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Quarta, 21 de setembro de 2011, 07h58

Por que não barato e bom?

Érico Nogueira
De São Paulo

Não é de hoje que a tradução em verso dos clássicos da poesia greco-latina tem sido relativamente bem recebida pelo mercado e por sua majestade o público: há quase duas décadas, desde a publicação da Odisseia e da Ilíada de Homero - aquela na magistral tradução de Odorico Mendes (1799-1864), esta na quando menos ousada versão de Haroldo de Campos (1929-2003) -, o brasileiro amante dos clássicos (isto existe sim!) não tem tido do quê reclamar, de vez que tem à sua disposição uma quantidade considerável de boas traduções do já citado Homero, do divino Virgílio, e dos trágicos gregos, pelo menos. Se alguém reclamava de alguma coisa, só podia ser do preço dos livros.

Acho que foi para acabar de vez com essa possível reclamação que a editora Nova Fronteira resolveu incluir na coleção Saraiva de Bolso aquelas que alguns consideram as mais perfeitas traduções em verso da Ilíada e da Odisseia em português, de autoria do ilustre Carlos Alberto Nunes (1897-1990). Mas o tiro, infelizmente, saiu pela culatra. Explico logo o porquê.

A equipe que preparou os originais resolveu 'atualizar' o texto do impecável tradutor, e, levada, quem sabe, pelas pernas de Brad Pitt na superprodução Troia, trocou o nome do grego Odisseu pelo algo mais familiar Ulisses, seu equivalente latino. Até aí, tudo aparentemente normal, - não fosse a equipe haver se esquecido apenas e tão-somente de uma coisinha: o texto de Nunes, como o de Homero, é poesia, não prosa; e o nome 'Odisseu', portanto, na condição de trissílabo oxítono, cumpre uma função métrica e rítmica muito diferente do trissílabo paroxítono 'Ulisses'. Trocando em miúdos, destruíram a harmonia e a perfeição melódica dos versos originais. Um único exemplo deve bastar.

Quando, na Odisseia, lemos "Palas a todos contava do divo Odisseu os trabalhos", notamos que os acentos caem respectivamente na 1a, 4a, 7a, 10a, 13a e 16a sílaba, e que o verso, pois, se constrói segundo uma sucessão metódica de uma tônica e duas átonas, até chegar à última tônica. Pergunta: por que o tradutor escolheu esse verso, afinal? - Simplesmente porque Homero, o poeta que ele traduz, utiliza esse mesmíssimo verso. Melhor razão não há, portanto, e fim de papo. Ao estampar, porém, "Palas a todos contava do divo Ulisses os trabalhos", a recente edição da Nova Fronteira acaba com a diligente colocação de tônicas e átonas, e destrói a consonância do verso: o leitor leia as duas versões em voz alta e vai logo entender o que eu digo.

Não é porque é barato que tem de ser mal feito. A iniciativa da editora é boa, mas a execução foi simplesmente deplorável. Vai daqui uma dica: gastem um pouquinho mais, contratem um especialista na área, e esses problemas devem sumir. Preciso desenhar?


Érico Nogueira é poeta e tradutor, autor de Dois (2010) e O livro de Scardanelli (2008). Escreve semanalmente no Ars poetica, blogue de poesia.

Fale com Érico Nogueira: nogueira.erico@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 
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"Levada, quem sabe, pelas pernas de Brad Pitt (foto) na superprodução Troia, a equipe trocou o nome do grego Odisseu pelo algo mais familiar Ulisses"

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