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Domingo, 20 de novembro de 2011, 14h58

Marx e a utopia brasileira

Francisco Viana
De São Paulo

No dia 25, a próxima sexta-feira, estarei lançando o livro Marx e o labirinto da utopia, na Academia Paulista de Letras. Trata-se de um enfoque humanista de Marx em oposição ao utilitarismo dominante, expresso na prática dar-receber-dar, criando-se, assim, um ciclo vicioso que sabemos onde começou - a ascensão do neoliberalismo, há cerca de 50 anos -, mas não sabemos onde nos conduzirá. Fico me perguntando: como Marx analisaria hoje a atual sociedade brasileira.

Dar-receber-dar, e assim sucessivamente, são critérios de troca de mercadorias que fazem do homem ser um nada e eleva a produção e os interesses individuais à condição de Deus. Em outras palavras, o homem se transforma na própria mercadoria e se autoconsume no consumismo. No Brasil de hoje esse tipo de alienação vem sendo gradativamente dissolvido, inclusive por exigência da própria realidade, mas ainda falta um longo caminho a percorrer. Vejamos alguns exemplos práticos.

1.Todos reclamam da corrupção, mas o combate à corrupção ainda está muito limitado ao Executivo. A presidente Dilma Rousseff tem efetuado degolas - seis cabeças de ministros já rolaram e uma está para ser decapitada -, mas onde se encontra a mobilização da sociedade? O movimento anticorrupção pode ser considerado pífio enquanto não colocar mais de um milhão de pessoas nas ruas de Brasília, São Paulo, Salvador e outras capitais de importância. E políticos acusados de corrupção se candidatam e são eleitos para importantes cargos públicos. Por quê? Qual é a responsabilidade da sociedade nesse triste processo?

2. É a mesma coisa que acontece com a homofobia. Como festa, acontecimento que relembra o início das antigas colheitas, a parada gay é um sucesso autêntico, mas onde estão as mobilizações contra as agressões a homossexuais? Onde estão os porta-vozes dos movimentos gays? Onde...? Repetimos a festa, mas não avançamos naquilo que realmente interessa.

3. Os partidos políticos perderam a força e precisam se revigorar. É deles que precisa partir o grande movimento de mobilização e educação política do brasileiro. Dos partidos, dos sindicatos e das grandes organizações da sociedade, do tipo entidades de classe e organizações de bairro. É preciso dizer não, basta, chega. O País precisa mudar. Precisa utilizar, e utilizar bem, os seus espaços democráticos. Mas onde estão os partidos? As entidades de classe? Onde estão as pessoas de ação?

No campo econômico, por exemplo, precisamos de mais concorrência e mais efetividade da lei. Um exemplo prático são os portos. Para onde vai a concorrência? Enquanto a Justiça não for democrática e gratuita, acessível melhor dizendo, avançaremos pouco. A ação é a grande forma de comunicação dos dias atuais. Marx diria isso, se vivo estivesse. Pois foi o que ele disse aos operários europeus, em especial ingleses, quando vivo estava. Foi graças a ele que a Inglaterra tornou-se o país mais justo do planeta (e seguramente ainda continua sendo), pelo menos no âmbito interno. Graças a Marx, mas sobretudo aos que se mobilizaram, agiram. Transformaram a vontade em prática construtiva. E o Brasil, para onde caminha?

É preciso ser otimista na ação e cético na avaliação, como ensinava Gramsci. O ceticismo fica por conta da análise que precisa descer sempre à raiz das coisas, à raiz da vida, à raiz do homem. Na realidade, o que temos perdido é tempo: tempo de transformação da sociedade, tempo das nossas vidas que se esvai nos excessos: excesso de tempo perdido no trânsito da cidade, excesso de burocracia, excesso de endividamento... Excesso de violência, excesso de problemas educacionais, excesso de trabalho... Excesso de letargia. O otimismo fica por conta dos avanços que estamos conquistando. Somos um grande país democrático, cresce a inclusão social. Cresce a indignação.

Quando penso em Marx e a sua utopia humanista, não uma utopia letárgica, mas uma utopia concreta de emancipação do homem humano, penso nas gerações atuais e futuras. Pergunto: onde está a nossa esquerda marxista (que é quase uma ficção no nosso país) ou não? Onde estão os jovens que trazem consigo a mudança das épocas? E, penso também na minha geração, hoje no poder. O que está fazendo? São questões a espera de respostas práticas. Respostas reais que mudem a vida e nos permita ter mais tempo para nos desenvolvermos como cidadãos, como pessoas. Como humanistas: esse o labirinto cujo fio a utopia brasileira precisa encontrar.

Francisco Viana é jornalista, mestre em filosofia política pela PUC-SP, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)


Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br

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