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Domingo, 18 de dezembro de 2011, 11h12

Comentário convidado: Aventura no multiverso quântico

Roberto De Sousa Causo
De São Paulo

Por Alfredo Suppia

Contra o Tempo (Source Code), dirigido por Duncan Jones e escrito por Ben Ripley. Estados Unidos/França, 2011, 94 minutos. Produção de Mark Gordon, Jordan Wynn e Philippe Rousselet. Com Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga, Jeffrey Wright e Russell Peters.

Vale a pena prestar atenção ao que o diretor Duncan Jones vem realizando no cinema, em especial no cinema de ficção científica.

O filho de David Bowie parece manipular com propriedade os "materiais" desse gênero cinematográfico. Talvez inspirado pela obra do pai, artista que mobilizava com habilidade a iconografia e o imaginário da ficção científica, no palco ou nas telas. Não esqueçamos que Bowie, pai de Jones, já cantou versos sobre a vida em Marte e sobre Major Tom em Space Oddity, já viveu na pele de Ziggy Stardust e do Homem que Caiu na Terra, de Nicholas Roeg. Uma consciência capaz de encarnar momentaneamente em diversas outras personas, como um semi-vivo, mantido em suspensão, porque capaz de se reinventar a cada retorno.

O début de Jones em longas-metragens, Lunar (2009), ofereceu uma curiosa jornada intimista no espaço exterior, uma parábola existencial centrada no isolamento. Sob o signo de filmes "de peso" como Solaris (1972), de Andrei Tarkovsky, Test Pilota Pirxa (1979), de Marek Piestrak, ou Blade Runner (1982), de Ridley Scott, Lunar explorou com habilidade o tropos do clone. Um filme aparentemente modesto em termos de produção, mas com resultados narrativos e estilo no mínimo interessantes.

Em Contra o Tempo (Source Code, 2011), mais uma vez Jones manipula material da ficção científica: agora o tropos da viagem no tempo ou, mais precisamente, o paradoxo temporal. Impossível se furtar a citar La Jetée (1962), de Chris Marker, como talvez a maior referência de Contra o Tempo. De toda maneira, o filme traz em seu DNA "pedaços da cromatina" não só do filme de Marker, mas também do Je t'Aime, Je t'Aime (1968), de Alain Resnais, e também de Primer (2004), de Shane Carruth.

Não será possível entrar em detalhes sobre o enredo de Contra o Tempo sem estragar algumas surpresas, portanto seremos apenas introdutórios. O militar Colter Stevens é destacado para uma missão tão especial quanto fantástica: descobrir a identidade de um terrorista que explodiu um trem antes de empreender ato ainda mais danoso na cidade de Chicago. Como fazê-lo? Numa "cápsula do tempo", o militar é capaz de retroceder 8 minutos antes da explosão do trem, assumindo o corpo de um de seus passageiros.

Para o diretor Jones parece divertido: o filme se apóia na repetição, uma qualidade intrínseca ao cinema. Para o personagem Colter Stevens, a tarefa não é simples: há centenas de passageiros no trem, a tecnologia de "time reassessment" é nova e instável. O militar falha uma, duas, três e mais vezes. A cada vez que o trem explode, ele retorna à cápsula do tempo, cognominada "Castelo Sitiado". A repetição cinematográfica da catástrofe nos lembra de escritos como Morte Todas as Tardes, de André Bazin, sobre a mórbida capacidade do filme em nos remeter repetidas vezes ao momento derradeiro de um ser vivo.

As idas e vindas do viajante do tempo lembram Je t'Aime, Je t'Aime, com a diferença de que a máquina do tempo do filme de Resnais parecia bem mais aconchegante. Espécie de La Jetée pós-11/9, Contra o Tempo também radicaliza a experiência do viajante do tempo em função de um caso amoroso, como nos filmes de Marker e Resnais. Mas à medida em que repete a experiência, Stevens vai aprendendo com seus erros. Paremos por aqui para não estragar a diversão.

Embora Contra o Tempo não tenha reviravoltas extremamente mirabolantes ou absolutamente imprevisíveis, o filme apresenta ecos de O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), de M. Night Shyamalan, e, mais obviamente, Matrix (1999), dos irmãos Wachovsky. E atenção: Contra o Tempo também traz McGuffins, aqueles elementos que servem para distrair o espectador, tão bem engendrados no cinema de Hitchcock. Identificar esses McGuffins ajuda a desatar os nós da missão de Stevens. O "grande" segredo de Contra o Tempo encontra-se diluído nesta própria resenha. Se quiser mesmo saber essa informação, volte ao início do texto e releia, como na aventura de Stevens. Do contrário, permita-se viver a realidade possível, ou alternativa, de assistir ao filme sem grandes expectativas ¿ e surpreenda-se positivamente.

POST SCRIPTUM: Lendo o paper de Zahra Jannessari Ladani, "The Machine and the Mind in Weinbaum's Science Fiction", apresentado no encontro da Science Fiction Research Association em Lublin, Polônia, neste ano de 2011, recuperei um dado que me havia passado despercebido quando escrevi a resenha de Contra o Tempo (Source Code). Trata-se não apenas da similitude entre Contra o Tempo e demais "jornadas psicológicas" como as descritas em filmes como La Jetée (1962), de Chris Marker, Je t'Aime, Je t'Aime (1968), de Alain Resnais, ou Somewhere in Time (1980), de Jeannot Szwarc, mas da semelhança do enredo do filme de Duncan Jones com o conto de Stanley Weinbaum, "The Worlds of If" (1935). Nesse conto, o protagonista Dixon Wells perde um vôo para a Rússia e o avião acaba caindo no trajeto. Por meio de um aparelho chamado "subjunctivizor", Dixon explora a realidade alternativa de sua presença no avião, onde também se apaixona por uma mulher. O acidente aéreo acontece como previsto e, diferente de Contra o Tempo, Dixon não consegue salvar a mulher nem a si mesmo. Tampouco o desdobramento da aventura no tempo resulta em uma realidade alternativa plenamente satisfatória para Dixon. Mas a semelhança de motivo principal entre Contra o Tempo e "The Worlds of If" merece destaque.

--Alfredo Suppia é autor do estudo

A Metrópole Replicante: Construindo o Diálogo

entre Metropolis e Blade Runner (2011)

e é o editor da revista acadêmica

Zanzalá

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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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Divulgação
Cartaz de Contra o Tempo (Source Code), dirigido por Duncan Jones

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