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Quarta, 9 de novembro de 2011, 10h37 Atualizada às 11h41

Alunos da USP aplaudem presos e celebram com Marcha Soldado

Dayanne Sousa

Centenas de estudantes se reúnem entre carros, barracas de pão de queijo e distribuidores de panfletos no prédio dos cursos de História e Geografia na Universidade de São Paulo na noite de terça-feira (8). O clima é tenso. Os alunos tentam decidir pelo levantar de mãos se haverá ou não uma greve que paralisa as aulas.

- Questão de ordem!
- De novo?
- Essas questões de ordem tão atrapalhando a votação.
- Vota logo! É greve, é greve!
- Estamos tendo divergência de entendimento, vamos votar de novo...

Longe da indecisão, um homem saca da bolsa sua flauta e começa a embalar a contagem de votos. Tu-tu-tutu-turututututu...

- Está decidido! Está declarada a greve geral dos estudantes da USP!

Tu-tu-tutu-turututututu... O "Marcha Soldado" parece cada vez mais alto.

A melodia logo toma conta do prédio. Silêncio. Só se escuta o flautista... "Quem não marchar direito, vai preso no quartel!". Ao fim do número, os aplausos são a única decisão unânime do grupo diverso que se junta no campus escuro.

A greve foi tirada como uma reação à prisão de 73 manifestantes que ocupavam a reitoria em protesto contra a presença da Polícia Militar no campus. Antes de consumada a decisão, os estudantes eram constantemente lembrados dos colegas detidos às 5h daquela madrugada e que só saíram mediante pagamento de fiança. A maioria aplaude.

- Nossos companheiros presos voltam direto para a Universidade! - diz ao microfone um dos que organizam a plenária. Comemora-se. Mas nada é consenso. Logo ao lado, um estudante de Geografia minimiza: "Tá bom, os caras tão presos, mas também não são mártires. Pera lá!".

Apesar de cheia, a assembleia revela a insatisfação de grande parte com o discurso que alguns usam para inflamar os ânimos.

Uma jovem tenta puxar o coro: "Quem disse que sumiu? Aqui está presente o movimento estudantil". Arrebata uma meia dúzia apenas. O termo "movimento estudantil", aliás, faz alguém no fundo revirar os olhos toda vez que é pronunciado. É um jovem que cursa Ciências Sociais e estava ali decidido a brigar contra a greve. Outra colega de curso veio para a Universidade preocupada com as notas de uma prova. Se surpreendeu com o cenário, mas apoiou os manifestantes.

Outro coro: Libertem nossos presos, libertem nossos presos!". E mais algumas reviradas de olhos. Todos só se unem mesmo para engrossar um "fora PM, fora PM". Os comandantes da discussão percebem. Logo, o "fora PM" é tascado toda vez que os votantes começam a dispersar.

Do lado de fora, um rapaz posa pra fotos todo vestido de cor de rosa. Usa uma toalha e pregadores para esconder o rosto, mas às vezes deixa a face descoberta para terminar de fumar um baseado. É o único, por sinal, que faz questão de acender - com o beck - a polêmica que deu início aos protestos. No dia 27 de outubro, a detenção de três estudantes que usavam maconha foi o estopim dos protestos que pedem a saída da PM e reclamam de repressão na Universidade.

Como todos os outros, o manifestante cor-de-rosa se recusa a dar nome. Sorri apenas. Responde o mesmo "pode ser" quando perguntado sobre a greve ou sua participação nos protestos na reitoria. Até que um colega a seu lado assume a conversa: "O negócio aqui é que cada um é uma coisa mesmo... Não coloque as respostas na frente das perguntas".

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