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Segunda, 26 de dezembro de 2011, 08h05

Noitebook

Antonio Risério
De Salvador (BA)

Nesses dias de festas, fica difícil desenvolver qualquer tema. Não que eu me envolva no lance. As festas é que me envolvem, desde que quase ninguém pensa ou fala em outra coisa. Mas tudo bem. Sento diante do computador e me disponho a escrever ao sabor da brisa.

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Acabo de reler, depois de anos, "A Poética do Espaço", de Gaston Bachelard. Confesso que, aqui e ali, me cansa. Não precisava ser tão "literário". Mas acabo encontrando uma frase ótima, ainda que não formulada como eu gostaria: o ser humano é um ser no qual os pássaros perderam a confiança.

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Declaração de um amigo, cujo nome não devo revelar: "Eu amo a humanidade, mas detesto gente".

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Olho com simpatia e admiração a baiana da Corregedoria (CNJ) que está emparedando os magistrados. Quem não quer ser investigado é porque, no mínimo, tem alguma culpa no cartório. E, muito provavelmente, merece estar na cadeia.

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"Não devemos prejulgar ninguém". Não aguento mais ouvir isso, quando o assunto é corrupção. Nesses últimos vinte anos, no Brasil, quase 100% dos "prejulgados" eram realmente culpados. Ou seja: a estatística nos autoriza, sim, a prejulgar. Se os políticos querem mudar isso, que se comportem direito. O que é insuportável é cinismo de gatuno.

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A vaidade é a última que morre.

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Tom Zé me lembrou, outro dia, que, antigamente, as pessoas saíam do ginásio sabendo escrever. É verdade. Minha mãe, que nunca cursou uma faculdade, escreve muito melhor que suas filhas, portadoras de diplomas de "curso superior" (vai entre aspas, sim: nenhum ensino no Brasil, hoje, pode ser considerado "superior"). E as coisas, nesse particular, seguem piorando. Quando eu era adolescente, considerávamos Fernando Sabino (Encontro Marcado) um escritor do terceiro time. Hoje, as pessoas andam escrevendo tão mal, que se tornou um prazer ler textos de Sabino...

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Nossos repórteres esportivos são imbatíveis. A moda, agora, é dizer que Ganso, por exemplo, deu duas ótimas "assistências" a Neymar, por exemplo. É uma lamentável "tradução literal" do inglês. Em nossa língua, "assistência" não significa "passe", mas ambulância. Então, imagine-se a cena: o jogo é interrompido, para que Ganso atravesse o campo e presenteie Neymar com uma ambulância novinha em folha. Seria o máximo. Mas adaptações e traduções estúpidas não ficam por aí. Volta e meia, em nossos jornais e revistas, encontro a expressão "dramaticamente" usada de modo totalmente disparatado. É que a turma, julgando-se informada, copia direto do inglês. Acontece que, em inglês, "dramatically" significa espetacularmente. Outro dia, num jornal, li que a pobreza, no Brasil, foi reduzida "dramaticamente". O que será mesmo que o sujeito quis dizer com isso?

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Não acho que o vale-tudo linguístico, hoje preconizado por tantos professores e estudiosos, deva ser comprado em nome do que é vendido. Minha discordância é política e mesmo ideológica. Fala-se em nome de uma perspectiva supostamente "libertária". Não é. As pessoas não escrevem errado porque querem. O escrever errado é produto da opressão e da exclusão culturais.

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Cansado de ouvir minha mulher ouvindo rock alemão, pauleira "punk" do Rammstein, tasquei na vitrola um disco antigo dos Rolling Stones. Não fez diferença. Tudo é igualmente tosco. Ruim. E Mick Jagger, cantando, é só um pouco melhor do que o chatíssimo Rod Stewart. Como vi que tanto fazia, entre Stones e Rammstein, me lembrei de John Cage: mil vezes a rudeza do rock do que a enjoativa "sofisticação" do jazz. Quanto a mim, atualmente, em matéria de música, virei o anti- Verlaine. Prefiro, de longe, o silêncio.

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Mas há uns versos dos Stones de que não me esqueço nunca: "when you call my name/ i salivate like a Pavlov dog" (quando você diz meu nome/ eu salivo como o cão de Pavlov)...

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Penso em assumir de público e de uma vez por todas, como organização terrorista estritamente individual, meus atentados bem sucedidos contra os Estados Unidos. Só em matéria de furacões, por exemplo, despachei dois nos últimos anos. E para ninguém botar defeito: o Katrina, tempos atrás, e mais recentemente o Irene. Neste caso, é verdade, nem fiz o serviço completo. Era para o furacão ir destelhando casas, sim, mas ao som de uma canção do nosso Caetano Veloso: "quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada".

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Por falar em Caetano, diz ele que "política é o fim". Mas tudo indica que os políticos pensam outra coisa: política é um meio. Para que? Perguntem a eles.

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Não comentei antes por estar cansado do assunto. Fizeram um barulho danado por conta de um comercial onde um ator "branco" fazia o papel do "negro" Machado de Assis. Duas coisas. Primeiro: vamos deixar de boçalidade ideológica: Machado não era preto - era mulato. Segundo: ele teria adorado ser mostrado como branco. Detestava qualquer referência a sangue negro correndo em suas veias. Detestava ter qualquer ascendência africana. Esta é a verdade.

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Só tem uma coisa pior do que artista falando de política. É político falando de cultura.

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Talvez seja um bom momento para lembrar uma frase antiga de John Dewar, o escocês que inventou a garrafa térmica (nem só de uísque vivia a velha Escócia): "Mentes são como paraquedas - só funcionam quando estão abertas".


Antonio Risério é poeta e antropólogo.

Fale com Antonio Risério: ariserio@terra.com.br

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