Atualizada às 08h57 Francisco Viana
De São Paulo
Estamos no fim do ano e a reflexão em torno do cristianismo torna-se inevitável. Também, é inevitável uma reflexão em torno do jeitinho brasileiro. Ernest Bloch, em O princípio esperança, defende uma tese que merece atenção. Ele parte do fundamento de que a revolta dos escravos judeus contra a dominação egípcia antecede a religião e, sob esse aspecto, o pai fundador do cristianismo é Moisés, que se sobrepõe à "fantastiquice" da figura de Jesus. Sim, é a palavra que ele usa e que não é vazia de sentido, mas essa é uma outra discussão.
Bloch escreve, ao argumentar que a ação humana precede o mito religioso da terra prometida, Canaã:
"Um povo escravo representa aí a necessidade que ensina a rezar. E surge então um fundador, cuja primeira ação é matar a pancadas um supervisor de trabalhos forçados. O sofrimento e indignação estão na origem de tudo, assim que, de antemão, fazem da fé um caminho para a liberdade".
Escreve mais:
"A intervenção de Moisés modificou o conteúdo da salvação que, nas religiões pagãs, especialmente nas mítico-astrais, havia constituído o seu alvo totalmente exterior e já pronto. No lugar do alvo pronto aparece agora um alvo prometido que primeiro precisa ser conquistado; no lugar do deus visível da natureza surge agora um Deus invisível da justiça e do reino da justiça".
Foi essa busca que tirou a religião fundada por Moisés do limite geográfico do Sinai para a universalidade. O cristianismo encarnou, nas origens, o sonho maior de redenção dos homens. Foi sempre a grande utopia, o grande sonho, a despeito dos muitos desvios e vertentes em que se fragmentou. Quando Deus, no relato mítico, surge diante de Moisés, o que Ele diz: "Eu sou aquele que é". E o que é ser o que é? É ser o real, a realidade, ser a concretude da vida. É esse o espírito que vai dominar o cristianismo dois séculos a.C. no Império Romano e que vai fazer da religião cristã a redenção dos pobres e oprimidos.

(foto: Sxc.hu/ Terra)
Eis o espírito autêntico do cristianismo. Eis o espírito que se perdeu com a mitificação de Jesus, banindo a Sua condição de homem, que permaneceu em Moisés, para divinizá-la. Eis porque o Natal sugere essa reflexão em torno das raízes comunitárias da religião cristã, fortemente defendidas por Moisés. Canaã é o homem. O homem é Canaã. Não poderia existir a libertação dos escravos sem o homem. Não foi uma decisão de deus, externa ao homem, mas uma vontade interna do homem.
Se sairmos de Moisés e do cristianismo e formos para o candomblé, aqui pertinho de nós, na Bahia, vamos ver que a religião dos escravos se afirma com a revolta dos Malés. Foi um movimento que data da primeira metade do século XIX e que seguiu a trilha da famosa revolta dos escravos do Haiti. É um episódio pouco conhecido, pouco lembrado, mas real. Um episódio libertário que faz parte das nossas melhores tradições históricas.
Deixando de lado as revoltas dos escravos e nos fixando no Brasil dos dias atuais, o que significaria ser um cristão autêntico? Primeiro, pensar na ação e concentrar-se na solução dos grandes problemas brasileiros. Deixando, assim, o jeitinho de lado. O jeitinho tem suas origens na religião que procura moldar, não naquela que prega a igualdade.
Vamos falar, por exemplo, de um problema de base. O conflito do cidadão com o Estado e do Estado com o cidadão. É um conflito que encontra sua síntese na má utilização dos impostos. O brasileiro paga impostos em demasia e não encontra no que gasta a necessária contrapartida. Por quê? O cidadão não respeita o Estado.
E o desrespeito se dá nas coisas aparentemente mais insignificantes: o trânsito, o respeito às leis, a ética nos negócios, na política, enfim, no dia a dia. Não se entende que o cidadão é o Estado e que o exercício da cidadania começa pela eleição dos governantes. Corruptos, políticos que não representam, líderes que não lideram não devem ser eleitos para cargo algum. Seja presidente, senador, deputado ou o que quer que seja, do líder sindical ao síndico do prédio. Quando esse passo for dado com plenitude, o Estado respeitará o cidadão porque não será mais o Estado de um grupo de indivíduos, mas o Estado que representa a sociedade. Tudo o mais que acontece com o brasileiro hoje é decorrência dessa dualidade: cidadão de um lado, Estado do outro. Ação de um lado, crítica do outro. Discurso de um lado, realidade do outro.
Esse, o espírito do jeitinho.
O nosso olhar precisa ser dirigido para a realidade concreta. O senhor que nos oprime não é o Estado, mas somos nós. É a sociedade que cria o Estado, não o contrário. Se historicamente, o Estado nasceu antes da sociedade é um atavismo que precisa ser superado. O que o brasileiro tem escolhido é o caminho mais simples: não paga impostos, reclama do governo, não protesta, pouco se mobiliza. Mas é muito bom no futebol, no carnaval, nas festas. Faz greves de aeroportos quando há movimento, sem pensar que isso desprestigia os sindicatos e paralisa serviços básicos em ocasiões que estes precisam funcionar pois envolvem grandes massas. Pensa-se corporativamente ou pessoalmente, esquece-se de olhar a sociedade no conjunto.
Não é esse o caminho para construir a democracia. Claro, é preciso relativizar a omissão. Não se trata de uma omissão total. Caso contrário, ainda estaríamos na ditatura e não se estaria escolhendo governos livremente. Mas é preciso transitar do exercício do voto para a democracia concreta. Pensar no real objetivo. Pensar que a grande ética começa por pensar no outro, pensar coletivamente, pensar no longo prazo. Abolir o imediatismo.
Canaã foi um movimento que congregou todo um povo. Seu exemplo deve servir de espelho. A religião não é um escapismo, mas o resultado da ação concreta para resolver impasses sociais. O céu, há muito, desceu à terra. O homem não se projeta no futuro abstrato, no reino acima das nuvens, mas no reino da terra. Ele vive no paraíso e na arena humana. Fazer da arena humana o paraíso é o desafio dos homens.
Penso no Natal, nas festas de fim de ano e, imediatamente, penso em Bloch. Ele foi formado e viveu entre a geração que ambicionou mudar o mundo no alvorecer do século XX e criticou o mundo nos anos 60 e 70. Tinha raízes no cristianismo social. Entendia que a religião era pouco compreendida pela esquerda - ele próprio um marxista libertário - e fundamentou a sua esperança utópica na esperança real-objetiva.
Penso nele porque seu exemplo é inspirador e os três volumes de O princípio esperança, uma bíblia que a sociedade moderna esqueceu. O Natal e o Ano Novo são tempos de festas, de presentes, de viver a vida com intensidade, mas são também tempos de pensar no caminho percorrido. Afinal, "o amanhã vive no hoje e está sempre perguntando por ele", como assinala Ernest Bloch. Qual será o nosso amanhã? O que é o nosso hoje? Apenas o passar do cartão de crédito nas máquinas registradoras? Entupir os shoppings centers na farra do consumo? Endividar-se até o pescoço para ser não o que sou, mas o que não sou? Não. O amanhã do Brasil é uma grande democracia de massas. Aqui, está germinando algo novo, algo que pode mostrar o caminho para europeus e americanos. A grande civilização atlântica, democrática e igualitária, fraterna e sensual, festiva e produtiva. Simples e sofisticada.
Precisamos ter uma mente dialética atenta para o diálogo entre o presente o futuro. Uni-los pode representar romper com os grilhões dessa escravidão insana que é não reconhecer o Estado como tal e colocar para dirigi-lo personagens alheios, totalmente alheios ao espírito de Canaã. Quando tivermos aprendido que nós somos o Estado, sem qualquer alienação, teremos um Estado democrático verdadeiro, coletivo, real. Teremos leis que nascem do cidadão organizado, não de grupos de influência ou para privilegiar esse ou aquele setor. Haverá dignidade, não submissão.
É esse o espírito que transpira do cristianismo e de religiões que defendem a igualdade, a liberdade e a fraternidade. Esse, o sentido humano da democracia. Na democracia, não existe jeitinho. Mas, sim, participação.
Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br
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