Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Marcelo Cunha

Sexta, 30 de setembro de 2011, 08h06 Atualizada às 09h50

Que chato, Chico

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Pois estimadíssimos leitoríssimos, o mundo viveu mais uma daquelas semanas de endoidar o crioulo aqui, na sua ânsia de compor a cada semana um samba-enredo que faça algum sentido onde não existe algum. Diferentemente do Saramago eu não fico desistindo e dizendo "até aqui fui", porque sei que vou continuar indo, mas que não nos facilitam a vida, não facilitam com uma semana que começou com esse esquisitíssimo Rock in Rio e seguiu adiante com a informação de que os ingressos pro show de 80 anos do João Gilberto encalharam - assim como os do outro gênio da música, Justin Bieber.

E cá estava eu no meu cantinho, pensando em samba e pouca coisa mais e quando me dei conta estava não-batucando o novo disco do Chico, curiosamente intitulado, "Chico". E eu não batucava enquanto ouvia, caros leitores, porque eu - e olhem só o que é a vida -, não sentia nada enquanto ouvia.

Chico Buarque pode ser muitas coisas para muita gente, mas para a minha geração ele se tornou muito rapidamente a voz e a consciência, além de saber escrever poemas que vou te contar. No colégio estadual eu li e estudei as canções dele, Carolina, Quem te viu, quem te vê, aquelas coisas que o tempo não traz mais. Lembro de ouvir e achar A Banda meio tolinha, o que era, provavelmente, mas os tempos também o eram. Lembro do absurdamente poderoso disco do show ao vivo dos dois, Chico e Caetano no teatro João Caetano, 1972, e aquilo sacudia a tudo e a todos, caros leitores.

Duas semanas atrás eu fui à cidade gaúcha de Torres, uma praia, para quem não conhece. Em um dos raríssimos veraneios da minha vida, aqueles com família, praia, casa de praia, eu fui a Torres, no distantíssimo verão de 76 para 77. Junto, alguém trouxe, veio o Meus Caros Amigos.

Aquele disco tocava dia e noite naquela casa, caros leitores. A casa ficava junto a uma rua com bom movimento e pessoas paravam para ouvir e pediam para ouvir, e juntos nos sentíamos uma nação, machucada, com bandeide por todo lado naqueles anos Geisel, mas uma nação, mantida em funcionamento pelo Chico praticamente sozinho.

Mudamos todos, de uma forma ou de outra, mas, o quanto mudou o Chico?

Em 1977, eu acho, fui até o centro do Rio, de ônibus, uma temeridade para um garoto do interior, ver a Ópera do Malandro. E quando ouço todas falando em como o Chico compreende a alma feminina, penso também no que ele fez pras pobres Genis com aquele disco. Vocês imaginam o que devia ser a gente se chamar Geni enquanto tocava a Ópera, e ela tocava o tempo inteiro e em toda parte? Cruel, não?

Acho que foi por ali que nos separamos, Chico e eu. Nunca mais ouvi algo que me fizesse tremer os ossos, como naqueles discos e tempos.

Vieram os livros, eu li Estorvo, já tinha lido ou tentado ler a Fazenda Modelo, anos antes. Você, eu, a torcida do Flamengo, todo mundo achou igual à Revolução dos Bichos e pendurou na conta dos enormes créditos que ele merecidamente tinha acumulado. Estorvo me parecia algo como "Noll encontra Kierkegaard" mas fui bravamente até o final, queimando créditos, mas eles abundavam, como abundam. Benjamin foi no mesmo embalo e Budapeste me custou três tentativas antes da desistência e da doação dos créditos.

E agora, Chico?

Sai disco novo e já se sente a tremedeira das mulheres e o interesse polido dos homens, eu acho. Afinal, é o Chico, uma das nossas raras e intactas instituições. Um sujeito que se mantém em um silêncio altivo e digno, que nunca foi mais ou menos do que ele mesmo e por isso tão respeitado, além de admirado pela enorme obra.

E, no entanto, o disco toca e eu não batuco, meu coração tampouco. Eu devo ter mudado muito, e seguramente para pior. O Chico não sei se mudou ou o que aconteceu e acontece. A inteligência está lá, o sentido das palavras, o tempo e a elegância. Mas não vejo o mesmo poder melódico, aquela coisa que batucava a gente, e não o contrário.

Ninguém tem a obrigação de se manter no topo por uma vida e isso pode ser mesmo impossível, em especial para quem fez o que o Chico fez e naquele momento.

A grande geração dele também precisou dar conta do rock, do qual eles nunca fizeram parte. A grande MPB foi o estertor de uma música nossa e sem rock, e talvez o nosso último momento de protagonismo musical.

Tempos atrás, no Rio, escutei uma versão linda de Agora é Cinza, e meu coração sambou triste, triste. Dias atrás colidi com um bloco de maracatu e minha alma brasileira deu uma volta completa em si mesma antes de seguir em frente, renovada.

O melhor do nosso passado segue firme, como o Chico desse mesmo passado. É o nosso presente que serve de desafio e ameaça a músicos, novos ou não, e é nele que eu vivo. No passado, sou herdeiro do Chico. No presente, órfão dele. E é assim que sigo enquanto o disco toca, o esquisito verso que fala de mulheres sem orifício vem e vai e o meu dedo segue ali, frio e sem se mexer, sem bater, sem reação. Cadê o Chico, cadê o samba que estava aqui, e agora, sei lá como ou por que, não está mais.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br
ou siga @marceloccunha no Twitter

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
Daryan Dornelles/Divulgação
"Chico Buarque (foto) pode ser muitas coisas para muita gente, mas para a minha geração ele se tornou muito rapidamente a voz e a consciência"

Exibir mapa ampliado

O que Marcelo Carneiro da Cunha vê na Web

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol