Sírio Possenti
De Campinas (SP)
A possibilidade de fazer comentários a textos no calor da hora é um dos efeitos da leitura. Num certo sentido, a "resposta" do leitor é uma pista de como ele leu (como decifrou o texto, quais relações estabeleceu com outros textos, se concordou com ele ou não etc.).
Na verdade, anotar é uma das formas mais sofisticadas de leitura. Chartier se tornou conhecido entre outras coisas por ter mostrado diferenças relevantes entre leituras de códices e de livros (e, depois, de telas de computador), exatamente porque os primeiros não podiam receber anotações e os segundos, sim. Muitas pesquisas sobre "influências" se basearam em boa medida nas notas às margens dos livros, feitas por leitores que de fato "interagiam" com os textos.
Neste espaço, durante um bom tempo, eu respondi a observações de leitores, até mesmo às de alguns que se escondiam no anonimato para escreverem cretinices inomináveis. Agora as regras mudaram. Como não "tuito" nem "feicebuco", não pude comentar as reações de alguns (poucos) leitores à coluna da semana passada.
Comento agora. Claro que não há quase nada neste caso a ser comparado com os que Chartier analisou, seja pelo valor da coluna, seja pelo dos comentários. Mas nem por isso o caso deixa ser relevante, como se verá. As "respostas" se devem também à relação deste caso com outros, mais graves. O que se lê de besteira sobre o caso USP, por exemplo, é de doer. Que o país sempre se saia mal em testes de leitura é algo que nunca mais vai me surpreender.
Um dos comentários começava elogiando as opiniões geralmente expressas na coluna para, em seguida, criticar a análise do texto da FSP sobre protecionismo. Curiosamente, o leitor acabava por fazer a mesma leitura que eu fizera! Fiquei diante de um dilema: ou o leitor não entendeu meu texto ou não entendeu o dele.
Mais interessantes do que este comentário foram dois outros, que se repetiam (ainda bem que a Aline entrou em cena. Eles deviam pedir-lhe umas aulas de leitura!). Eu era acusado de criticar as manchetes pelo fato de não conhecer as regras de uma redação de jornal. O raciocínio é bem tosco. E modesto demais para uma fase tão luminosa da história de humanidade!
Bruno Uchôa escreveu: "Será que o lingüista já esteve numa redação e sabe que existe uma diagramação do Jornal e que o título precisa preencher o espaço destinado a ele? E por isso nem sempre o melhor título é o que pode ser usado! Todos têm em mente um título simples e adequado, mas nunca cabe no espaço".
"O título precisa caber" no espaço? Então é isso? E onde ficam os redatores inteligentes? Por este "raciocínio", o jornalismo se submete ao diagramador! Para que servem repórteres e redatores? Um diretor não pode apenas dizer aos repórteres que os textos não podem ultrapassar 20 linhas!
Embora em escala menor, vale a velha frase: a guerra é algo muito sério para ser entregue a generais. Mesmo tendo conhecido redações apenas em visitas esporádicas, não acho despropositado criticar o que sai delas. Se as manchetes devem ter, pelas regras de um jornal, determinado tamanho, trata-se apenas de uma regra do jornal (não está na Bíblia, nem no Corão, nem na Constituição). Jornais podem mudar regras, parece. Basta haver algum tipo de interesse (competição?) e um diretor com boa cabeça.
Além do mais, uma das minhas sugestões nem abreviava a manchete nem a alongava: apenas mudava a ordem dos constituintes. Seu tamanho era exatamente o mesmo. Como os leitores puderam não ver coisa tão óbvia?
O que mais espanta, no entanto, é o tipo de raciocínio: já que não conheço uma redação, não posso criticar o jornal que ela me entrega.
Veja-se como o raciocínio é absurdo. Suponhamos que eu criticasse (como quase todos) a corrupção na polícia: a resposta seria que eu precisaria ser policial para compreender seu funcionamento (o que equivale a defender a corrupção).
Suponhamos que eu critique a definição da pauta do Supremo: ouviria que, não sendo ministro desse colegiado, não conheço suas regras (a pressões!). Mas são exatamente as regras que estou criticando!
O leitor pode fazer a lista que quiser (da seleção do Mano à escolha do papa). A crítica era dirigida exatamente às manchetes tais como são feitas. Por tabela, às editorias de cada caderno, seja por preferirem submeter-se à centimetragem, seja por preferirem a obscuridade, seja por preferirem a falta de ritmo.
Se o raciocínio valesse, minha resposta poderia ser que tais leitores não conhecem meu estilo de trabalho. Se o conhecessem, não o criticariam.