Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Uma das razões, entre tantas, que explicam os resultados pífios de doze anos de escola, especialmente em testes de leitura, é que muitas práticas escolares são irrelevantes ou banais. Estudos de livros didáticos mostram que ainda se discutem ou analisam frases como "O menino leu o livro" ou que as atividades de leitura param nas perguntas e respostas óbvias: "Era um vez um rapaz que gostava de rock" etc. Responda: Do que gostava o rapaz?
Pode-se fazer coisas mais interessantes. A primeira é analisar textos que ofereçam verdadeiros problemas, e não nenhum problema, como o exemplificado acima. Se, em vez de ler "o pato nada na lagoa" (gerações fizeram isso...), os alunos lessem "o pato nada com duas patas", o trabalho poderia render um pouco mais, sem cansar ninguém. Ao contrário, até pode divertir. Se os alunos não sacarem, explica-se que "duas patas" pode designar tanto os membros que o pato movimenta para ir em frente quanto duas fêmeas da mesma espécie que o acompanham nessa atividade corriqueira. Mas que não se mande, logo em seguida, fazer uma lista de femininos. Seria deprimente (na verdade, deveria escrever outra palavra).
Espero que ninguém diga que um texto como esse insinua algum tipo de imoralidade ou que é uma defesa sub-reptícia da poligamia ou da infidelidade matrimonial...
Frases curtas são bons materiais para este tipo de análise (já falei muito disso, aqui), porque o controle do texto pode ser facilitado. Atividades aparentemente banais como esta aguçam a mente dos alunos, e os deixam atentos para ver coisas similares nos textos que devem ler continuamente. Autor defunto / defunto autor logo deixa de exigir longas explicações.
O poeta é um fingidor (finge dor?) / finge tão completamente (mente?) / que chega a fingir que é dor (fingidor, finge dor) etc. Pode não ser uma leitura a ser defendida em um congresso, mas não ver esses jogos no texto é muito pouco.
Piadinha oferecem "detalhes" que desenvolvem o ouvido e o cérebro: - O que a célula disse ao barbeiro? - Mitose. Diversas coisas são interessantes (mas não se trata de nada transversal...). Mas olhe-se de perto "mitose". Pode-se sacar a forma "me tose", que não é mais uma só palavra nem se escreve com "i". Claro, pode-se ver também que, se "me tose" gera uma piada, "tose-me" a impede... Lição de sintaxe do português vivo?
Uma charada como "adora regiões" (dica: estado brasileiro), cuja resposta é Amazonas revela uma questão semelhante: como saber se "amazonas" é uma palavra ou se são duas? Se estivermos lendo textos que tratam do Brasil, de seus estados etc., por mais que, ao ler "amazonas", o demônio do duplo sentido nos assalte, temos que reprimir esta tentação e ler uma palavra só. Mas se estamos jogando e não descobrimos que "gosta de" é igual a "ama" e "regiões" é igual a "zonas", então estamos ficando com a cabeça seca...
A verdadeira língua não diz sempre "o gato mia" ou "Eva viu a uva" (essa até que é boa, comparada com a outra), mas é (seria) muito melhor poder ler
- Ave, Eva!
- Ave, Adão"
dividindo as palavras de outra forma na resposta de Eva. No Éden se falava português? Pode ser que não, mas no reino das piadas, pode ser que sim. E o casal parecia bem humorado, antes de a cobra se meter (epa!).