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Terça, 20 de dezembro de 2011, 08h01

Glauber Rocha, esse vulcão

Reprodução
Glauber Rocha no programa Abertura: cinema pulsante
Glauber Rocha no programa "Abertura": cinema pulsante

André Setaro
De Salvador (BA)

Lançado em dezembro de 1997, há, portanto, 14 anos, Glauber Rocha, esse vulcão, do intelectual, professor universitário, jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes (Joca), não mereceu, na época de seu lançamento, grande repercussão na imprensa brasileira, excetuando-se algumas publicações. Não se pode compreender tal omissão, considerando que o livro é a mais perfeita biografia do autor de Deus e do diabo na terra do sol. Compareci ao seu lançamento na saudosa Livraria Civilização Brasileira, que ficava situada no primeiro piso do Shopping Barra, em Salvador, e tenho o livro, para minha honra, com o autógrafo do autor. Li-o, na época, de cabo a rabo, quase numa só sentada, porque o estilo de Joca é fluente, escreve bem, convidando o leitor a mergulhar nos seus escritos.

Quero chamar a atenção para o livro do jornalista João Carlos Teixeira Gomes num momento em que outro livro sobre Glauber, pleno de inverdades e informações truncadas, está na crista da onda: A primavera do dragão, de Nelson Motta. Aqui mesmo, no Terra Magazine, há algumas semanas, uma reportagem imensa atesta, colhendo depoimentos de quase todos os sobreviventes da Geração Mapa, os erros cometidos por Motta. Sobre ser uma biografia do cineasta baiano, o maior dos brasileiros em todos os tempos, Glauber Rocha, esse vulcão (Nova Fronteira), é também um livro analítico da filmografia glauberiana. E mais: um resgate saboroso de um tempo baiano que não existe mais: os anos dourados da década de 1950, quando a Bahia fervilhava de talentos e eventos, movimentos e efervescência criadora.

Glauber Rocha nasceu em 1939, e, se vivo fosse, estaria com provectos 72 anos, uma idade respeitável, ainda que os progressos da Medicina atualmente façam de um homem dessa idade ainda uma pessoa capaz e atuante. Antigamente, na época de Machado de Assis, por exemplo, um indivíduo, ao entrar na casa dos 40, já era considerado um senhor de idade. Há um trecho num de seus contos exemplares em que Machado dizia que Fulano de Tal, com 41 anos, amargava a velhice que se despertava. Mas Glauber, que morreu em 1981, com a mesma idade do personagem do nosso maior escritor, era um adulto jovem. A imagem que ficou desse que é o mais expressivo realizador cinematográfico brasileiro de todos os tempos é a do Glauber ativo, falante, animador, provocador (basta vê-lo já nos seus estertores no programa Abertura da extinta TV Tupi).

Se estivesse vivo o que Glauber Rocha pensaria do momento atual, e da globalização que está a tornar o indivíduo cada vez mais egoísta, distante daquele espírito coletivo do qual Glauber foi um grande animador? O que estaria a dizer da neo-chanchada que tanto agride a inteligência do cinéfilo e de qualquer pessoa pensante? Polêmico por natureza, gostava de jogar vatapá no ventilador. Para a compreensão do temperamento glauberiano, o melhor livro que se pode ler é este de autoria de João Carlos Teixeira Gomes, Glauber, esse vulcão, Joca, como é mais conhecido, foi um dos maiores amigos de Glauber e conviveu com ele nos seus momentos cruciais desde os tempos em que eram colegas do Colégio Estadual da Bahia (o inesquecível Central). Além de um excelente perfil biográfico do realizador de Deus e o diabo na terra do sol, João Carlos Teixeira Gomes também analisa, com rigor perfuratriz, precisão e lucidez, seus filmes mais marcantes. É obra para se ter e guardar.

Onde se localiza a herança de Glauber Rocha nesse cinema da chamada Retomada? Creio que os filmes de Walter Salles, entre outros da contemporaneidade, estão mais ligados ao espírito "on the road" dos filmes de Wim Wenders, a procura da identidade perdida etc. Glauber Rocha foi importante na sua época, embora alguns de seus filmes, como Terra em transe e Deus e o diabo na terra do sol sejam obras permanentes pela sua criatividade, pelo seu cinema pulsante, pela genialidade de sua articulação das imagens em movimento. Não vejo na história do cinema brasileiro, ainda que repleto de grandes filmes, obras que possam se equivaler a estes dois momentos glauberianos, obras-primas absolutas. E acrescente-se O dragão da maldade contra o santo guerreiro, cuja montagem deixou Martin Scorsese de boca aberta.

Quando, pela primeira vez, ainda jovem, vi Deus e o diabo na terra do sol foi um assombro. Nunca tinha visto um filme brasileiro de tal impacto, de tal grandiosidade. Um crítico carioca, Alex Viany, chegou a afirmar que a cada vez que assistia a "Deus e o diabo" não conseguia chegar a um processo crítico mais consciente dado o assombro causado pelo filme. A revelação de Glauber Rocha neste filme traumatizou duramente toda uma geração de cineastas nacionais, que se tornaram, por assim dizer, filhos de Glauber.

Muitos que o combatiam, com a sua inesperada morte, passaram a elogiá-lo, e se tornaram, porque não filhos de Glauber, as viúvas de Glauber numa demonstração cínica de oportunismo.

Tive a honra de entrevistar Glauber Rocha, em outubro de 1976, para a Tribuna da Bahia, jornal soteropolitano, quando o redator-chefe era João Ubaldo Ribeiro, amigo íntimo do grande cineasta. Durante toda uma tarde, eu, Carlos Borges, Ubaldo, conversamos com Glauber num depoimento que foi gravado e trechos significativos publicados em página inteira no seu caderno de variedades.


André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br

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