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Quinta, 6 de outubro de 2011, 07h46

Mauricio de Sousa, o dono da rua

Carol Almeida
De São Paulo

Tal qual Cebolinha, imagina-se que Mauricio de Sousa acorda todo dia com um plano infalível em mente. Mas diferente do que acontece com seu personagem, esses planos quase sempre dão certo. Seu objetivo não chega a ser tão pirracento quanto irritar a Mônica, nem tão megalomaníaco como conquistar o Mundo. Fica no meio do caminho, ali onde o sucesso significa dar um nó na lógica de um mercado que, no mundo todo, só tende a perder espaço.

Para citar alguns dos mais recentes desses planos bem sucedidos: o divulgado primeiro beijo entre os já adolescentes Mônica e Cebolinha, na série Turma da Mônica Jovem; os bonequinhos a Gogo's com todos os personagens já criados dentro de seu estúdio - vendidos como água nas bancas por módicos R$ 2,25 - e, finalmente, o fim da trilogia MSP 50, álbuns em quadrinhos, assinados por quadrinistas de todo o País, que surgiram a princípio para homenagear Mauricio por seus 50 anos de carreira, em 2009, e deram sequência a outros dois livros escritos e desenhados por um total agora de 150 artistas.

Sobre o mais recente título dessa trilogia, o MSP Novos 50 (Panini Books), lançado na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, é preciso dizer que ele está longe de ser o fim de um projeto. A bem da verdade, é apenas o começo de uma história muito bem arquitetada pelo próprio Mauricio, ao lado do jornalista e agora editor de quadrinhos Sidney Gusman. Um plano, como poucos, infalível.

O álbum acima citado é mais um conjunto de releituras dos vários núcleos de personagens carimbados com a marca MS. Traz alguns roteiros fantásticos, desenhos geniais e, quando tudo dá certo, roteiro e desenho brilhantes em uma mesma história. Trabalhos como o esquizofrênico crossover entre Chico Bento e o Astronauta de Galvão (o mesmo das divertidamente constrangedoras tirinhas Vida Besta), a esperta solução de João Montanaro - até dia desses tão criança quanto qualquer personagem da turminha - para os erros recorrentes de Cebolinha, a linda referência e reverência ao mestre Miyazaki de Paulo Visgueiro, o cordel bem rimado de Klévisson Viana para, novamente ele, Chico Bento, a reflexão urbana de Jaum sobre o bairro do Limoeiro e a muito bem colocada citação a Charles Dickens no traço todo apurado de Rael Lyra, numa versão poética do Franjinha. Teoricamente, esses e outros artistas encerram as revisões "estrangeiras" aos quadrinhos mais vendidos do Brasil.

Mas com o (aparente) fim dos títulos MSP 50, os estúdios Mauricio de Sousa podem e vão, a partir de agora, servir como um tipo de selo para o trabalho de quadrinistas nacionais que terão a chance de publicação até certa medida autoral com a marca e apelo comercial de Mauricio de Sousa por trás. Em contrapartida, eles ajudam a tombar o bem imaterial mais precioso da empresa: os personagens criados ao longo desses mais de 50 anos de histórias em quadrinhos, parques temáticos e produtos licenciados.

Afinal de contas, em cada repincelada de uma Mônica, um Chico Bento ou mesmo um Papa Capim nas mãos de gente de fora do modus operandi da casa, mais fica claro que, além de extremamente comercial, o trabalho de Mauricio de Sousa é também legitimado como conceito. Como diriam os americanos em sua terminologia de negócios: trata-se de uma manobra "win-win". Não tem quem saia perdendo.

De onde se explicam alguns dos próximos investimentos editoriais da empresa. A partir de 2012, por exemplo, começa a chegar às livrarias uma série de quatro graphic novels cujos autores serão revelados no próximo mês de novembro, no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte. Todos esses livros serão vendidos como um projeto editorial arrojado, de revisões artísticas para personagens da turminha do Limoeiro e companhia. Além deles, o estúdio lança um álbum todo assinado pelos funcionários da casa, aqueles que, no cotidiano da empresa, produzem em escala e trabalham em páginas que chegam a ser "criadas", cada uma, por até cinco pessoas.

Reinventar um produto que há várias gerações permanece nas prateleiras é, certamente, o maior mérito do quadrinista cuja maior virtude é saber ser empresário. Muito mais do que Cebolinha, Mauricio de Sousa sabe ser o dono da rua.


Carol Almeida é jornalista, mestre em comunicação pela UFPE, vencedora do prêmio Herzog em 2009 e devota de tudo o que diz respeito à cultura pop

Fale com Carol Almeida: ana.calmeida1@terra.com.br

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