Atualizada às 08h22 Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Há três semanas, a coluna comentava brevemente algumas frases selecionadas de uma seleção maior, levada ao cabo por Ruy Castro. Há interessantes problemas (e teorias que tentam resolvê-los) em torno da questão. Um problema diz respeito ao fato de que há frases que são separadas de seus textos originais e alçadas a um patamar diferente: parecem - ou pretendem - expressar verdades incomuns, universais e atemporais. Têm um tom específico (Maingueneau diz que se trata de frases que aparecem em textos, mas que, de certa forma, não pertencem, ou pretendem não pertencer, a eles). Provérbios são uma espécie de modelo desse fato. Ocorre que, muitas vezes, provérbios são enunciados com introduções do tipo "como se dizia antigamente", "como diz minha avó", etc. É só mais um problema.
Eventualmente, essas frases têm um efeito humorístico específico - que nem sempre é o mesmo. Às vezes, apenas se retoma um estereótipo (homens têm inveja de pênis maiores que os seus). Mas, às vezes, há uma espécie de ideologia embutida, como em "No carnaval, alegoria de pobre dura pouco", que provoca um sorriso amarelo, exceto, talvez, em Luiz Felipe Pondé...
Comento a seguir um texto em que frases deste tipo apareceram em bom número. Em 15/08/2011, o Caderno Folhateen publicou, na última página, uma "história" em quadrinhos de Adão Iturrusgarai. O que chamava atenção era a série de "aforismos", proferidas um homem num palco, fazendo um show. Foi apresentado como o maior frasista de todos os tempos. Era animado, descolado, e, à medida que era aplaudido, seu ânimo melhorava.
A platéia faz pedidos, ele vai criando frases. Exemplos: - Uma frase com "Hipster"... - Um hipster é um hippie sem pulgas! (PALMAS). - Uma frase com "macumba"... - O macumbeiro era um sujeito muito despachado! (PALMAS). - Agora com "refresco". -Tang nos olhos dos outros é refresco! (PALMAS).
Os pedidos desaparecem (obviamente estão implícitos) e as frases se sucedem, sempre com ponto de exclamação (implica um tom solene):
Meu pai era dono de um desmanche de carros. Era um homem muito autodestrutivo!
- Tenho pecado religiosamente!
- "Incensato coração". Nova novela iogue!
- Punk só negocia títulos podres!
- "Siririca" é um siri com pelos nas mãos!
- A convenção de terroristas está bombando!
- Quem lucra em cima dos outros é garoto de programa!
- O pônei é um bonsai de cavalo!
Algumas frases exigem atenção especial a certas palavras (autodestrutivo tem uma relação com automóvel, que retoma "carros"; "religiosamente" deve ser lida como "frequentemente", mas, ao mesmo tempo, considerada literalmente (!), como derivada de "religioso", porque é assim que contrasta com "pecar"; convenção de terroristas "bombando" evoca "bombas", ao lado de seu sentido gírio, "fazendo grande sucesso" etc.
Outras frases exigem um certo tipo de saber, implicam uma memória, um discurso que que circula. Por exemplo: para compreender ""siririca" é um siri com pelos nas mãos" é preciso "lembrar" que se disse durante muito tempo, especialmente em internatos, que a masturbação provoca problemas, entre os quais fazer crescer pelos nas mãos; ""incensato coração", novela iogue" supõe um saber: a presença de incenso em ambientes em quem se pratica ioga. Etc.
Escrevo sobre isso por duas razões: sobre este tipo de material, estou preparando uma comunicação para um congresso (lá eu cito bibliografia, as coisas ficam um pouco mais solenes). Mas também porque estamos em pleno ENEM (de novo!).
Sei que não deve ser fácil fazer provas diferentes, especialmente que não sejam as ditas "objetivas", em casos assim, com milhões de alunos. Acontece que, nas provas objetivas, praticamente desparece a possibilidade de avaliar uma leitura que não seja a descoberta de um conteúdo do texto (o que é pouco e muito banal). Às vezes, o aluno deve escolher uma opção que avalia uma posição "ideológica" em um poema ou em uma reportagem "crítica". O maior problema é que as opções vêm prontas. O candidato só precisa escolher a correta. Frequentemente, apenas a menos pior, ou a única que faz algum sentido.
É pouco. E é pobre.