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Sexta, 23 de dezembro de 2011, 08h15

Um Feliz Re-2011 para todos!

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo


(foto: Dreamstime/ Terra)

Estimadíssimos leitoríssimos, pois praticamente em cima da hora resolvi fazer que nem aquele antigo centroavante, o Claudiomiro, e driblar o destino, fazendo que fui, mas acabei não fondo.

Algo me diz que esse é o passo certo a não dar. Entre o conhecido e o incerto, a gente tem mais é que ficar aqui mesmo, quietinhos e relativamente contentes no agasalho que já sabemos, no conforto do já mapeado, na segurança do que não vai ficar pior do que já é, e seguramente foi melhor do que muitos outros tempos passados.

2012 não me parece o lugar certo para passarmos os próximos 365 dias. Só essa discussão sobre o que os maias quiseram dizer quando falaram que o mundo ia acabar já liquida com a minha paz de espírito e com a delicadeza da minha cútis. Em 2011, praticamente nada acabou, nem o Gremão, olhem que beleza. As únicas coisas que acabaram em 2011 foram ditaduras árabes, olhem que beleza!

Se ficarmos em 2011, entre outras vantagens, não vai acontecer 2014, e só em dinheiro desviado das obras da Copa vamos economizar bilhões. Isso sem falar que, sem Copa, dificilmente a Alemanha vai fazer o que ela vai fazer com o timeco do Mano se houver Copa.

Em 2012, falam que o euro pode acabar e que a Europa pode entrar em um processo de fratura. Vocês lembram das outras vezes em que isso aconteceu? Quem quer entrar em um ano que pode acabar parecido com 1914 ou 39? Esse neto da minha avó Jovita é que não.

Do lado de cá do Atlântico, e já que o tema é desmiolados, os Estados Unidos têm eleição para presidente. Se não for o Obama, será um republicano. Vocês já viram os candidatos republicanos à presidência dos Estados Unidos? Alguns parecem uma combinação entre a inteligência do Bolsonaro, a humanidade do Malafaia, e a gentileza do Kim Jong Il, além da genialidade geopolítica de um Kadafi. Quem quer entrar em um ano que pode nos doar um sujeito desses no comando da ainda maior potência do mundo?

Um ano em que sabe-se lá o que a Coreia do Norte vai aprontar, em que o Putin pode voltar a comandar a Rússia, em que o PCdoB pode governar Porto Alegre, e ainda em que os Los Hermanos pretendem voltar, é simplesmente assustador demais pra mim.

Fico aqui, quietinho. Vão vocês, me deixem.

Não vou precisar datar os cheques antecipadamente pra não errar na hora de preencher. Não vou ter que lembrar de todos os aniversários de um monte de gente que não está no Facebook, não vou ter que arrumar formas de financiar o meu luxuoso estilo de vida, porque tudo isso já foi feito, já que estamos, sempre estaremos, em 2011.

Vou poder ler com calma os melhores livros do ano ainda no mesmo ano em que saíram. Não vou precisar ver os filmes do Oscar 2012. Não vou ter que me preocupar com o show do João Gilberto, que já foi cancelado em 2011, não vou ter que saber por quanto o Mantega vai errar a previsão de crescimento ou de inflação, já sei em quanto vai andar a Bovespa, o dólar e o yuan.

O futuro é sempre uma curiosidade, mas não quando ele é uma certeza, e não das melhores. Se eu fosse um europeu em julho de 1914, teria tratado de ficar ali mesmo, jamais ir para agosto e tudo que veio junto. Esse é o truque, caros leitores. Ver o que está se armando ali adiante, e, dependendo das circunstâncias, não ir.

Me respondam vocês: as mulheres vão estar mais legais em 2012? Vão subitamente ter desenvolvido coisas inusitadas, tais como senso de humor? O Gremão vai aparecer um time mais do que sub-medíocre? A Globo vai decidir renovar toda a teledramaturgia brasileira e acabar com as novelas? O sertanejo universitário vai dar dois suspiros e morrer? Os cardeais católicos e bispos evangélicos vão parar com a homofobia? A Brahma vai começar a fazer cerveja decente? O Congresso vai se transformar num real parlamento representativo das necessidades da sociedade brasileira? A Souza Cruz vai ter um acesso de culpa e parar de produzir morte em rolinhos? O Natal de 2012 não vai ter disco da Simone e luzinhas? Algum livro meu vai ganhar o Nobel?

Então, pra quê?

Essa é a minha decisão irrevogável, vão vocês, eu fico. Fico aqui, numa boa, tomando cervejinha e vendo milhares de filmes que eu já vi no Netflix. Quem me garante que os que eu não vi vão ser melhores do que esses?

E essa é a essência da coisa, estimados milhares de leitores. Ano novo só se justifica se for novo. Se for que nem automóvel brasileiro, que troca a lanterna e diz "novo", não vale nem a pena nem o preço.

Se já compraram o espumante, os fogos, a cueca amarela e a calcinha branca, ou o contrário, nunca sei; se já estão embalados demais para fazerem a coisa certa, tudo bem, vão. Mas não digam, nunca digam, que eu não avisei.

Para mim, um Feliz Re-2011, e até a próxima.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br
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