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Terça, 13 de dezembro de 2011, 08h08 Atualizada às 09h06

COP 17: empurrando com a barriga

Reuters
Ativistas do Greenpeace se vestem para festa de gala em protesto na COP 17. A placa diz business as usual, expressão que pode ser traduzida como o ...
Ativistas do Greenpeace se vestem para festa de gala em protesto na COP 17. A placa diz "business as usual", expressão que pode ser traduzida como "o mesmo de sempre"

Amália Safatle
De São Paulo

Alguns veículos de imprensa noticiaram como um feito histórico o acordo firmado anteontem na 17ª Conferência do Clima, em Durban, na África do Sul. A diplomacia estava exultante com a costura de um acordo entre 194 países sobre tema tão espinhoso e polêmico como é o corte de emissões de gases-estufa - quanto mais em plena crise financeira global, com um mundo desesperado por mais crescimento. O embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, negociador-chefe do País, qualificou o resultado como "robusto".

Mas, sob uma lente mais crítica e do ponto de vista climático, a COP 17 aparece como um grande empurrar-com-a-barriga. Pois o acordo em torno do qual o mundo todo se alinhou, que coloca de maneira inédita China, Índia e Estados Unidos na mesma mesa dizendo que assumirão metas, não passa, na verdade, de um adiamento da decisão.

A criação de um novo marco legal, que inclua todos os países foi acordada para somente 2015, e com entrada em vigor até 2020.

"Adiaram um acordo global vinculante por uma década, justo quando os cientistas dizem que precisamos estabelecer um teto para as emissões de carbono", declarou Kumi Naidoo, diretor-executivo do Greenpeace Internacional.

Com isso, ficaria praticamente inviável limitar em dois graus o aumento da temperatura média global, o que é considerado pelos cientistas como um cenário menos inseguro. As decisões levam para um cenário de aumento de 3 a 4 graus, o que implica em uma série de ameaças à vida na Terra em um horizonte devastador.

Em uma entrevista concedida à Rádio CBN, Ricardo Abramovay, professor titular do Departamento de Economia da FEA, atenta para a gravidade de os grandes poluidores não assumirem compromissos imediatos, lembrando que cada ano de metas não assumidas e cumpridas faz com que a necessidade de cortes nas emissões se acumule ano a ano, tornando o cumprimento cada vez mais difícil - e custoso.

Como salienta reportagem no jornal Valor Econômico, o Fundo Climático, voltado à adaptação e à mitigação do aquecimento, especialmente aguardado por países mais pobres e pelos insulares, ganhou um arcabouço institucional - mas não tem dinheiro. Alemanha e Dinamarca acenaram com, respectivamente US$ 53,5 milhões e US$ 20 milhões, quando o necessário, para fazer frente às demandas, é estimado em US$ 100 bilhões anuais.

Quanto à renovação do Protocolo de Kyoto para uma segunda fase (a primeira expira em 2012) o apelido Kyotinho já diz tudo: a adesão acabou restrita à União Européia, que representa apenas 11% das emissões mundiais. Alem disso, Kyoto, o primeiro protocolo que estabelece cortes nas emissões, limitadas aos países industrializados, tem metas modestas, que não fazem frente à necessidade brutal de cortes.

A tarefa é, de fato, hercúlea. Como escreveu o articulista John. M Broder no jornal The New York Times, trata-se de um desafio grande demais para os negociadores, para ministros de meio ambiente e para as próprias Conferências da ONU. Pois o que está em jogo, diz ele, é muito maior do que níveis de emissão ou fundos de compensação: é a política internacional. São as relações entre Europa, Estados Unidos, Canadá, Japão e as economias emergentes China, Índia e Brasil, guiadas pelas políticas internas e pelas tensões da crise financeira global.

"Lidar com o aquecimento global implica uma mudança nos modos de produção de energia, transporte e agricultura - os pilares da vida moderna", diz. Acresça-se a isso a mudança nos padrões de consumo.

Somente um pedaço dessa equação já é suficiente para embananar o meio de campo. Ao final de novembro, o Greenpeace divulgou um relatório em que demonstra como grandes poluidores do planeta, a exemplo de Shell, BASF, Eskom, ArcelorMittal, BHP Billiton e Koch agem para influenciar governos a evitar políticas que prejudiquem seu atual modelo de negócio, mesmo que isso vá na contramão de uma economia mais sustentável.

Segundo o relatório, corporações intensivas em carbono exercem influência atuando junto em think tanks e associações de comércio, fazendo doações a políticos e promovendo campanhas que confundem o público. Confira o estudo (em inglês), intitulado Who is Holding Us Back, em: www.greenpeace.org/international/Global/international/publications/climate/2011/391%20-%20WhosHoldingUsBack.pdf


Amália Safatle é jornalista e fundadora da Página 22, revista mensal sobre sustentabilidade, que tem como proposta interligar os fatos econômicos às questões sociais e ambientais.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 

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