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Quinta, 15 de dezembro de 2011, 07h58

Duas questões

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Queda do Muro de Berlin: Os regimes socialistas foram derrotados pela história. Dobraram-se aos fatos políticos, ou aos econômicos (o que confirma ...
Queda do Muro de Berlin: "Os regimes socialistas foram derrotados pela história. Dobraram-se aos fatos políticos, ou aos econômicos (o que confirma suas teorias?)"

Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Todas as ideologias funcionam como se fossem detentoras exclusivas da verdade. Algumas dizem que se fundam na razão, que seria neutra e universal. Portanto, a verdade estaria com elas. Outras se dizem fundadas na palavra divina, que seria uma garantia ainda mais sólida de que dizem a verdade.

Teorias científicas, muito frequentemente (mas nem sempre), decidem pendências com base em dados ou experimentos. Algumas desaparecem, vencidas por outras, que explicam mais fatos ou os explicam melhor.

Ideologias dificilmente levam em conta os fatos. Uma teoria econômica não aceita que errou ao defender que o mercado se autorregula, mesmo se ele se desregula. Chama os bancos centrais para cobrir seus rombos, mas continua achando que está certa.

Os regimes socialistas foram derrotados pela história (pelo menos por enquanto). Mas não abriram mão de suas crenças porque ouviram argumentos melhores. Dobraram-se aos fatos políticos, ou aos econômicos (o que confirma suas teorias?).

Muita gente diz que não há mais esquerda e direita, que essa divisão acabou, porque a esquerda perdeu e a direita mostrou que estava certa (o que implica uma concepção pragmática de verdade: se uma teoria deu certo, então é verdadeira). O árbitro não foi a razão. Foi a história, foram os fatos.

Mas é arriscado emitir juízos históricos com base em períodos curtos. Para a história, como se sabe, mesmo um século é um período curto. Imagine duas ou três décadas. Não sabemos como serão as sociedades dentro de 500 anos (como a humanidade é meio besta, não creio que avançaremos muito; haverá mais coisas como os tuíters, talvez; pode-se apostar, portanto, que teremos cada vez mais gente escrevendo que acabou de acordar ou seguindo Rafinhas, que, por sua vez, serão cada vez mais numerosos).

Tudo isso foi apenas para introduzir comentários sobre dois fatos, ou melhor, sobre discursos a respeito de dois fatos. Um é circunstancial. O outro se repete indefinidamente. E embute uma contradição.

O primeiro tem a ver com o discurso de Aldo Rebelo assim que assumiu o Ministério dos Esportes: disse que agiria (que faria convênios) mais com prefeituras do que com ONGs. Não lembro onde, mas li que essa posição decorria de ele ser de esquerda: esquerdas preferem implementar projetos por meio do Estado (prefeituras fazem parte do Estado!) a implementá-los por meio de organizações sociais (ONGs não são estatais; só seu dinheiro é).

Não tinha me dado conta, mas é o óbvio: ONGs proliferaram, no Brasil, durante o governo FHC, um governo associado à diminuição do Estado. Havia coisas a fazer? Que fossem feitas por "particulares". O Estado não saberia fazer. É mau gerente e é corrupto etc. (ONGs não, como se sabe...).

Não estou analisando contabilidades, nem desconheço que muitas ONGs são comandadas (ou foram criadas) por cidadãos de esquerda. Mas o discurso é esse: a esquerda prefere o Estado, a direita, os particulares. Pelo menos no discurso, no que se refere às justificativas.

O segundo fato tem a ver com o discurso da necessidade de fiscalização. Quem mais cobra fiscalização é a oposição, especialmente em nível federal (por razões óbvias). Ora, a oposição é composta basicamente por dois partidos (PSDB e DEM) liberais, cuja doutrina defende a diminuição do papel do Estado (basta ver os debates sobre o pré-sal).

É aqui, a meu ver, que reside a contradição deste discurso: se a economia deve ser entregue prioritariamente a sujeitos "empreendedores", privados, porque eles seriam mais honestos que o Estado (ou se este é mais corrupto que eles), por que seria necessário haver tanta fiscalização? Não há mais empresários honestos?


Sírio Possenti é professor titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso, Língua na Mídia e Questões de linguagem.

Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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