Atualizada às 07h56 Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Foi muito chato ver as primeiras notícias - não nos jornais, que, para isso, estão ultrapassados, mas nas TVs e na internet. Era dia de Corinthians. Mas o Doutor Sócrates tinha se rendido a umas bactérias, depois de ter minado o fígado com sua cervejinha. Fazia parte de seus planos conversar sobre o tema com os jovens, parece. Mas não teve tempo. Mais do que ninguém ele poderia fazer um contradiscurso à propagandaiada de cerveja, mesmo que fosse apenas por sua estética: o alvo da propaganda é o jovem burro.
Sua vida foi curta para os padrões atuais, mas, ao que dizem seus amigos, foi vivida com intensidade. Viveu mais do que muitos que duram mais tempo. A vida não é justa: há tanta gente que não faz falta nenhuma, mas foi ele quem morreu.
Não podia faltar uma declaração estúpida de Leão. Entre tantas homenagens e lembranças, foi um dos maiores elogios que Sócrates recebeu. Para o futebol e para a vida, vale mais Sócrates morto do que Leão vivo.
Pensando bem, foi bom Sócrates não ter visto a final do campeonato, apesar do título do Corinthians, com cuja torcida ele dizia sempre que aprendeu muito. Com o povão, não com o clube! Se assistisse ao jogo, talvez morresse de chateação, vendo a bola apanhar na bonita tarde do Pacaembu. Afinal, ele fizera um time raçudo jogar quase como um Palmeiras que tivesse mais de um Ademir da Guia (jamais como o de Valdívia e Felipão, digno rival nessa feia partida).
Sócrates mostrou que se pode jogar futebol até mesmo sem ser atleta, no sentido besta que a palavra tem hoje, desde que se tenha cabeça (coisa não muito bem distribuída).
Eu tinha uma razão especial para gostar do jogo dele: na juventude, atuando no time do colégio ou no de Arroio Trinta, nunca fui malabarista, essa qualidade que os craques exibem antes do jogo. Mas eu acho que passava bolas que outros não passavam e minha média de gols era alta. Por isso, Sócrates foi meu jogador de futebol. As razões são análogas às que levaram Oscar a dizer que seu herói do basquete era Larry Bird - que jogou muito sem ter nada do que a natureza deu a Michael Jordan. Muitos foram melhores, nem há como duvidar. Mas talvez ninguém tenha sido jogador de futebol tão singular.
Ele merecia ter sido treinado por Tite, o técnico da "voltabilidade" solitária ao redor do campo, cujo léxico espanta a maioria dos jornalistas esportivos. As razões pouco têm a ver com problemas do treinador, se me entendem. Assim, até como colunista o Doutor vai fazer falta, embora fosse infinitamente melhor jogando.
Se não bastasse ter jogado muito, foi o principal nome da democracia corintiana, episódio significativo de nossa história política, que, infelizmente, nunca se repetirá. Quem viu, viu.
Vai, Magrão!
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Corinthians/Divulgação
Sócrates, ídolo do Corinthians
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