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Segunda, 24 de outubro de 2011, 08h43

Uma primavera árabe udenista

Edmilson Lopes Júnior
De Natal (RN)

Há algo de inusitado no comportamento de certos setores da imprensa brasileira em relação às manifestações contra a corrupção: saíram do apoio em matérias e editoriais para, suprema ousadia, dirigi-las desde as redações. Apelando às chamadas "redes sociais", sonham com massas sublevadas entoando slogans que reafirmem a sua pauta conversadora, com destaque para o voto distrital.

Em que pese o raquitismo das manifestações, as manchetes de alguns jornais e de certa revista semanal remetem-nos a um mundo parecido com aquele da Praça Tahir, no Cairo, nos dias que precederam à queda do ditador Hosni Mubarak. Tudo se passa como se o país estivesse ruindo e uma nova ordem prestes a emergir. Obviamente, não descarto a possibilidade de que parcelas da população se deixem seduzir pelo canto da sereia e, em um futuro próximo, tomem as ruas e praças das grandes cidades brasileiras com antigas bandeiras da UDN nas mãos. Não parece ser essa a possibilidade mais forte, no entanto.

Quem, em domínio razoável de suas faculdades mentais, colocar-se-ia contra o combate à corrupção? O problema é que sabemos, pelo menos desde os tempos em que Carlos Lacerda incitava os militares contra Getúlio Vargas, que essa é a "bandeira de luta" que resta aos que não possuem mais bandeiras no terreno da política. O moralismo é o ocaso de qualquer política. É, acima de tudo, a aversão conservadora ao embate de posições no espaço público. Especialmente quando essas posições são alimentadas por interesses legitimamente construídos no duro chão da vida social.

O udenismo é a configuração histórica mais vistosa do moralismo na política brasileira. E a sua grande vitória política foi a eleição de Jânio Quadros, em 1960. A contribuição do "homem da vassoura" à miséria política nacional, sabemos todos, não foi pequena. Nem falemos das "Senhoras de Santana", as avós ideológicas dos manifestantes anticorrupção de nossos dias.

O udenismo mudou de cara, mas não tem como alterar radicalmente suas práticas. Sua produção discursiva mira depreciativamente pessoas, especialmente àquelas cujas trajetórias traduzem, mesmo que simbolicamente, a ascensão política "dos de baixo". Getúlio Vargas, ontem; Lula, hoje. E se houver alguma possibilidade de tomar como alvo um ministro negro, pode-se esperar linchamento político.

Quando analisamos os discursos produzidos pelos combatentes anticorrupção nas ditas redes sociais damo-nos conta de que a fantasia de uma "primavera árabe" nos trópicos é apenas mais uma farsa em uma história já farsesca em demasia. Nesses discursos, caso alguém tenha paciência de sistematizar uma análise de seus conteúdos, escreve-se sobre corrupção, mas o alvo são os pobres e os nordestinos. Nada de novo, portanto.

Edmilson Lopes Júnior é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Fale com Edmilson Lopes Júnior: edmilsonlopesjr@terra.com.br

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