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Sexta, 11 de novembro de 2011, 08h04

O dono do século

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Nova geração vai ter que desderreter geleiras e refazer o Ártico e os ursos brancos, os pandas, e mais uns milhares de espécies que a gente talvez ...
Nova geração "vai ter que desderreter geleiras e refazer o Ártico e os ursos brancos, os pandas, e mais uns milhares de espécies que a gente talvez tenha ajudado a extinguir"

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Não, caros leitores, não estamos falando do Sarney, que foi dono de todos os séculos, do 16 até agora. O século de que falamos é esse, novinho, que começa a se apresentar diante da gente com os seus jeitos e manias. E o século 21, estimados leitores, tem dono, e ele se chama Manuel.

Quem nasce nessa época já começa com mais de 80 anos de expectativa de vida. Como em breve já vamos ver os efeitos da pesquisa das células-tronco, apesar do Papa e do Bush, como em breve o cigarro vai ser combatido pra valer e como o sertanejo universitário vai ser proibido por emenda constitucional, quem nasce hoje vai viver mais de 90 e atravessar o século com enorme facilidade. Assim vai ser com Manuel e, portanto, ele é o dono do novo século.

O que ele recebe é uma consequência direta do que aprontamos nós, os donos de todos os tempos até agora, como Sarney, e os que fizeram o século 20 ser como ele foi, ou seja, nós, adultos. Nossa responsabilidade foi tudo que aconteceu no final do século 20, que vai de 1989 e a Queda do Muro, até ontem. Pegamos um mundo tumultuado e sofrido até o limite, por conta das guerras mundiais e da Guerra Fria. Desentortamos um bom pedaço, tanto que vastas partes vivem hoje em democracia e uma boa dose de paz, na comparação com o que houve desde sempre.

Trouxemos a luz para todos, ou a eletricidade ao menos, já que gente demais segue na escuridão das igrejas e seitas e homeopatias. Inventamos vacinas para quase tudo. Quem não sabe ou não lembra; não sabe que até 1957 qualquer criança nascia com o risco real de ter pólio. Morríamos de varíola e sarampo, até essa geração que passa o século adiante dar um jeito nessas mazelas. Manuel e turma não fazem ideia do que seja isso.

Reduzimos a fome como nunca, mas colocamos tanto carbono na atmosfera que o planeta se transforma em uma grande e aquecida churrasqueira. Foi mal. Arrumem um jeito, se ainda der. Pegamos um mundo no qual havia uma marca de jeans e duas de tênis e deixamos essa constelação de marcas e shoppings. Fomos até a lua, os americanos foram, e inventamos a Barbie Bailarina, eles de novo. Quando assumimos, a televisão era movida a Bombril e pegava dois canais, com sorte. Ah, em preto e branco, do jeito que muita gente ainda prefere viver até hoje. Sabe esses canais todos a satélite? Foram coisa nossa. Os satélites também. Nada mal para uma geração, uma e meia, por aí, e que teve o Sarney atrapalhando o tempo inteiro.

Passamos por uma sequência de ditaduras que deixou cicatrizes por todo lado, mas adaptamos o conceito radical de constituição e democracia para a América Latina o que foi um enorme, enorme, avanço. Avanço é medido pelo que havia antes, não esqueçam.

Conseguimos nos livrar do Chevette Hatch, o que foi uma enorme realização, mas criamos o Tucson, um enorme desserviço para a humanidade. Vivemos desde 45 com bombas atômicas por todo lado, mas conseguimos um jeito de que elas jamais fossem usadas, o que não deixa de ter os seus méritos. Manuel e turma vão ter que desativar esse sistema. Boa sorte.

Vão ter que desderreter geleiras e refazer o Ártico e os ursos brancos, os pandas, e mais uns milhares de espécies que a gente talvez tenha ajudado a extinguir. Com sorte, vocês vão ter água apenas pelo pescoço e vão conseguir baixar o nível do mar em tempo. Com sorte, dependendo de onde ficar o registro.

Temos a questãozinha da Amazônia, que não sei se vira descampado ou se vocês vão reverter a serraria maluca em que isso se transformou, por conta de descuidos de toda parte, de interesses arcaicos de todos os lados, e, claro, do Sarney.

Vão precisar se virar sem o Steve Jobs, que seguramente era um excêntrico, mas sem ele não teríamos o iPhone e suas consequências. Vão ter que descobrir o que era uma carta no Museu do Século 20, e vai ser dificílimo compreender o conceito de selo. Não sei como vai ser namoro, casamento; se as mulheres ainda vão ter interesse nesses trastes também conhecidos como homens ou vão ter criado alguma solução mais bem cheirosa do que a gente. Não sei de muitas coisas, e ainda assim, é desse jeito que passamos bastão do novo século para a nova administração.

Manuel nasceu no dia 9 de novembro, o mesmo dia em que o Muro de Berlim caiu. Que você derrube muitos muros, os que ainda impedem as pessoas de viverem dignamente a sua condição de pessoas. Que a sua geração acabe de vez com anacronismos como homofobia, racismo e televangelistas.

Eu sinto que fomos bem, relativamente bem, relativamente mal, dependendo de qual lado do copo estejamos observando. Eu sinto que fiz a minha pequena parte, e os livros são a maior parte dela, e sigo fazendo, mas apenas como rito de passagem, porque agora a bola passa para melhores mãos.

Bem vindo ao mundo, Manuel. Bem vindo ao mundo. Ele agora, e para sempre, é seu.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

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