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Quinta, 24 de novembro de 2011, 09h46

A vilanização do artilheiro

Wikipédia/Reprodução
Estádio do Vitória corre o risco de ser entregue à especulação imobiliária, critica jornalista Franciel Cruz
Estádio do Vitória corre o risco de ser entregue à especulação imobiliária, critica jornalista Franciel Cruz

Franciel Cruz
De Salvador (BA)

Conforme ensinam os especialistas em platitudes, nesta reta final dos campeonatos "não há mais espaços para erros". Assim, de prima, abandono as banais e erráticas prosopopéias de praxe, saco do coldre minha falsa erudição e desfilo nesta tribuna com o auxílio luxuoso e infalível do menino Machado de Assis, que, no final de Dom Casmurro, ordenou o seguinte: "Vamos à história dos subúrbios".

Então, sem mais delongas, sigo logo o conselho do epilético do Cosme Velho, furto outro gênio da cultura nacional, o Goulart de Andrade do Comando da Madrugada, e conclamo a nação: "Vem comigo para a periferia".

Seguinte é este. Ou melhor, foi este. No início da década de 70 do século passado, o brioso bairro de Canabrava, na zona periférica de Salvador, era uma espécie de Ilha das Flores sem Jorge Furtado por perto. Mas, não pense que isso era ruim. Ao contrário. O inverso foi o verdadeiro. Afinal, em vez de virar apenas um curta-metragem, o local transformou-se no palco de transcendentais e redentores espetáculos com a chegada de algo muito mais importante do que um cineasta: um estádio.

A partir de então, o local, que era apenas um monturo de lixo rodeado de gente por todos os lados, virou um monturo de gente rodeado de lixo por todos os lados com um campo de futebol no meio. O time, porém, que, como quase todos os clubes, foi forjado nos cafés aristocráticos - isto se existissem cafés aristocráticos na Bahia - não veio imediatamente junto com o Estádio.

Então, inicialmente a fórmula não se alterou muito. Era povo, lixo e um tantinho assim de circo, pois os jogos lá ocorriam muito esporadicamente. Nos cinco primeiros anos, foram apenas quatro partidas. E o bairro continuava esquecido e humilhado pelas grandezas da Bahia como tantos outros que não têm estádio, mas apenas campinhos de futebol de várzea.

No entanto, a partir de 1991, com a definitiva transferência da agremiação para o local, Canabrava deixou de ser invisível. E os políticos oportunistas (desculpem a boba redundância) logo trataram de levar alguns benefícios para a localidade. Assim, chegaram asfalto, iluminação e gols, muito gols. E o lixão virou Parque Sócio Ambiental. Já os badameiros, ganharam direitos de (quase) cidadãos. E viraram torcedores.

E nesta relação antropofágica, como não poderia deixar de ser, os moradores também comeram, digo, acolheram, a equipe. Assim, o Leão, nascido no rico bairro da Barra, transforma-se num time do povo. Aos que pensam que blefo, vejam a pesquisa mostrando que, atualmente, o Esporte Clube Vitória tem mais torcedores nos bairros periféricos do que nos (mal) ditos bairros nobres.

Outra consequência benéfica foi que o Clube, até então marcado por um histórico de minguadas conquistas, passou a ganhar títulos e mais títulos, tornando-se hegemônico no Estado. E eram povo e time felizes. A chibança foi tanta que, talqualmente nas mineiras canções românticas, a gente chegou um dia a acreditar que tudo era para sempre.

Acontece que a porra do futebol (não sei se alguém já falou isso) é uma caixinha de... pandora. E, seja lá que disgrama isto signifique na mitologia do Ludopédio, o fato é que a maldita caixa se abriu e fomos afligidos por todos os males. Assim, em 2006, em vez de estarmos em Tóquio ou Abu Dhabi como planejado, fomos parar em Coruripe, na Terceirona.

E foi neste quadro dantesco que (res) surgiu um mecenas, filho de um ex-presidente da familiocracia oficial rubro-negra, tirando dinheiro do próprio bolso e prometendo tirar o Clube do fundo o poço. E as promessas não pareciam vãs, já que em apenas três anos o Leão saiu do subsolo do futebol para figurar novamente na (mal) dita elite.

Aliás, por falar em elite, eles não dão ponto sem nó. Vejam vocês que tipo de gente perversa. Enquanto nos iludiam com efêmeros resultados, eles arquitetavam um plano maligno. Ao mesmo tempo em que levava o Vitória para a segunda divisão, perdia a decisão do Baianão em casa. E o nosso Santuário foi sendo conspurcado de modo contínuo e desavergonhado.

Ser eliminado em nosso estádio por potências do futebol como o Botafogo (da Paraíba) ou Baraúnas passou a ser uma rotina. Mas, não percebíamos, pois estávamos anestesiados pelo vil metal do mecenas e pelos ilusórios desempenhos, a exemplo de uma final de Copa do Brasil.

Porém, em 2010, a incompetência falou mais alto do que o dinheiro e voltamos a cair, novamente dentro de casa. E eles nos fizeram passar nova vergonha no primeiro campeonato do ano ao perdermos o título do Baianão em pleno Santuário para o Bahia... de Feira de Santana.

Então, tal e qual um Émile Zola lambuzado de dendê, J'accuse: esta nova tragédia contra o São Caetano no último sábado foi apenas mais um capítulo deste plano perverso de vilanizar nosso maior artilheiro, o Barradão. O fato é que a elite do Vitória não aguenta mais suportar o cheiro do povo e, por isso, quer entregar nosso estádio para a especulação imobiliária construir casinhas de pombo e assim pavimentar o caminho de volta para a velha fonte que tantas desgraças nos causou.


Franciel Cruz é jornalista e editor do blog Victoria Quae Sera Tamen (http://victoriaquaeseratamen.wordpress.com/).


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