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Sexta, 30 de setembro de 2011, 08h07

Em Salvador é tempo de Arbítrio

Deolinda Vilhena
De Salvador (BA)


O elenco: Naia Alex, Laís, Laura e Yuri (Foto: Divulgação)

Não acredito em quem faz teatro e não vê teatro. Tenho dificuldade em entender como se pode sonhar em diretor, ator ou técnico sem ter curiosidade em ver o que seus contemporâneos fazem. Desde sempre, ao chegar numa cidade o que mais me interessa é a possibilidade de descobrir o teatro que é feito nela. E mesmo se, desde que cheguei a Salvador, pude ver muito menos coisas do que gostaria, ou do que necessita a minha curiosidade sem fim, tenho conseguido encontrar pistas interessantes.

Verdade que agora estou no celeiro do teatro baiano. Afinal, desde sua criação em 1956, a Escola de Teatro abastece a cena baiana. Para alegria de uns, tristeza de outros... Inúmeros papos de mesa de bar, brigas de fim de noite, entre os que são contra e os que são a favor da academia...na dúvida sugiro que, nessas horas, façam a opção pela Academia da Cachaça. Porque, cá pra nós, como é chato e ultrapassado esse papo. Principalmente, para quem, como eu, divide o teatro em dois: o bom e o ruim. O resto é conversa mole...papo de pseudo-intelectual...

Confesso que na Escola de Teatro sinto-me no lugar certo. Não preciso mais procurar por espetáculos. Eles chegam a mim. E foi assim que descobri o Teatro Base. Afinal, Alex, Laís, Laura, Yuri, Diego e Sandro são meus alunos. E é deles que quero falar hoje. Porque tendo assumido meu cargo de Professora há exatos três meses, é graças a eles que tenho renovado - diariamente - minha paixão pelo teatro.

DESCOBRINDO O TEATRO BASE


A estreia de hoje: recomendo (Foto: Deolinda Vilhena)

Ao chegar na Escola de Teatro, a cada turma que encontrava pela primeira vez, usava a aula para uma conversa. Para dizer a eles ao que vim, esperando que eles também me dissessem o que esperavam da Escola e dessa professora que acabava de chegar. Foi assim que tomei conhecimento da existência do Teatro Base. E uso aqui um texto do blog deles para apresentá-los a vocês: "somos atores e encenadores, dramaturgos e bailarinos, pintores e compositores. Somos letras, música, dança, pintura... TEATRO! Somos artistas! Construtores do Mundo e não construção dele!".

Sentiram a força da garotada? Pois é, e tudo isso se apropriando dos meios de produção e tornando-se sujeitos do processo criativo.

Pois o Teatro Base é formado por alunos de Artes Cênicas - Habilitação em Interpretação e Direção Teatral, e Licenciatura em Teatro da Escola de Teatro Universidade Federal da Bahia (UFBA), que se uniram para compor um núcleo de pesquisas teatrais. Tomaram como ponto de partida o Método das Ações Físicas, e em desde abril de 2010, decidiram se aprofundar nas pesquisas relacionadas à arte do ator, analisando os métodos de representação com mais profundidade e em regime de teatro de grupo.

Durante as primeiras pesquisas teóricas, o grupo chega a um conceito que lhe pareceu provocativo para a pesquisa, a técnica pessoal do ator, e usando um termo do encenador polonês Jerzy Grotowski intitula a pesquisa de Via-negativa.

O primeiro semestre de trabalho do Teatro Base marca a entrada numa fase de pesquisas pragmáticas, nas quais eles organizam uma serie de treinamentos plásticos, pré-expressivos e expressivos, onde o ator descobre e reconhece, e tenta vencer os obstáculos de suas limitações físicas e vocais.

Ao longo do processo de pesquisa o grupo começa a ser provocado para uma produção criativa, o encontro com o espectador. Assim nasce o primeiro experimento cênico do grupo, e sua primeira mostra pública, no final do mesmo ano.

O trabalho culminou em uma dramaturgia autônoma inspirada por textos de Federico Garcia Lorca, William Shakespeare, Calderón de la Barca, Guimarães Rosa, acrescidos aos textos da prata da casa: Bárbara Pessoa (dramaturga) e Diego Pinheiro (diretor). O texto, assim como a encenação, assume caráter experimental.

Pois hoje à noite, o Teatro Base estreia seu primeiro espetáculo Arbítrio, que fala das relações de poder e fanatismo dentro de uma família "aprisionada" em uma casa, em outro tempo.

Temas como a maternidade e a religiosidade permeiam a casa e a família, e fortalecem as relações familiares em uma atmosfera densa e questionativa. Segundo o diretor Diego Pinheiro: "em Arbítrio a religiosidade tem suma importância, pois usamos de imagens e signos religiosos para criar maior empatia com o espectador".

O público que comparecer a Casa Preta - espaço alugado pelo grupo, e na minha opinião prova da maturidade e seriedade do trabalho - vai se deparar com uma família condenada a crueldade de sua existência, em um jogo com ações do passado que respondem a situação atual vivida pelos membros da família. Neste discurso, corremos o risco de descobrir que todos na casa, inclusive os que nelas não mais residem, possuem um claustro interno. Essa é a promessa do release enviado por eles.

Ainda não vi o espetáculo. Estarei na estreia dando a maior força a esse grupo. Porque nos últimos 45 dias acompanhei de longe o movimento em torno de Arbítrio, e foi impossível não me deixar contagiar pelos sorrisos escondidos atrás das olheiras. O cansaço que via estampado na carinha de cada um, não me impedia de ver em seus olhos, aquela mesma esperança que tinha quando resolvi - num longínquo verão de 1973 - fazer teatro e que renasce a cada vez que a vejo em outro olhos...

Ah! O Teatro Base é Alex Barreto, Bárbara Pessoa, Diego Pinheiro, Laís Machado, Laura Sarpa, Larissa Raton, Luísa Muricy, Naia Prata e Yuri Tripodi. Guardem bem esses nomes, espero poder escrever sobre eles diversas vezes nessas páginas virtuais.

Merda! Que vocês façam da frase do Gerald Thomas - saia do confinamento de sua província - o lema de vocês! Afinal, o mundo é um palco, já dizia o bardo inglês...e a vocês pertence!

SERVIÇO ARBÍTRIO
Um espetáculo do Teatro Base
Direção: Diego Pinheiro
Assistência de Direção: Sandro Souza e Ricardo Santana
Com Alex Barreto, Laís Machado, Laura Sarpa, Luísa Muricy, Naia Pratta e Yuri Tripodi
Dramaturgia: Bárbara Pessoa
Textos: Federico Garcia Lorca, Calderón de la Barca, William Shakespeare, Guimarães Rosa, Fiódor Dostóievski, Johann Wolfgang von Goethe, Gilles Deleuze, Sto. Agostinho,Voltaire, Diego Pinheiro e Bárbara Pessoa
Realização: Teatro Base - Grupo de Pesquisas sobre o Método do Ator
Quando: De 30 de setembro a 30 de outubro, sexta a domingo
Horário: Sexta 20 horas; sábado 18 e 20 horas; domingo 18 horas
Onde: Casa Preta (Rua Areal de Cima 40, Dois de Julho, Centro, Salvador (71) 9967-1342)
Quanto: R$10,00 (inteira) e R$5,00 (meia)
Maiores informações: www.oteatrobase.blogspot.com / oteatrobase@gmail.com

Deolinda Vilhena é jornalista, produtora teatral, Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne e professora do Departamento de Técnicas do Espetáculo da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia.

Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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