Terra Magazine

 

Quinta, 17 de novembro de 2011, 07h51

McCartney no Maracanã, fim de mundo na Bahia

Reinaldo Marques/22.mai.2001/Terra
Em sua mais recente passagem pelo Rio de Janeiro, em maio, Paul McCartney fez show no Engenhão
Em sua mais recente passagem pelo Rio de Janeiro, em maio, Paul McCartney fez show no Engenhão

Paquito
De Salvador (BA)

Nada, só uma vontade de ficar quieto no canto, reparando nas coisas pequenas, admirado e meio-sorrindo das coisas grandes.

Show de rock em estádio, por exemplo, é uma coisa que parece grande, mas, vai ver, é um negócio que toma as manchetes, reúne um bocado de gente, e aí vai embora como chegou, vira um quase nada. Eric Clapton, Paul McCartney, Stones.

Antes, no Brasil, era um acontecimento o show de estrelas internacionais, como quando Paul cantou no Maracanã e foi recorde de público. Eu estava lá, pois morava no Rio, e não tinha como não ir. Era quase como se os Beatles tivessem vindo ao Brasil. O quase faz uma diferença e tanto. Lennon tinha sido morto há dez anos. Sem ele, não haveria Beatles de novo. Na verdade, como Lennon disse, lucidamente, nem se fossem realmente os Beatles de volta, seriam eles. Os anos sessenta tinham acabado.

No fim, naquele Maracanã cheio, grande e opressivo, fiquei tão distante que só vi Paul quando o piano em que ele tocava foi levantado. Tinha uma pessoinha ali, a voz parecia a dele, e o telão confirmou. Mas ficou a impressão de que fui ao estádio pra ver televisão num aparelho gigante.

No início do show, no entanto, reconheço que a emoção tomou conta, pois o telão mostrou os próprios Beatles no show do Shea Stadium, tocando A hard day's night, em 1965. Parecia que os Beatles tinham chegado no Brasil. Parecia que o Shea Stadium era no Rio de Janeiro. E estávamos em 1965.

Mas foi bem rápido. Depois entraram umas pessoinhas no palco e o show prosseguiu, em 1990. De verdade, lembro que, no meio daquela multidão, houve outra comoção: de repente, um som foi crescendo vindo do público, e se transformou em vaia espontânea e inevitável, urgente. Havia chegado a então ministra Zélia, do governo Collor, que tinha metido a mão na poupança da gente, sem pena nem dó.

Zélia, uma pessoinha ali na multidão. Nós, uma multidão de pessoinhas, em pé, balançando os braços, fazendo aquele negócio ali ficar grande, pra sair no jornal no dia seguinte.

De verdade, esse texto aqui tipo "que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado: show em estádio, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco", é porque esse tipo de show é um negócio tão dispersivo pra mim, que esqueço da música. Os artistas distantes, e a música de fundo, um plus criando clima pro evento ritual, religioso, e eu não sou de rituais religiosos, no sentido mais estrito do termo.

Eu gosto de shows em teatro, onde a acústica é melhor pra se ouvir a música. Mas parece que, na Bahia, show em teatro é ancestral. Bem que o primeiro show da minha vida foi num local aberto, e inesquecível. Eu vi o grupo Secos & Molhados na Concha Acústica do Teatro Castro Alves - menor que um estádio -, e devia ter 10 anos apenas. As crianças amavam o Secos & Molhados, e aquele homem meio-mulher ali na frente, cara pintada, quase nu, sexo concentrado e, ao mesmo tempo, indefinido e difuso. Ney Matogrosso comeu uma flor no palco. No meio daquela dança, daquele som, daquelas canções, nunca esqueci a flor nos lábios de Ney. A flor e os lábios se transformaram numa coisa só, rósea, viva.

Quanto aos shows em estádio, a culpa foi mesmo dos Beatles. Os caras que cristalizaram o pop e inventaram o vídeo-clip, além das canções e dos álbuns, deram a largada no período dos shows gigantescos, justamente com a apresentação do Shea Stadium, em 1965. Hoje é bonito de se ver no vídeo. Pra quem viu in loco, deve ter sido uma emoção só, mas o público não ouvia a música. O som era o mesmo utilizado para as transmissões de partidas de beisebol, insuficiente para a transmissão de música. Eles inventaram a moda, e, em 1966, pararam com as apresentações ao vivo para se concentrar no trabalho em estúdio, onde fizeram o seu melhor. Hoje os shows gigantes são tecnicamente melhores, sem comparação com aquele dos Beatles, mas ainda prefiro lugares menores, como os teatros.

A primeira vez que vi João Gilberto. Teatro Castro Alves, uma pequena orquestra. Aquele homem e seu violão. O violão se destacava, havia um microfone pegando o som da pequena orquestra como um todo, sem neutralizá-lo. João começou com Você já foi à Bahia?, de Caymmi, e apresentou, naquela canção, a Bahia aos baianos. Quem assistia estava em Salvador, mas não conhecia a Bahia. A senhora cheia de caprichos e requebros chegou, de verdade, naquele show de João Gilberto. Que teve, como todos seus shows, também um quê de ritual. Religioso no sentido lato. Simples, discreto, e a música na frente.

A Cidade da Bahia ainda guarda seus mistérios e só se dá a conhecer de quando em vez. Como se explica a chuva fora de época nestes dias de novembro? Os deuses devem estar zangados com os governantes, o metrô fantasma, a violência. Não tá bolinho, diria um amigo meu erudito, voz grave. Na TV local, se vaticinou que seria o fim do mundo, novo dilúvio, sugerido pela data algo cabalística 11/11/2011.

Para quem reside em encostas, é mesmo um fim de mundo. Para nós, baianos, é um lento apocalipse, só perceptível quando instaurado. Zezé, a diarista da minha namorada, recebeu a ligação de um vizinho, alarmado com a chuva impiedosa, temeroso de perder a casa, por conta do provável desmoronamento de um morro próximo.

Zezé é uma preta bonita, cujo sorriso parece abraçar o mundo em torno, e não se abalou:

- Se é o fim do mundo mesmo, foi um prazer te conhecer e ser sua amiga. Na próxima encarnação, só não quero voltar pobre.


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

Exibir mapa ampliado

O que Paquito vê na Web

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol