Mauricio Tagliari
De São Paulo
2011 se acaba e, em meio às listas de melhores filmes, cds e livros, me sinto compelido a rememorar os melhores goles do ano. Não foram poucos. Grandes vinhos e cervejas. Alguns bons coquetéis. Muitas degustações de alto nível. O vinho é o setor mais ativo. Produtores portugueses, argentinos, chilenos e italianos, num esforço organizado, tentam ganhar terreno no aquecido mercado do Brasil. Gregos, espanhóis e franceses também marcam presença.
Algumas iniciativas merecem destaque, como o início das atividades da The Special Wineries, importadora especializada em vinhos austríacos. Preenchem uma lacuna antiga para o consumidor brasileiro. Mas ao fazer um balanço do ano etílico, sem dúvida, o meu destaque vai para o vinho brasileiro. Em primeiro lugar, do ponto de vista pessoal, porque tive a oportunidade de conhecer várias casas produtoras e seus apaixonados e simpáticos proprietários. Participei de algumas degustações históricas promovidas pelo Ibravin na Serra Gaúcha.
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Em segundo lugar, por acompanhar de camarote as atividades do projeto Wines of Brasil, realizado pelo Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho) e pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), que atravessou o mundo participando de vários dos mais importantes eventos enológicos da atualidade. Os resultados são expressivos, tanto do ponto de vista de negócios como de crítica.
Andreia Gentilini Milan, gerente do Wines of Brasil, destaca que o valor médio exportado pelas empresas integrantes do projeto cresceu 114% de janeiro a junho deste ano, em comparação com igual período de 2010. "Isso significa que estamos exportando produtos de maior valor agregado para o exterior".
Marcando presença em 8 países definidos como mercados prioritários, a saber Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Hong Kong, Países Baixos, Polônia, Reino Unido e Suécia, o Brasil conquistou, entre outras coisas, a sua primeira medalha de ouro no International Wine Challenge 2011, um dos concursos independentes de vinhos mais prestigiados e influentes do mundo. Os resultados do Desafio do Wine Challenge foram anunciados na abertura da London International Wine Fair (LIWF), em Londres, Inglaterra, consagrando o espumante Grand Legado Brut Champenoise, da vinícola Wine Park, como o primeiro rótulo verde-amarelo a receber ouro no concurso, disputado por mais de 12 mil amostras de 48 países. Aurora (4 medalhas), Basso (3), Salton (3), Wine Park (2), Geisse (2), Pizzato (2), Serra Gaúcha (2), Domno (2), Góes e Venturini (1), Miolo (1), Lidio Carraro (1), Don Giovani (1) e Santo Emílio (1) foram outras vinícolas com produtos premiados.
Oz Clarke e Charles Metcalfe, renomados críticos internacionais, elogiaram os espumantes nacionais, que, entre outros louros, ganharam 3 medalhas de ouro no concurso francês Vinalies Internationales 2011 (pelo Aurora Espumante Moscatel Rosé, da Vinícola Aurora, pelo Garibaldi Espumante Moscatel, da Vinícola Garibaldi, e pelo Ponto Nero Espumante Brut, da Domno do Brasil).
O espumante brasileiro, porém, obteve talvez seu maior destaque na Wine Future 2011, que aconteceu de 6 a 8 de novembro, em Hong Kong. Pela primeira vez, um rótulo do Brasil foi apresentado na degustação conduzida por Jancis Robinson, uma das mais prestigiadas críticas de vinho do planeta. Ela incluiu o Cave Geisse Brut 1998, que tive a sorte de provar na degustação histórica citada acima, no seu painél "Além de Bordeaux", quando apresentou a mil ouvintes rótulos de 15 países que merecem mais atenção. "Os vinhos selecionados são de alta qualidade, vindos de alguns tradicionais produtores e também de mercados emergentes como Brasil, Turquia e China", disse ela.
* Nota de degustação de Jancis Robinson sobre o espumante Cave Geisse Brut 1998
Magnum, recentemente chegado do Brasil. Que revelação! De um dourado profundo. Bela evolução olfativa (brioche embebido no café com leite), porém sem exagero. Perlage com borbulhas muito delicadas. Profundo, delicioso paladar com notas bastante evoluídas de vegetação, cobre e de fortunela. Muito persistente. Um dos mais impressionantes espumantes que me chegaram em muito tempo! Nota: 18,5/20 (Jancis Robinson).
Para coroar o seu excelente ano internacional, vinhos brasileiros são indicados e pontuados pela primeira vez na revista Wine Enthusiast, na edição de dezembro da publicação norte-americana.
A revista Wine Enthusiast, uma das mais conceituadas publicações sobre vinhos dos Estados Unidos e do mundo, indicou oito vinhos brasileiros na sua última edição, de 15 de dezembro. Foram citados os vinhos Miolo Sesmarias safra 2008, Quinta do Seival Castas Portuguesas safra 2004, Miolo Terroir safra 2005, Lidio Carraro Quorum safra 2006, Pizzato Concentus safra 2005, Pizzato DNA 99 safra 2005, Miolo Merlot safra 2005 - indicado como "Best Buy" (melhor compra), e Miolo Lote 43 safra 2004.
Antes disso, Adam Strum, fundador, presidente e editor da Wine Enthusiast, escreveu sobre os vinhos brasileiros em sua coluna de novembro do ano passado. "O Brasil pode ser o próximo país emergente da América do Sul a causar um impacto nos EUA e mercados globais, seguindo os passos dos seus vizinhos mais consagrados, a Argentina e o Chile. A Cave Geisse, situada no sul de Bento Gonçalves, tem seus vinhedos em altitudes muito elevadas, onde as colinas são uma reminiscência da Toscana, mas com muito mais frio. Tanto o Brut como o Natural e o Rosé da Cave Geisse atingiriam a casa dos 90 no cartão de pontuação de qualquer crítico."
Não se descuidando do mercado interno, pelo Circuito Brasileiro de Degustação, o Ibravin atraiu 1.700 pessoas nas três etapas realizadas em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Tive a honra de, junto com respeitados colegas, participar de uma mesa para degustação comentada de cinco magníficos espumantes brasileiros. Fomos:
Suzana Barelli - Miolo Millésime Brut D.O. 2009
José Luiz Pagliari - Ponto Nero Extra Brut Gran Reserva
Sergio Inglez de Sousa - Don Laurindo Brut Malvasia de Cândia safra 2010
Maurício Tagliari - Lidio Carraro Dádivas Brut
Daniel Perches - Valmarino Churchill Brut
Outras duas degustações que gostaria de destacar foram tops brasileiros até R$ 200 e Copa América, organizadas por iniciativa de Gustavo Kauffman, do blog Enoleigos. Em ambas os brasileiros surpreenderam experientes degustadores. Vale conferir os links.
As boas notícias também vieram das esferas políticas. A aprovação por unanimidade pelos deputados estaduais do Rio Grande do Sul, de projeto de lei enviado pelo governador Tarso Genro, que aumenta o repasse de recursos ao Ibravin de 25% para 50% do Fundovitis, é certeza de mais trabalho e mais resultados positivos pela frente.
Infelizmente, nem tudo sempre dá certo. A triste notícia para nós, novos e velhos embaixadores do vinho brasileiro, veio da meteorologia. Uma forte chuva de granizo que durou somente 10 minutos, em meados de dezembro, foi o suficiente para danificar vinhedos em toda a Serra Gaúcha. "Os cálculos iniciais apontam uma perda de 15 milhões de quilos de uva somente em Flores da Cunha", informa Olir Schiavenin, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Flores da Cunha e Nova Pádua. Segundo o diretor-executivo do Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho), Carlos Raimundo Paviani, muitos viticultores tiveram perda total. "O pior é que muitos parreirais terão de ser replantados, o que afetará a produção não só deste ano mas dos próximos", alertou.
É uma pena. Esperemos que o golpe não seja muito profundo. Precisamos estar preparados para oferecer cada vez mais os deliciosos produtos brasileiros não só para o consumidor nacional, que já adotou nossa espumante, como para a invasão de turistas esperada em eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
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