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Quinta, 1 de dezembro de 2011, 07h58

Um caso interessante

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Em sua coluna do dia 15/11/2011 no caderno Mercado, da Folha, Nizan Guanaes procurou uma cozinheira. Pelo menos, assim foi lido. Ele reconheceu que errou na coluna de 28/11.

Guanaes dizia também que não está fácil encontrar serviçais pelo fato de que houve mudanças sociais no Brasil e ninguém mais se sujeita a certos trabalhos, porque há outras oportunidades e melhores salários.

Seu texto poderia ser lido como uma avaliação do mercado, pelo menos em um de seus aspectos, avaliação encenada de maneira peculiar. Ao invés de produzir um texto impessoal, que falasse "objetivamente" da situação (poderia dizer que os dados mostram que há dificuldade para encontrar certos profissionais ou contar a história de algum conhecido que passou pela experiência), Guanaes escreveu que ele mesmo procurava uma cozinheira. O que pode ser verdade ou não.

Não se trata de texto para ser relido. Muito menos para ser guardado. Mas apresenta um bom problema. Afinal, tratava-se de um anúncio ou era uma pequena avaliação da situação do país? Dizia que os títulos das propagandas devem ser chamativos, senão ninguém as lê - e dava como exemplo o próprio texto que se estava lendo. Este podia ser visto como um terceiro tema. O que mostra a precariedade do texto, pouco focado, como se diz hoje.

Ele poderia não ter aceito as críticas que lhe fizeram e dizer que foi mal lido, que ninguém sacou que fez de conta que procura uma cozinheira, mas que este era apenas pretexto para falar de duas outras coisas: dos predicados da boa propaganda e, como pano de fundo, da situação do Brasil.

Poderia não ter aceito, mas aceitou. E acrescentou uma tese sobre a importância dos jornais, dada a enorme repercussão do caso.

Eu reclamo frequentemente de leitores que pensam que encontram chifres em cabeça de cavalo. Por exemplo: falo das avaliações do caso USP e eles me atormentam com questões de que não tratei e das quais nunca vou tratar (corrupção, quantidade de droga traficada etc.). São questões de outros campos. Ou analiso um caso de gramática, apresento um dado, tento compreender ou explicar o que está acontecendo; mas eles acham que estou defendendo que a forma seja ensinada na escola e que seja incluída numa daquelas gramáticas.

Não sei se Guanaes procura(va) mesmo uma cozinheira. Mas, certamente, teria se "safado" se escrevesse seu texto em terceira pessoa. Leitores, às vezes, levam muito a sério o pronome "eu".

Por que o caso é interessante? Porque obriga a considerar de perto a questão dos campos e dos gêneros de discurso. Trata-se de jornalismo ou de publicidade? É uma coluna de opinião ou um anúncio do tipo "procura-se"?

Muitas reportagens parecem propagandas e muitas propagandas parecem reportagens. Para ler adequadamente, a primeira decisão que o leitor precisa tomar é relativa ao campo do texto. Ou dar-se conta do disfarce, quando é o caso.

Mudando de assunto, aproveitando uma deixa: na coluna de 28/11, Guanaes escreveu: "... o artigo tem de estar atento às subjetividades que Fernando Rodrigues quis me chamar a atenção em sua coluna".

Ele também não consegue (mais) "fazer" as relativas com preposição: num desses cursos que se anunciam para escrever certo, a frase seria corrigida: "às subjetividades para as quais F. R. quis me chamar atenção...".

Os falantes cultos estão falando cada vez mais frases desse tipo. Acabo de ouvir "... um tipo de jogador que você reclamava a ausência" em mesa-redonda. Antigamente, a frase teria sido "do qual você reclamava..." ou "cuja ausência você reclamava".

O que isso significa? Que não se percebe mais que aí haveria um erro. Em língua, só é "erro" o erro percebido. Quando não é mais percebido, é regra nova. É assim na história das línguas. Basta ver o que ocorreu na passagem (demorada) do latim ao português.

Espero que ninguém diga que estou pregando que a escola adote esta forma e obrigue os alunos a usá-la e a cobre nos testes...

***

PS 1 - Os comentários dos leitores confirmaram a tese da coluna da semana passada: quanto mais de "direita", mais grosseiros foram os comentários.

PS 2 - O artigo de Vladimir Safatle a que me referi na coluna anterior foi publicado na Folha no dia 15 de novembro, p. A2. Vale a pena ler. Mas com cuidado. É texto objetivo, não berra nem agride ninguém. Pode fazer mal a certos leitores.


Sírio Possenti é professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso, Língua na Mídia e Questões de linguagem.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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