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Sexta, 14 de outubro de 2011, 08h00

Autores x Atores

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Hoje estive com dois atores do filme Antes que o Mundo Acabe, baseado no meu livro. Os atores são os jovens, muito jovens, Bianca Menti e Eduardo Cardoso, jovens e encantadores demais para eu manter com eles a relação de Predador x Alien que eu costumo preferir nesses raros encontros. Meses atrás foi outro dos atores do filme, o também Eduardo Moreira, do consagrado grupo Galpão, de Belo Horizonte, que se mostrou tão informado, tão preparado, tão culto, do jeito orgânico que eu aprecio, que foi impossível desgostar dele como eu gostaria.

Porque, na verdade, estimados leitores, a relação entre autores e atores não pode ser outra que não uma sólida e complicada tranqueira. Explicando melhor: quem rala e cria toda a ficção que existe no mundo somos nós, os autores. Quem trabalha horas sem fim, quem lê, escreve, reescreve, se desespera, vai pra análise, volta da análise, reescreve, joga no lixo, ameaça beber xampu e passa meses, anos criando uma história somos nós, os autores.

Agora, pergunto aos meus sensíveis e atentos leitores: quem vai pro Castelo de Caras?

Anos atrás estava eu em uma van, sendo levado do aeroporto até um festival de cinema. Na van, comigo, estavam um dos melhores escritores do Brasil e um outro sujeito, simpático, vagamente conhecido mas quem eu não fazia idéia do que fosse. Eu olhava embasbacado para o escritor, o gênio da raça ali na mesma van que eu, e olhava com curiosidade para o outro sujeito, que eu realmente achava que já tinha visto nessa vida ou em outra, mas não conseguia localizar no tempo ou no espaço. Chegamos ao local do festival e quase morri atropelado por milhares, milhares de garotos e garotas que berravam e berravam e tentavam fazer uma foto, pegar um pedaço, quebrar uma parte, do sujeito simpático e agradável que eu nunca tinha desconfiado que era um famosíssimo ator de tevê de uma novelinha das seis da tarde. E agora? O grande escritor ao meu lado só teve o trabalho de sair e pegar a sua mala, sem que ninguém o atrapalhasse ou tentasse fazer uma foto com ele. Ninguém deu bola, ninguém sabia quem era.

Como é que autor vai gostar dessa raça que ocupa o espaço que por direito divino é nosso, dos que sentam e bebem e praguejam ao vento e lutam contra tudo, contra todos, contra si mesmos, na busca dos personagens que vão aquecer os seus dias e as suas noites, caros leitores?

E hoje eu enfrentei graves dificuldades na hora de desgostar da Bianca e do Eduardo como o protocole requer. Os dois se mostraram interessados, interessantes, lidos, pensados, reflexionados; dois atores muito jovens e já tão preparados ou se preparando tão bem para pegar um texto e transformar em gente!

No filme, que vocês encontram nas melhores locadoras e nas outras também, eles protagonizam uma das maiores cenas da história do cinema brasileiro: uma cena (que não está no meu livro, é criação de quem fez o filme e isso me mata de inveja) em que os dois personagens de Bianca e Eduardo - a malvada Mim, e o pobre Lucas, informam algo terrível ao pobre Daniel, ex-namorado da Mim e ex-melhor amigo do Lucas.

A troca de olhares dos três nessa cena, caros leitores, é de puxar o tapete dos que ainda insistem que o cinema brasileiro não tem jeito. Tem, claro que tem, mas precisa e muito de atores como eles, além de uma diretora como a Ana Luiza Azevedo, capaz de criar e sustentar uma cena tão dura, tão cruel e tão bela como essa.

Eu ouvi o Eduardo Moreira descrevendo o trabalho que fez para compor o seu personagem, o pai que abandona o filho bebê antes mesmo de o conhecer para ir viver a sua vida de fotógrafo de guerras, uma profissão que torna pais possíveis vítimas e filhos possíveis órfãos. Impossível não admirar aquele sujeito e o ator que o ocupa de tempos em tempos. Eu, o autor enciumado, senti ali a presença da grandeza de um sujeito que consegue se livrar de si mesmo para que o personagem ocupe o espaço. Haja capacidade de doação, deusnoslivre.

Hoje, ouvindo a Bianca e o Eduardo falando sobre como passaram a compreender e sentir os dois complicados personagens que precisavam fazer viver, senti algo novo na minha relação com atores. Eu, o insensível neto da minha avó Jovita senti, ora vejam, culpa. Por tudo de mal que já desejei a atores, pelos ciúmes de todos esses anos, pela incompreensão do que eles realizam. Eles, caros leitores, constroem a ponte enquanto a cruzam. Bem como temos que fazer nós, os autores, nem menos nem mais.

Eles merecem o Castelo de Caras, estimados leitores. Eles merecem dar dez vezes mais autógrafos e um milhão de fotos de celular do que nós, pobres escritores. Eles assumem o risco e o fazem em público, enquanto a gente faz o que faz no conforto de uma sala ou quarto e com um computador como testemunha, mais ninguém. Eles humanizam o que a gente cria para viver no papel. Eles sentem por nós, vivem por nós. Eles nos poupam o trabalho de imaginar tudo, nos permitem sentir o que há para sentir sem que a gente mesmo precise entrar no fogo para se queimar. Eles se queimam pela gente, mesmo que de mentirinha.

Depois de hoje eu sou um novo cara e vou respeitar atores de um jeito que nunca fiz antes, mesmo que eles jamais venham a suspeitar. Gostar, gostar já um tanto demais. Eu até seria capaz disso, eu acho, se ao menos me levassem junto para o Castelo. Não vão, nunca vão, e então por isso mesmo eu até gosto, mas finjo que desgosto e assim, unidos em nossa mútua e incompreendida dependência seguiremos em frente, para todo o sempre, até que o The End nos separe, amém.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

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