Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Pois o bravo IBGE nos informa que a expectativa de vida dos brasileiros cresceu nada menos do que 11 anos nas últimas três décadas, chegando a 73,5 anos em média. Como o Brasil são vários Brasis, e os maranhenses já nascem devendo uns 10 anos pro latifundiário local, imagino que para um habitante do Brasil mais moderno a média seja maior, e do Brasil arcaico, menor. Nossa missão se torna, nesse caso, tornar o moderno mais moderno e o arcaico menos arcaico, desempregando Anthony Garotinho, José Sarney, Kátia Abreu e Fernando Collor no processo. Para mim, esse parece um bom projeto nacional.
Como recordar é viver, recordemos que já vivemos muito, mas muito menos. Em primeiro lugar, porque a expectativa de vida leva em conta os bebês que não chegam direito até ela. E nossos bebês morriam, muito. Em uma cena particularmente chocante do belo documentário A Invenção da Infância, uma mulher na miserável fila da água não consegue sequer lembrar quantos filhos perdeu, e as vizinhas precisam ajudá-la com as contas. É esse Brasil que precisa desaparecer, e, segundo o IBGE, está desaparecendo aos poucos.
Já vivemos muito menos, e a expectativa no século 18 não passava dos 35 anos na Europa. No século 19 ela subiu para algo como 48 anos e desde então não para de subir.
A causa? Menos mágica e menos religião, se não na teoria, na prática. Paramos de rezar pro padinho padi Ciço pra tudo, e começamos a vacinar em massa. Inventamos os antibióticos e paramos de morrer das coisas mais estúpidas. Até o século 19, caros e estimados leitores, uma mulher em três morria de parto. Hoje, algumas ainda insistem em partos de cócoras ao lado de um lago, mas em caso de problema, corremos até o hospital mais próximo com grandes chances de salvar o bebê e a sua um tanto hippie mamãe.
Ainda apelamos pra tolices como homeopatia e danças pra lua, mas, na média, não brincamos quando a coisa é séria. Vivemos o que vivemos, estimadíssimos leitores, graças à ciência. Seja na agricultura, seja na medicina, seja nos conhecimentos e práticas de nutrição, por tudo isso junto, e por nossos próprios meios. O padinho padi Ciço, que quer a nós e às criancinhas lá no céu, juntinho dele, não sei se gosta muito da extensão de vida que criamos. Para nós, que por via das dúvidas quanto à existência de outras vidas, preferimos aumentar a expectativa dessa aqui, ótimo.
O que acontece de interessante com viver mais é que isso nos cria um enorme problema. Antes, a gente, com exceção dos gregos, morria muito antes de desenvolver grandes questões existenciais. Pensar muito na vida como, se estávamos mortos de fome, de frio, e ainda por cima ou uma flecha ou uma gripe acabavam com a gente assim, num átimo? O casamento, por exemplo, foi inventado há muitos séculos, quando, em média, não passávamos dos 30. Assim, casar e prometer ficarmos juntos pra sempre era moleza. Pra sempre raramente queria dizer mais do que uns 10, 15 anos, e estávamos sempre tão cansados e com fome, que, na real, quem ia ter energia pra ficar pensando besteira sobre a vizinha do 406, ainda mais quando nem existiam edifícios?
Hoje, vivemos até os 80. Nos tornamos adultos ao redor dos 20, com exceções, claro. O que fazer com os longos anos que temos para viver?
Esse é o desafio da nossa era. Lidar com o longo tempo que passamos a ter e criar estruturas que dêem conta dele. Os casamentos não duram 40 anos, duram muito menos. As novas famílias não são mais biológicas, mas formadas por atuais e ex, maridos, mulheres, novas namoradas e novos maridos, filhos de um e outro casamento.
Precisamos redesenhar nossos sistemas para lidar com essas novas complexidades. Precisamos mudar a idéia de que a vida se encerra aos 60, e mudarmos a tal de aposentadoria para mais tarde, ou não vai haver jovens de sobra para sustentar jovens velhos que querem colocar o pijama e serem sustentados muito antes da hora. Precisamos mudar a cultura, que define o que é jovem e o que é velho. Nos anos 60, o mundo fez uma escolha por ser Beatle, e não nos livramos mais dessa adolescência compulsória.
Basicamente, precisamos redesenhar a mente para acompanhar o corpo, e é mais ou menos o que estamos fazendo, aos trancos. E precisamos fazer isso menos aos trancos, porque a idéia é vivermos muito mais, e no século 21, se ainda houver mundo no final dele, estaremos indo além dos 100, facinho.
Eu diria que tudo isso representa um bom problema. Encontrar o que fazer com a vida é muito, muito melhor do que ficar pensando no que fazer sem ela. Estarmos firmes e fortes aos 70 é bem melhor do que virarmos pó aos 50.
O paradoxo disso tudo é que o processo industrial, que criou esse montão de tempo de vida, é exatamente o mesmo que está fazendo o possível para liquidar com coisas importantes e que tornam a vida possível, tais como a tundra e os ursos polares, ah, e o planeta.
Nos próximos tempos, e com esse montão de vida que passamos a ter, o truque vai ser encontrar um jeito de preservar um avanço enquanto se reverte o outro. Não vai ser fácil, mas pensando bem, nunca foi. O mundo sempre foi difícil, e ainda por cima, sem anestesia no dentista. Aliás, sem dentista. Na comparação com uma vida sem dentista ou anestesia, reverter o aquecimento global só pode ser, tem que ser, moleza.
Vivermos muito, vivermos bem, e salvarmos as foquinhas e os ursos polares - ao mesmo tempo em que extinguimos os coronéis que ainda nos mantêm presos ao arcaico. Está aí o plano para o século 21. E como eu pretendo elevar a média de vida brasileira indo no mínimo até os 140, vou estar por aí atrapalhando no que der, porque essa é, afinal, a função dos escritores.
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"Hoje, vivemos até os 80. Nos tornamos adultos ao redor dos 20, com exceções, claro. O que fazer com os longos anos que temos para viver?"
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