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Quinta, 24 de novembro de 2011, 08h00

Três notas

Roberto Vazquez/Futura Press
Protesto de estudantes da USP contra a presença da PM. Greve dos alunos completou duas semanas
Protesto de estudantes da USP contra a presença da PM. Greve dos alunos completou duas semanas

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

USP - Leitores estranharam que eu não tivesse comentado o caso USP. Então, comento. A primeira observação que faço é que, quando se trata de questões políticas, sempre se pode encontrar "defeitos" no adversário. O complicado é quando nunca encontramos defeitos em nossa posição. Os textos sobre o caso mostram uma face nada boa da espécie humana. Sectarismo exagerado, que se traduz principalmente na incapacidade da crítica de si.

Sendo um pouco mais específico, diria que a leitura de artigos e cartas de leitores deixou claro que, pelo menos desta vez, as "esquerdas" foram bem mais sensatas do que "as direitas". Aquelas criticavam a reitoria, denunciavam abusos da polícia, diziam que a segurança na USP deve ser definida no interior de políticas universitárias, e admitiam claramente que, conforme a circunstância, a segurança do campus deve chamar a Polícia Militar. Não li nenhum texto que defendesse o uso de entorpecentes, dentro ou fora do campus. Li textos que defenderam a tese de que consumo é diferente de tráfico ou de comércio, com base na legislação. Também li que um dos erros dos que ocuparam a reitoria foi não ter seguido decisão da assembléia dos estudantes. Para confirmar, sugiro a leitura dos textos de Safatle, que representam bem as posições de "esquerda".

Por outro lado, a "direita" limitou-se a proferir agressões ou a repetir que os estudantes não estão acima da lei, como se alguém tivesse dito que estão ou devem estar (demandar "leis" específicas não é querer estar à margem da lei). Quem criticou a ação da polícia em relação aos três estudantes que foram pegos fumando um baseado foi considerado defensor de maconheiros. Mas ninguém "defendeu maconheiros". Para quem estuda simulacros, é um dado excelente. Para quem quer alguma objetividade, foi uma lástima.

Quem quiser ver a diferença, neste caso, entre a esquerda e a direita, deve olhar com mais de cuidado para a direita. Que preste atenção nas figuras e nas ações dos skinheads no campus da USP e na coluna de Luis Filipe Pondé na Folha de segunda-feira. Dois horrores.

RECALL - Quase todos os dias há convocação de uma empresa que se prontifica a substituir alguma peça de carro, moto etc. que apresenta defeito de fabricação ou de instalação. Quando é que as empresas privadas de ponta, que gastam milhões em propaganda, conseguirão errar um pouco menos? Bancos quebram, freios falham, quilos pesam 900 gramas etc. A Chevron por acaso é uma estatal? Quando deixaremos de acreditar que os critérios empresariais são melhores que os dos governos? Sempre que um candidato "novo" ameaça levar ao governo os critérios da iniciativa privada, tremo nas bases...

DUAS LÍNGUAS - Quando um jornal ou revista publica matéria sobre aprender ou ensinar segunda língua, é batata: não consegue deixar de falar de escrita, de alfabetização e de ensino de gramática. Por que não se pode, pelo menos uma vez, tratar a questão da segunda (ou terceira) língua considerando apenas seu aprendizado "natural", que tem a ver fundamentalmente com falar (sem ter aulas, que é como as coisas são nas famílias ou sociedades não monolíngues)? É notório que se pode perfeitamente falar duas línguas e ser escolarizado em apenas uma (caso freqüentíssimo nas regiões de imigração). Há casos mais complexos, como o de sociedades em que se falam mais de duas línguas, por razões diversas. Ora, nunca se ouviu dizer que é necessário tomar algum cuidado para que isso não cause problemas cognitivos. Na infância, desde que seja uma questão "natural" e de práticas significativas, não há limite para o aprendizado "espontâneo" de diversas línguas. Aprender duas é moleza! Na minha terrinha, na minha infância, todos os descendentes de bergamascos aprendiam bergamasco (que falavam entre si), vêneto (que falavam com os outros italianos) e português (que falavam no comércio, na igreja e na escola). Todos. E sem aulas.

As reportagens são inevitavelmente viciadas por duas hipóteses: a de que uma língua é sua escrita (a despeito da experiência de todos) e a de que o aprendizado passa por estudar gramática. A primeira tese é desmentida em todas as sociedades. A segunda, por todos os que fazem cursos de línguas, e que quase nunca conseguem falar.


Sírio Possenti é professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso, Língua na Mídia e Questões de linguagem.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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