo vasto mundo dentro dele mesmo (Foto: Divulgação)

Já foram um dia chamados de nerds, geeks, e outras variações aplicáveis para aqueles que podem ter síncopes com gente que confunde Star Wars com Star Trek (ou com quem escreve Star Treck). Na série The Big Bang Theory, onde eles são atualmente representados, esses perdedores são divertidas mímeses dos sujeitos que encontram na ciência a fuga do mundo real. Sendo o mundo real representado por uma vizinha loira e gostosona.

Apesar de usar o mesmo padrão estético das figuras extremas, o seriado com Sheldon e adjacentes vai além do moralismo de Glee quando usa seu personagem principal como uma grande piada com esse universo de pessoas fechadas em seu próprio mundo (e em suas próprias etiquetas). Na palavra de Sheldon para qualquer tipo de sentença conclusiva: "Bazinga!"

Os perdedores Olive


Olive Hoover: a real Miss Universo (Foto: Divulgação)

Olive Hoover, para quem não lembra, é aquela menininha simpática e fofa de Pequena Miss Sunshine. Todo o problema de Olive é que ela se achava bonita sendo, pelas convenções de consumo, feia. Ou seja, Olive não tinha um problema, mas sim uma solução. Em um filme que se dedica a falar exclusivamente desses limites entre perdedores e vencedores, a caçula da família Hoover prova que a beleza, em seu sentido de sucesso, independe da existência do outro. Corre por fora dos rótulos.

A personagem e o filme quebram com a lógica ocidental de que o feio existe como condição necessária à gênese do belo, "onde as sombras contribuem para que melhor resplandeçam as luzes" (na Suma, de Alexandre de Hades, citado por Umberto Eco na História da Beleza). Olive não precisa de uma camisa para dizer quem ela é, porque ser não vem com manual de uso.

Os perdedores Miranda July


Miranda July: porque és o avesso do avesso do avesso do avesso (Foto: Divulgação)

Esteticamente falando, esses são os perdedores mais queridos dos - lá vem mais uma pecha - indies. Artista plástica volta e meia abduzida pelo cinema, Miranda July é diretora de dois importantes filmes para o inventário dos perdedores: Eu, Você e Todos Nós, já exibido no Brasil e presente em qualquer (decente) locadora de DVDs e The Future, seu mais recente projeto ainda sem data para chegar pelas bandas de cá. Ambos se utilizam de uma imagem própria (fotografia, direção de arte, figurino, corte de cabelo, cor da unha) para falar de personagens só sabem falar pra dentro.

A partir do recorte estético, seus filmes colocam em questão temas como as absurdas regras de convívio social e a sensação de inércia diante do tempo que perdemos todo dia. Temas que são tão caros para quem, de fato, se percebe alijado da sociedade. July, em seu trabalho como artista plástica, brinca inclusive com esse processo de "rotularização" do sistema de consumo aplicado sem culpa na identidade das pessoas, e vai buscar em curtas frases a ironia que é perseguir em poucos caracteres a essência de um indivíduo.

O que ela e outros vários sábios autores americanos que digressionam sobre os perdedores fazem é trocar a máxima do "me respeite por quem eu sou" (gay, gordo, quatro olhos, Rachel, Finn...), pela mais complicada afirmação do "me respeite porque eu sou". Pouco conveniente para a publicidade de qualquer produto.


Carol Almeida é jornalista, mestre em comunicação pela UFPE, vencedora do prêmio Herzog em 2009 e devota de tudo o que diz respeito à cultura pop

Fale com Carol Almeida: ana.calmeida1@terra.com.br

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